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despedida

Dercy é velada na Assembléia Legislativa do Rio

A comediante não resistiu a pneumonia e faleceu no fim da tarde deste sábado


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20/07/2008 12:23

O corpo da atriz e humorista Dercy Gonçalves, que morreu aos 101 na tarde de sábado está sendo velado neste domingo, 20, na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Depois o corpo seguirá para a cidade natal de Dercy, Santa Maria Madalena, no interior do Estado, onde será enterrado nesta segunda-feira, 21, no mausoléu da família.

Segundo nota divulgada pelo Hospital São Lucas, em Copacabana, Dercy chegou à unidade com sinais de "uma pneumonia comunitária grave", que, segundo os médicos, evoluiu rapidamente para um quadro de "sepse pulmonar e insuficiência respiratória".

O prefeito de Santa Maria Madalena, Clementino da Conceição, declarou luto oficial de uma semana na cidade. O governador Sérgio Cabral e o prefeito do Rio, Cesar Maia, decretaram luto oficial no Estado do Rio e na capital em homenagem à atriz. Cesar Maia também afirmou no sábado que vai buscar um logradouro ou equipamento público para batizar com o nome da atriz.

Na segunda-feira, Dercy fez um talk show no Bar do Nelson, da empresária Lilian Gonçalves, em uma das comemorações de seus 101 anos. No bar, que fica no centro de São Paulo, ela contou ter 102 anos, mas, como seus pais demoraram a registrá-la, ficou com 101. A atriz incluiu na idade o período em que estava na barriga de sua mãe e pediu um bolo de 103 anos, porque queria "entrar para o Guinness Book".


Polêmicas e palavrões
Dercy Gonçalves nasceu em Santa Maria Madalena (RJ), em 23 de junho de 1907. Na verdade, chamava-se Dolores Gonçalves Costa. Sua mãe, Margarida, abandonou muito cedo a família, tão logo soube da infidelidade do marido. Dercy foi criada pelo pai, um alfaiate nascido em Portugal e que tentou educá-la com toda a rigidez possível. Mas não tinha jeito: sob as barbas dele, não raro Dolores já prenunciava a Dercy que viríamos a conhecer, escandalizando a cidadezinha com atitudes pouco aconselháveis a uma menina de sua época. Em casa, costumava pintar o rosto e representar para as irmãs - motivo suficiente para que o pai lhe aplicasse um corretivo.

Dercy começou a trabalhar muito cedo: foi bilheteira de cinema e ganhava dinheiro apresentando-se para hóspedes do pequeno hotel de sua cidade. Estreou pra valer em 1929, no elenco de uma Companhia Maria Castro. Fazia teatro itinerante pelo interior do País. Com um certo Eugênio Pascoal, compunha uma dupla batizada de "Os Pascoalinos".

Claro que se especializou na comédia e no improviso. Mas começou a se destacar de verdade no auge do teatro de revista brasileiro, nos anos 1930 e 1940. Em 1943, na companhia do empresário Walter Pinto, estrelou "Rei Momo na Guerra", de autoria de Freire Júnior e Assis Valente.

A partir da década de 1960, Dercy inicia uma série de espetáculos em que atuava sozinha. Nesses espetáculos, em que seguia viajando pelo Brasil, começou a introduzir monólogos nos quais contava casos de sua vida, já naquele estilo irreverente e desprovido de papas na língua. Nessa época, já atuara em uma dezena de filmes, especialmente as chanchadas e as comédias nacionais. Ao longo da vida, viria a atuar em 24 produções.

Na televisão, chegou a ser a atriz mais bem paga da TV Excelsior, em 1963. Entre 1966 e 1969, apresentou, na Rede Globo, um programa de auditório de muito sucesso - "Dercy de Verdade", que acabou saindo do ar por por causa da censura imposta pela ditadura militar. Reapareceu no final dos anos 1980, no corpo de jurados de Sílvio Santos.

No SBT, voltou a comandar um programa próprio, que teve curtíssima duração. Já idosa, dizendo-se vítima de um golpe que teria desfalcado suas finanças, retomou a carreira, já octogenária.

Em 1985, recebeu do Ministério da Cultura o Troféu Mambembe, numa categoria criada especificamente para homenageá-la: Melhor Personagem de Teatro. Seis anos depois, sua carreira virou samba-enredo no carnaval carioca. "Bravíssimo - Dercy Gonçalves, o retrato de um povo" foi o tema do primeiro desfile da Unidos do Viradouro entre as escolas doGrupo Especial. Dercy mostrou-se uma senhora de peito: aboletada no último carro, atravessou a avenida com os seios à mostra.

A polêmica e o escracho eram as marca de Dercy Gonçalves. Dizia não acreditar em santo e ter como religião a natureza: "Deus é um apelido. Para mim, ele não existe". Apesar disso, gostava de enaltecer a religiosidade da filha, Dercimar, e também o seu caráter: "A f.d.p. nunca me roubou".

Alertando os desavisados de que um dia já tinha sido criança, Dercy tinha lá suas vaidades e por isso fez mais de 10 plásticas. Tinha também suas esquisitices, se é que podemos chamá-las assim: dizia não gostar de sexo nem de tomar banho. Sua biografia, Dercy de Cabo a Rabo (Editora Globo), foi escrita por Maria Adelaide Amaral.

Agência Estado


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