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Frei Betto lava mágoas e cobra Lula em livro
No livro-diário "Calendário do Poder", ex-auxiliar dispara contra homens do presidente
03 Jun 2007 - 14h45min
Exaltado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em todos os palcos do mundo, como a grande marca de seu governo, o programa Fome Zero não passou, dentro do Palácio do Planalto, de um patinho feio e enjeitado para o qual ninguém ligava. Seu comandante, o ministro José Graziano, era incompetente, não se entendia com os auxiliares - Frei Betto e Oded Grajew - e nunca liberava dinheiro. O ministro Luiz Gushiken, que devia ajudar a divulgar o programa pela Secretaria de Comunicação (Secom), barrava todas as iniciativas a seu favor.
O ministro-chefe José Dirceu recusava-se a marcar audiência para discuti-lo. Os prefeitos de todo o País queriam controlar os cadastros e ignoraram os tais “comitês gestores” do plano, com total complacência do Planalto. E o próprio Lula, cujos olhos brilhavam ao elogiar a idéia, abandonou as tarefas de organizar e mobilizar os grupos sociais, pouco fazendo além de promessas logo esquecidas.
Tanta indiferença teve um preço para o governo. Ele é cobrado, com mágoa e rigor, nas 519 páginas de Calendário do Poder, o livro-diário de Carlos Alberto Libânio Cristo, o Frei Betto, que a Editora Rocco lança esta semana. Amigo íntimo do presidente, mas dissidente de seu governo desde o início - pois esperava uma guinada radical para a esquerda -, Frei Betto faz de suas memórias uma metralhadora giratória.
Ironiza d. Mauro Morelli pela pressa em ter um cargo - que acabou não conseguindo -, denuncia Benedita da Silva diretamente ao presidente por empregar evangélicos, ataca Gushiken por não divulgar o programa, opõe-se às invasões de Duda Mendonça sobre sua área, bate duro em Antonio Palocci pela política econômica, cobra Dirceu por não recebê-lo e critica Patrus Ananias quando este chega ao ministério. “Sua visão é excessivamente estatizante para meu gosto”, dispara contra o chefe do recém-criado Bolsa-Família, que afundou de vez os sonhos do autor.
No ministério petista, Frei Betto era quase um solitário. Encarregado da Mobilização Social do Fome Zero, e rejeitando a idéia de apenas distribuir comida, ele sonhava montar grupos voltados a educação e cidadania. “Custo a engolir que a Presidência não dispõe de recursos para a mobilização social”, anota ele no diário, já no início de março de 2003. No mês seguinte, já faz uma profecia: “Se até dezembro de 2004 não houver uma guinada do governo a favor de demandas populares, pedirei demissão.” Cumpriu a promessa. A seguir, alguns dos episódios dessas memórias.
‘Falta ao Zé Dirceu ser presidido...’
A velha amizade com Lula e a primeira-dama Marisa Letícia e a condição de assessor especial davam a Frei Betto fácil contato - ao menos por carta - com o presidente. Nessas mensagens ele criticava e fazia sugestões. Como esta, em abril de 2003: “Lula, é hora de repensar o governo. Ministro tem que ser gestor. Demita quem não é capaz de bem administrar.” Mais adiante: “Por favor, não peça mais paciência à Nação. Ela espera há séculos”. Ou ainda: “... Não se arrisque a repetir o vexame histórico de Lech Walesa, de Daniel Ortega e tantos outros que frustraram a esperança de milhões.”
Numa reunião, Lula se chateia ao saber que Dirceu não atende Frei Betto para discutir formas de apoio. “É a terceira vez que falo isso e o Zé não convoca o Betto”, queixou-se o presidente. Frei Betto completa, nas memórias: “Não resisti à ironia: falta ao Zé Dirceu ser presidido...”
Benedita ‘não larga o osso’
A ex-ministra Benedita da Silva aparece no livro logo nas primeiras páginas. É quando, derrotada por Anthony Garotinho, liga para Lula e avisa: “Agora quero você cuidando de mim...” Volta à cena em carta que Frei Betto escreve a Lula, em 13 de agosto de 2003: “Querido Luiz Inácio, li com espanto a notícia de que Benedita da Silva nomeia evangélicos para o ministério dela. A ser verdade, representa um retrocesso, pois uma das mais significativas conquistas da modernidade é o Estado laico, não-confessional. (...) Temo que Benedita seja acusada de ‘aparelhar’ seu ministério com pessoas de sua denominação religiosa.” Fraternalmente, Carlos Alberto.”
E uma terceira vez com a reforma ministerial de janeiro de 2004. “Benedita da Silva não queria largar o osso. Insistia em permanecer no governo. Trancada em seu gabinete no Ministério de Assistência e Promoção Social, recusou-se a receber Patrus Ananias para realizar a transição. Gilberto (Carvalho, secretário de Lula) viu-se obrigado a ir lá, em missão de paz...”
Procura-se um negro para o STF
Numa breve anotação, em 6 de março de 2003, Frei Betto informa os critérios com que o governo monta o Supremo Tribunal Federal. “Marcio Thomaz Bastos indagou se conheço um negro com perfil para ocupar vaga no STF. Lula pretende nomear um afrodescendente para a Suprema Corte do País. Lembrei-me de Joaquim Barbosa. O ministro ficou de convocá-lo para uma entrevista.”
Joaquim Barbosa foi empossado no STF dia 8 de maio seguinte. Frei Betto o conhecera casualmente em um aeroporto, meses antes.
A inveja e a mancada
No jantar de fim de ano com ministros, em 2003, Lula fez longo elogio a Antonio Palocci. Frei Betto descreve: “Zé Dirceu quedou-se visivelmente constrangido com as loas de Lula a Palocci. Não sei se a propósito disso, mas Lula veio soprar em meu ouvido, mais tarde, esta frase de Gilberto Gil: “É mais fácil separar o átomo do que acabar com a inveja”.
Tempos depois, o autor conversa com Dirceu sobre sua cara chateada, naquele jantar, e ouve: “O que você queria que eu dissesse? O Lula dá aquela mancada de só elogiar a política de Palocci, como se nenhum de nós tivesse feito nada durante o ano...”
Ninguém informa o presidente
A 18 de junho, conta Frei Betto, voltou com Lula de viagem ao Paraguai. Viu na TV a notícia de que Sandro, filho do presidente, sofrera tentativa de assalto ao ir apanhar a namorada em Santo André. Duas horas depois, resolveu ligar para Lula, em solidariedade, e saber como estava.
“Tudo bem com o Sandro?
Sim, por quê?
A tentativa de assalto, falei.
Que tentativa?, reagiu perplexo o presidente.
Inacreditável! Malgrado a Secretaria de Segurança Institucional, a Abin, a Polícia Federal, o Centro de Informações do Exército, o da Marinha e o da Aeronáutica, o presidente não sabia de nada. Soube pelo telefonema de um amigo, que foi informado por um jornal da TV.”
O ministro-chefe José Dirceu recusava-se a marcar audiência para discuti-lo. Os prefeitos de todo o País queriam controlar os cadastros e ignoraram os tais “comitês gestores” do plano, com total complacência do Planalto. E o próprio Lula, cujos olhos brilhavam ao elogiar a idéia, abandonou as tarefas de organizar e mobilizar os grupos sociais, pouco fazendo além de promessas logo esquecidas.
Tanta indiferença teve um preço para o governo. Ele é cobrado, com mágoa e rigor, nas 519 páginas de Calendário do Poder, o livro-diário de Carlos Alberto Libânio Cristo, o Frei Betto, que a Editora Rocco lança esta semana. Amigo íntimo do presidente, mas dissidente de seu governo desde o início - pois esperava uma guinada radical para a esquerda -, Frei Betto faz de suas memórias uma metralhadora giratória.
Ironiza d. Mauro Morelli pela pressa em ter um cargo - que acabou não conseguindo -, denuncia Benedita da Silva diretamente ao presidente por empregar evangélicos, ataca Gushiken por não divulgar o programa, opõe-se às invasões de Duda Mendonça sobre sua área, bate duro em Antonio Palocci pela política econômica, cobra Dirceu por não recebê-lo e critica Patrus Ananias quando este chega ao ministério. “Sua visão é excessivamente estatizante para meu gosto”, dispara contra o chefe do recém-criado Bolsa-Família, que afundou de vez os sonhos do autor.
No ministério petista, Frei Betto era quase um solitário. Encarregado da Mobilização Social do Fome Zero, e rejeitando a idéia de apenas distribuir comida, ele sonhava montar grupos voltados a educação e cidadania. “Custo a engolir que a Presidência não dispõe de recursos para a mobilização social”, anota ele no diário, já no início de março de 2003. No mês seguinte, já faz uma profecia: “Se até dezembro de 2004 não houver uma guinada do governo a favor de demandas populares, pedirei demissão.” Cumpriu a promessa. A seguir, alguns dos episódios dessas memórias.
‘Falta ao Zé Dirceu ser presidido...’
A velha amizade com Lula e a primeira-dama Marisa Letícia e a condição de assessor especial davam a Frei Betto fácil contato - ao menos por carta - com o presidente. Nessas mensagens ele criticava e fazia sugestões. Como esta, em abril de 2003: “Lula, é hora de repensar o governo. Ministro tem que ser gestor. Demita quem não é capaz de bem administrar.” Mais adiante: “Por favor, não peça mais paciência à Nação. Ela espera há séculos”. Ou ainda: “... Não se arrisque a repetir o vexame histórico de Lech Walesa, de Daniel Ortega e tantos outros que frustraram a esperança de milhões.”
Numa reunião, Lula se chateia ao saber que Dirceu não atende Frei Betto para discutir formas de apoio. “É a terceira vez que falo isso e o Zé não convoca o Betto”, queixou-se o presidente. Frei Betto completa, nas memórias: “Não resisti à ironia: falta ao Zé Dirceu ser presidido...”
Benedita ‘não larga o osso’
A ex-ministra Benedita da Silva aparece no livro logo nas primeiras páginas. É quando, derrotada por Anthony Garotinho, liga para Lula e avisa: “Agora quero você cuidando de mim...” Volta à cena em carta que Frei Betto escreve a Lula, em 13 de agosto de 2003: “Querido Luiz Inácio, li com espanto a notícia de que Benedita da Silva nomeia evangélicos para o ministério dela. A ser verdade, representa um retrocesso, pois uma das mais significativas conquistas da modernidade é o Estado laico, não-confessional. (...) Temo que Benedita seja acusada de ‘aparelhar’ seu ministério com pessoas de sua denominação religiosa.” Fraternalmente, Carlos Alberto.”
E uma terceira vez com a reforma ministerial de janeiro de 2004. “Benedita da Silva não queria largar o osso. Insistia em permanecer no governo. Trancada em seu gabinete no Ministério de Assistência e Promoção Social, recusou-se a receber Patrus Ananias para realizar a transição. Gilberto (Carvalho, secretário de Lula) viu-se obrigado a ir lá, em missão de paz...”
Procura-se um negro para o STF
Numa breve anotação, em 6 de março de 2003, Frei Betto informa os critérios com que o governo monta o Supremo Tribunal Federal. “Marcio Thomaz Bastos indagou se conheço um negro com perfil para ocupar vaga no STF. Lula pretende nomear um afrodescendente para a Suprema Corte do País. Lembrei-me de Joaquim Barbosa. O ministro ficou de convocá-lo para uma entrevista.”
Joaquim Barbosa foi empossado no STF dia 8 de maio seguinte. Frei Betto o conhecera casualmente em um aeroporto, meses antes.
A inveja e a mancada
No jantar de fim de ano com ministros, em 2003, Lula fez longo elogio a Antonio Palocci. Frei Betto descreve: “Zé Dirceu quedou-se visivelmente constrangido com as loas de Lula a Palocci. Não sei se a propósito disso, mas Lula veio soprar em meu ouvido, mais tarde, esta frase de Gilberto Gil: “É mais fácil separar o átomo do que acabar com a inveja”.
Tempos depois, o autor conversa com Dirceu sobre sua cara chateada, naquele jantar, e ouve: “O que você queria que eu dissesse? O Lula dá aquela mancada de só elogiar a política de Palocci, como se nenhum de nós tivesse feito nada durante o ano...”
Ninguém informa o presidente
A 18 de junho, conta Frei Betto, voltou com Lula de viagem ao Paraguai. Viu na TV a notícia de que Sandro, filho do presidente, sofrera tentativa de assalto ao ir apanhar a namorada em Santo André. Duas horas depois, resolveu ligar para Lula, em solidariedade, e saber como estava.
“Tudo bem com o Sandro?
Sim, por quê?
A tentativa de assalto, falei.
Que tentativa?, reagiu perplexo o presidente.
Inacreditável! Malgrado a Secretaria de Segurança Institucional, a Abin, a Polícia Federal, o Centro de Informações do Exército, o da Marinha e o da Aeronáutica, o presidente não sabia de nada. Soube pelo telefonema de um amigo, que foi informado por um jornal da TV.”
Agência Estado
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