Raymundo Netto
Especial para O POVO
A sina incansável dos autores cearenses desconhecidos (quase todos os são) na ávida busca de seu público leitor para o lançamento de suas obras
08/09/2008 01:10

Quando o autor e/ou sua obra são bastante aplaudidos pela crítica e público, das duas, uma: ou eles são muito bons ou são, realmente, muito ruins!
Esse paradoxo que, à primeira vista, parece não significar coisa alguma, também transita em outras linguagens artísticas ou mesmo em outros aspectos menos importantes da vida, como a política, por exemplo.
Não está entendendo? Pois veja só pelo que passei dia desses:
Um desconhecido autor cearense, quase todos os são, ligou para convidar-me para o lançamento de seu livro. Disse ter sabido o número de meu telefone por meio de um "colega"... Assim como aquele outro autor - não menos cearense; não mais conhecido - que contou ter convidado Deus e o mundo para um de seus lançamentos (dizem que faz lançamentos até em paradas de ônibus e banquinhas de feira), e destes, só Deus comparecera, também esse jovem relatou que num primeiro lançamento desse mesmo livro não havia aparecido ninguém. "Ninguém", achei, era modo de dizer...
O certo é que divulguei o tal lançamento. Era de um romance de título pouco literário, premiado. A capa mais parecia de guia de turismo e nela se lia: "romance indígena".
Embora com outras e diversas atribuições, prometo, cumpro: fui a tal evento.
Chegando lá, encontrei um jovem de pouca altura por trás de uma mesinha. Perguntei se era o autor. Confirmou-me e retornou:
- E você, quem é?
- Sou o Raymundo Netto.
- Então acho que só vem você! - sentenciou, numa conformação de dar gosto.
O lançamento estava marcado às 19 horas. Demos, pela ignorância de coisa melhor a fazer em lançamentos de livros, a conversar miolo de pote. Ele falava muito, mostrava-me, espalhados em fila sobre a mesa, os livros de um outro autor que dera, naquela tarde ainda, a certeza da presença e que ele aguardava ansioso para vê-lo autografar suas páginas... Ainda bem, pensei, que por ali não faltavam cadeiras para o rapaz esperá-lo... até hoje!
Confirmou que aos 16 anos "encontrou inclinação à faina poética" e dez anos depois, "romancista, poeta lírico, compositor, teatrólogo, dramaturgo, contista e escritor", vivia da venda de seus livros - tinha mais de seis títulos, dentre eles, alguns traduzidos para o inglês e francês, garantiu. Lembrei outra figurinha que afirma ser o autor mais "não-publicado" do Ceará...
Em seu livro, assinava as orelhas, o preâmbulo, o posfácio (o prefácio foi o editor) e a extensa sinopse da quarta capa (que tem como fundo a bandeira do Brasil), além de oferecer um glossário, apenso histórico e um roteiro de leitura (lembra daquelas fichas de leitura do tempo de colégio? Voltaram!)
Disse-me não ler livro de ninguém. Autor cearense? Nem pensar! (abria exceção para o Alencarzão) Escrevia e pronto!
Falou-me do "sonho" de entrar para a Academia Cearense de Letras e que "iria labutar, incessantemente, para isso" (angustiei-me). Detalhe: há poucos meses, soube, "adentrou" (acho que ele prefere essa forma) os umbrais de uma das 999 academias de letras existentes no Ceará.
Em meio ao "convescote", e com todo o jeito, tentei convencê-lo de que aquilo não era romance indígena, pois o autor (ele) não era índio. No máximo, indianista. Ele sorriu paciente e simplificou: todos éramos índios.
- Tudo bem, mas se tentar explicar isso para os índios é capaz de eles se ofenderem... - alertei.
Criticou-me quando soube que eu distribuía livros - "doidice" - e pôs-se a me dar conselhos e orientações. Foi quando, finalmente, perto das 21 horas, uma funcionária da livraria, muito delicadamente, dirigindo-se a ele, perguntou se achava vir mais alguém - estavam precisando do espaço - e se poderiam servir o coquetel. Ele olhou para mim e lançou: "Pode?" "Sim, claro, acho que é boa a hora!"
Uma mocinha sorridente, então, trouxe-nos duas bandejas circulares grandes com salgados de toda a espécie e 24 copos de refrigerante. Sentamos os dois numa pequena mesa da livraria, e diante da farta oferta, pus-me a dividi-la com alguns clientes. Uma das, nos disse: Ah, hoje tem lanche por aqui? Está melhorando...
Ao despedir-me, porém, o "neófito" deu-me umas tapinhas nas costas, torceu o canto da boca num sorriso de consolo, e pude perceber que, mesmo diante do imenso vazio de sua solidão, ele ainda conseguia forças para sentir pena de mim.
Raymundo Netto. Outro autor que não sabe mais o que fazer para dar conta de tantos lançamentos que acontecem, diariamente, na cidade de Fortaleza. Contato: raymundo.netto@uol.com.br