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Vida & Arte

FILOSOFIA

Infância desejada

Angélica Feitosa
da Redação

O professor da universidade de Nova Lisboa, José Gil, participa do IX Simpósio Internacional de Filosofia Nietzsche e Deleuze, que acontece de amanhã, 7, até o dia 11. em discussão, os devires da criança


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06/09/2008 00:33

José Gil, professor português que faz conferência amanhã, na abertura do IX Simpósio Internacional de Filosofia Nietzsche e Deleuze (Divulgação)
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José Gil, professor português que faz conferência amanhã, na abertura do IX Simpósio Internacional de Filosofia Nietzsche e Deleuze (Divulgação)

Na sociedade do trabalho, a disciplina e processos de avaliação escolar não dão espaço para os impulsos e vontades, criatividades e imaginação em plenitude. A criança cresce e se educa com o objetivo de encontrar um lugar para um lavor bem sucedido. Moldada aos poucos, a criança recebe as regras do mundo adulto. Romper com isso, é pensar o impensável.

A partir de uma metáfora palpável, o devir - conceito filosófico - é comparado a uma criança. Características do conceito, como o impulsos perenes, a força de mudança, a vontade de tornar-se impregnada são vistas em abundância no universo infantil, antes da chamada idade da razão. A partir dessa comparação, a nona edição do Simpósio Internacional de Filosofia Nietzsche e Deleuze reúne pensadores e filósofos do Brasil e do mundo para discutir A Inocência do Devir e O Devir Criança do Pensamento.

As discussões partem da apropriação de Nietzsche e Deleuze do conceito formulado pelo filósofo grego Heráclito, o devir. O professor português da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Nova Lisboa, José Gil, é um dos participantes. Ele acredita que o processo de modernização da educação é mascarado de uma liberdade criativa. Em entrevista ao O POVO, de Lisboa, às vésperas da viagem a Fortaleza, José Gil defende que a lógica do adulto é impregnada na educação infantil, pensada para uma futura produtividade. "É uma falsa liberdade, porque tira toda potência do individuo, a potência criadora infantil, que foi limitada e reprimida".


O POVO - Com a idéia de um futuro programado, acaba sendo retirado das crianças o inesperado, as escolhas e descobertas. Qual a relação do controle a o devir criança?
José Gil - Isso tem sido alvo de estudos de especialistas em educação. A princípio, parte-se da pergunta: o que é uma criança? É um ser que se transforma constantemente, está em devir constante. Ela pode passar cinco minutos a brincar, depois imitar alguém e, logo em seguida, passar a fazer uma outra cosa. Pode brincar com os mundos, os números, imaginar. É alheia às regras da lógica. Existe toda uma outra maneira de pensar. Agora, como se formata uma criança? Não é uma tarefa dentro do contexto da história da educação, uma história de disciplina, que educa para alcançar o objetivo de a criança interiorizar as regras do pensamento adulto. Para um filósofo tão importante como (o holandês Bento de) Espinosa (1632/ 1677), as crianças eram vistas antes como seres sem humanidade até os sete anos. Somente depois dessa idade, a razão começava a fazer parte do universo da criança. Hoje, sabemos que a disciplina corta as possibilidades, canaliza a capacidade do devir, quando, por exemplo, uma criança que estar a brincar dentro de uma turma é reprimida, tem o seu comportamento delimitado. Ao mesmo tempo, defende-se que a aprendizagem e o conhecimento faz parte da experiência. É um dilema permanente. Ao pensarmos educação, numa outra idéia de civilização, considera-se muito importante que os devires sejam também instrumentos de aprendizagem e isso não é admissível na escola, porque o devir é politicamente, socialmente, culturalmente incorreto. Até mesmo porque os devires produzem seres desejantes e não há lugar no mundo do trabalho e do consumo para seres livres e desejantes. Os desejos então são canalizados.

OP - De que modo a sociedade repele esses seres desejantes?
Gil - Hoje não há espaço seres desejantes, que não seguem as regras da sociedade da massificação. Por exemplo, não é lugar para um sujeito que quer o tempo e o espaço dele. Isso é impossível porque o espaço e o tempo são regulados no mundo do trabalho. Os corpos não podem ser livres, não podem ser criativos, porque cria outros ritmos que não estão condizentes com os ritmos sociais do trabalho. Entra-se, assim, no campo das banalidades.

OP - O senhor acredita que pensar o impensável é agir com o Devir?
Gil - O desejo é o devir. O devir é uma transformação que pode implicar o pensamento, que implica uma prática, mas não é uma prática impensável. Mas se for avaliada dentro de certas regras tradicionais que regem a sociedade, aí sim, é uma prática impensável, mas é pensável pelo devir.

OP - A arte seria, então, uma forma de romper com isso?
Gil - Sim, sim. Os artistas que têm condições de trabalho são seres privilegiados. Eles estão no campo da criação e da disposição. Pelo menos idealmente, o desejo tem espaço para ser livre. Mais precisamente, a arte é inconcebível sem devires, sem o processo de criação. É impossível.

OP - O podar dos devires está presente também na arte, quando ela se submete às exigências mercadológicas.
Gil - Absolutamente.

OP - Como se insere o artista dentro desse contexto de exigências do mercado?
Gil - Isso é uma das características do fim da arte moderna e da arte contemporânea, quando o mercado da arte se introduziu no próprio valor estético da arte. Quando se passou a dizer como o valor do uso, em termos marxistas, foi desnaturado pelo valor da troca. Isso quer dizer que o dinheiro e o mercado da arte já vêm a influenciar o interior do próprio valor estético. É um fato que desnatura e vem comprometer terrivelmente o próprio processo de criação. São muitos os jovens artistas que muito rapidamente morrem pra arte. A arte é apanhada como um sistema, dentro de outro sistema que é o mercado de arte - submetido ao processo midiático. Assistimos a uma época em que dois ou três anos do sucesso de criação, o artista não produz, não escreve como no primeiro momento. É um processo em que fica estéril, viram fakes.

OP - Dentro da pedagogia e educação empregada nas escolas de todo o mundo, de sempre preparar as pessoas para o futuro, desde crianças, como esse futuro negativo de escolhas se coloca dentro do universo imediato infantil?
Gil - Ao se pensar nisso, devemos falar nas várias classes de idade. Uma das fases mais visíveis está na maneira de como os jovens apreendem o que se faz da educação que recebem. Há problemas em todos os países europeus com a adolescência, que já é naturalmente de problema - não no sentido negativo, mas por se de passagem, negação da família e até da sociedade em muitos aspectos. É impossível que todos ficassem passíveis do cinismo da disciplina, das instituições. Por ser intolerável, esses pilares são alvos da revolta desses jovens. Com as crianças menores é mais difícil. Em geral, uma disciplina é imposta quando ainda são muito jovens. É o caso da modernização do ensino básico e fundamental na Europa. Existe uma disciplina e um controle por todo o sistema de avaliação, todo o novo sistema de modernização em todos os países da Europa. Isso vai causar necessariamente patologias da educação. Até nos docentes, que são obrigados a seguir esse sistema. As notas e faltas da universidade, por exemplo. Isso vai repercutir na própria maneira de pensar a educação, o crescimento do aprendizado de uma criança. O devir da criança é inadmissível socialmente. Uma criança muito espontânea é classificada de suspeita. Há um risco real nisso. Elas seguem as regras e estão foram desses padrões de conduta. Por ser inadmissível, elas são levadas aos psicólogos.

OP - Como os processos de disciplina são colocados na sociedade para serem considerados aceitáveis?
Gil - Aparentemente, toda essa disciplina é muito menos rígida, as linhas são tênues. Simplesmente por ser uma educação que se funda na avaliação de competência. Tudo que um indivíduo faz, deve ser quantificado, comparado e existe um padrão do comportamento. Tudo que é fora da regra, é nesse tempo inclui-se a criação, vai ser eliminado. Nesse sentido, está a criação de uma democratização pela modernização do ensino, que, na verdade, é uma catástrofe. Sobretudo pelo sistema extremamente burocrático, da avaliação do detalhe mais rítmico da competência dos currículos, bem determinados pelos resultados. A direção que se impões ao ensino é de vir atrelado ao mercado de trabalho. Justamente por isso, a filosofia estar a se findar em Portugal e outros países. Não é um fim direto e claro, mas por muitas vias. Chega-se ao estado em que muitas escolas já não ensinam filosofia. Porque o ensino é direcionado para o resultado.

OP - Os processos avaliativos, tão questionados, ainda permanecem.
Gil - Se você não tem uma possibilidade de deixar livre, aquilo é visto com não avaliável. O que é criativo e inimitável, incomparável é sem avaliação. Como colocar, dentro de padrão de quantificação de competências, como classificar o espaço infantil?

OP - Como se colocam as resistências sociais quando o devir permanece?
Gil - É mesma resistência no caso de, por sorte, esses devires das crianças são voltados para necessidades aceitáveis socialmente. Como, por exemplo, uma grande obra literária ou de um compositor que mesmo saindo das normas razão do mercado, teve um alcance, conseguiu romper. Entretanto, se não é um tipo que não chega, é médio apesar de criativo, ele é posto na ordem da patologia. Isso é muito mais sutil do que estou dizendo. Nós já ultrapassamos a sociedade do controle. Agora, é uma sociedade que aparentemente deixa uma liberdade. E, finalmente, essa liberdade é limitada à precariedade do trabalho. É uma falsa liberdade, porque tira toda potência do individuo, a potência criadora infantil, que foi limitada e reprimida.


SERVIÇO

IX Simpósio Internacional de Filosofia Nietzsche/ Deleuze - A Inocência do Devir / O Devir Criança do Pensamento. De 7 a 11 de setembro, no Teatro do Centro Dragão do Mar. Abertura neste domingo, às 14h30min no auditório da Escola de Saúde pública do Ceará. Informações: 3101 1080


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