Kelly Costa
Especial para O POVO
O despertar de Uma Paixão traz grandes interpretações de Naomi Watts e Edward Norton. O casal Fane aprende o que é o amor, um passo de cada vez
05/09/2008 00:56

"Na fonte límpida, resolvi passear
A água era tão linda que resolvi me banhar
Há muito tempo que te amo
Jamais te esquecerei."
Tradução de À la claire Fontaine, música tradicional francesa
No início de O Despertar de uma Paixão, Walter Fane (Edward Norton) vai a um baile e se encanta com uma bela jovem, filha dos donos da casa. Desajeitadamente, ele a chama para dançar. Kitty (Naomi Watts) aceita como que para fazer um favor. No dia seguinte, Walter vai todo feliz entregar-lhe um presente e convidá-la para um passeio. O presente é esquecido num canto e o passeio é aceito para se livrar das provocações da mãe. Walter pergunta a Kitty se quer casar com ele. Ela acha o pedido apressado, mas acaba aceitando quando descobre que a irmã mais nova vai casar e ouve a mãe dizendo que já desistiu dela.
Kitty é linda, educada e frívola. Vive num mundo onde seus desejos são mais importantes que qualquer outro. O ano é 1925. Walter é bacteriologista e leva a esposa para morar em Xangai, na China, onde trabalha. Sem falar mandarim, numa terra com outros costumes e com um marido silencioso por quem não sente atração nenhuma, Kitty acaba se aborrecendo e se apaixonando por um homem também casado. Quando Walter descobre a traição, não faz um escândalo. Dá a opção de Kitty escolher entre ir com ele para um vilarejo no interior da China ou se divorciar por adultério, o que na época era um escândalo.
Quando vê que o amante não compartilhava dos mesmos sentimentos que ela, Kitty decide ir com Walter. Mas o vilarejo miserável está com uma grave epidemia de cólera. Sem conforto, amigos, carinho do marido, que passa a ignorá-la solenemente, e num lugar onde os ingleses são malvistos (é o auge do nacionalismo na China), Kitty vai aprendendo a diferenciar problemas de chateações e a finalmente amar o marido.
O Despertar de uma Paixão é produzido pelos protagonistas. Edward Norton levou muito tempo para conseguir levar ao cinema essa adaptação de The Painted Veil, romance de William Maughan. Todo o filme é muito bem cuidado na fotografia, nos figurinos e nos diálogos. O ritmo é lento, mas não a ponto de cansar, apenas é um meio de mostrar com detalhes a transformação de Kitty e também de Walter.
Walter acaba deixando a passividade e o romantismo de sua visão de mundo quando se depara com a cólera real. Ele, que trabalhava em laboratório e só via os vibriões coléricos em tubos de ensaio, precisa conviver todos os dias com pessoas morrendo e se desidratando num ritmo assustador. Quando decide proibir as pessoas de usarem o poço e conseguir que o exército obrigue os moradores a enterrarem imediatamente os mortos, contrariando os costumes, Walter compra uma briga séria com os nacionalistas.
Duas pessoas que se casaram pelos motivos errados são unidas num ambiente que aparentemente só poderia favorecer uma separação. No meio da cólera, uma paixão floresce bem devagar, tal como uma flor. Primeiro a semente se rompe, cria raízes, o caule cresce, as folhas brotam e as pétalas se abrem. Como diz um provérbio chinês, a flor que nasce na adversidade é a mais rara e bela de todas.