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Luto na boemia

Alinne Rodrigues
Especial para O POVO

Aos 75 anos, Waldick Soriano morreu na manhã de ontem, vítima de câncer. Considerado o Frank Sinatra brasileiro, o cantor deixa uma vasta obra fonográfica, com 84 discos e mais de mil composições


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05/09/2008 00:56


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Romântico, cafona, brega. Acima de qualquer rótulo, Waldick Soriano reinou, solene, nos radinhos de pilha do povo brasileiro. O cantor e compositor tinha 39 anos quando se tornou imortal para a música popular do País: era 1972, e a música, Eu não sou cachorro, não. A carreira começara 12 anos antes, quando o cantor decidiu deixar Brejinho das Ametistas, distrito do município de Caetité, na Bahia, para tentar a vida em São Paulo. Compositor de grandes boleros e sambas-canção, Waldick teve uma infância solitária, brincando sozinho debaixo da mangueira no quintal de casa. Trabalhou desde menino, e, até os 27 anos, já tinha sido lavrador, vaqueiro e garimpeiro.

Sabia tocar sanfona (diz-se que causava frisson nas festinhas da igreja na cidade natal) e tinha uma voz marcante. Logo na primeira semana na capital, bateu à porta da rádio Record, que costumava ouvir no Nordeste, mas nada conseguiu. Rumou, então, para os estúdios da Chantecler, gravadora que lançou o primeiro dos 84 discos que gravou. Eurípedes Waldick Soriano, então, tornaria-se somente Waldick Soriano, compositor de mais de mil canções, retratando homens sofredores, amores mal resolvidos, a realidade dos cabarés e das prostitutas e, principalmente, cantando dores-de-cotovelo. "Eu gosto de sofrer de amor porque faturo, sou poeta. E o poeta sem a dor de corno não cria nada", disse Waldick ao O POVO, em entrevista no ano de 2001. Entre os grandes sucessos estão Paixão de um homem, A carta (de J. Louzada e J. Gonçalves) e A dama de vermelho.

Na verdade, Waldick saiu da Bahia querendo ser ator. Fã de carteirinha de filmes de faroeste (e o foi até o fim da vida), desejava transformar-se no Durango Kid brasileiro. E, de certa forma, conseguiu: com chapéu de caubói, terno e óculos escuros, emulava o ídolo no palco. Em 1972, ano em que atingiu o auge da carreira, estrelou um filme sobre ele mesmo, intitulado Paixão de um homem. Mas a realização do sonho veio mesmo no ano seguinte, com o longa Poderoso garanhão, no qual viveu um caubói.

O último disco de inéditas veio em 1978, Quero ser teu escravo. Mesmo sem lançar novas músicas, o cantor continuou fazendo shows pelo Brasil durante os anos 80 e 90, isso sem mencionar uma candidatura a deputado federal de Pernambuco, da qual desistiu antes das eleições - apesar de garantir que ocupava o primeiro lugar em popularidade. Em 2003, sem muito alarde na mídia brasileira, Waldick recebeu o prêmio da organização americana Broadcast Music, Inc. (BMI), responsável pelo licenciamento de músicas de mais de 6,5 milhões de artistas de todo o mundo. Anualmente, a BMI faz um levantamento das músicas mais executadas nas rádios norte-americanas, e o "rei do brega" figurou entre os vencedores com El Malquerido, versão de Fujo de ti, de sua autoria.

O nome de Waldick, no entanto, somente voltou a circular nas páginas dos cadernos de cultura no ano passado, quando lançou CD e DVD ao vivo, gravados no Cine São Luiz, em Fortaleza, sob direção de Patrícia Pillar. A atriz também foi responsável pela realização do documentário Waldick, sempre no meu coração, sobre a trajetória do cantor, desde os tempos de Brejinho das Ametistas até se tornar o "Frank Sinatra do Nordeste".

Em entrevistas ao longo da carreira, Waldick afirmou diversas vezes que já sabia com que idade ia morrer: aos 152 anos. Bem-humorado, ele teve uma vida boêmia, vivida de cabaré em cabaré, regada a muita cachaça de alambique e uísque com rapadura, o tira-gosto preferido. "Já fui o maior cabarezeiro do Brasil", afirmou em uma outra entrevista ao O POVO, esta em 1990. Amou tantas mulheres quantas foram possíveis, deixando oito herdeiros - de mães diferentes.

Morando em Fortaleza desde 2001, ficou por aqui durante 7 anos, trocando a cidade pelo Rio de Janeiro há poucos meses, em abril, devido à saúde debilitada. O velho coração começou a dar sinais de falha aos 61 anos, quando teve um infarto. Depois dele, seguiram-se quatro pontes de safena, e, dali a 12 anos, os primeiros sinais do câncer de próstata. Após momentos de melhor e pior estado, o câncer evoluiu e se tornou generalizado, até tirar do romântico a vida, na manhã de ontem, às 5h30min. O cantor estava internado desde domingo, 31, no Instituto Nacional do Câncer, no Rio de Janeiro.

Cronologia
1933 - Nasce Waldick Soriano

1960 - Waldick lança o primeiro compacto, Quem és tu?/Só você, pela Chantecler

1970 - Trocando a Chantecler pela Continental, o cantor lança Waldick, em 1968, e em 1970, o LP No coração do povo, de onde saíram os sucessos Paixão de um homem e Carta de amor

1972 - Com o LP Ele também precisa de carinho, Waldick chega ao auge da fama, com Eu não sou cachorro, não. Com o sucesso da música, ele entrou para o cinema, estrelando o filme Paixão de um homem, de Egídio Eccio.

1973 - A segunda incursão pelo cinema: o filme O poderoso garanhão, um faroeste protagonizado por Waldick

1980 - A década foi marcada pela participação de Soriano em programas populares de TV, como os de Chacrinha, Sílvio Santos e Bolinha

1990 - O cearense Falcão regrava Eu não sou cachorro, não em uma versão bem-humorada, I'm not dog no, sucesso que trouxe de volta a memória de Waldick

2001 - Waldick Soriano muda-se para Fortaleza, morando em um apartamento no Mucuripe

2002 - É lançado o livro Eu não sou cachorro, não - música popular cafona e ditadura militar, do pesquisador Paulo César de Araújo. No livro, ele afirma que a música está "na memória coletiva nacional como Asa Branca, Mamãe eu quero e Luar do sertão"

2006 - Patrícia Pillar dirige a gravação do DVD Waldick Soriano ao vivo, no antigo Cine São Luiz, em Fortaleza, show também lançado em CD

2007 - Waldick, sempre no meu coração, dirigido por Patrícia Pillar, estréia. Em Fortaleza, o filme foi exibido durante o 18º Cine Ceará, edição ocorrida em abril de 2008

2008 - Debilitado, o cantor volta para a família em abril, no Rio de Janeiro, onde faleceu na manhã de ontem, 4 de setembro

Alguns discos de Waldick

Quem és tu? / Só você (1960)
Ninguém é de ninguém (1960)
Dona do meu coração / Mais uma desventura (1961)
Perdão pela minha dor / Amor de Vênus (1961)
Sede de amor / Renúncia (1961)
Waldick Soriano (1961)
Fujo de ti / Tortura de amor (1962)
Ciúmes / Desunião (1962)
Homenagem a Recife / Amor numa serenata (1962)
Cantor apaixonado (1962)
Quem é você? / Vestida de branco (1963)
Foi Deus / Errei Senhor (1963)
Pobre do pobre / Se eu morresse amanhã (1963)
Motivos banais / É melhor eu ir embora (1963)
A justiça de Deus / Tu és meu mundo (1963)
Manaus, meu paraíso / Pisa no calo dele (1963)
Enfim você voltou / Pensei que estava sonhando (1964)
Eu vou ao casamento dela / A maior injustiça do mundo (1964)
O elegante Waldick Soriano (1964)
Como você mudou pra mim (1965)
Waldick sempre Waldick (1967)
Boleros para ouvir, amar e sonhar (1967)
Waldick (1968)
No coração do povo (1970)
Eu também sou gente (1972)
Ele também precisa de carinho (1972)
Segue o teu caminho (1974)
Quero ser teu escravo (1978)
Waldick Soriano ao Vivo (2007)

Saiba mais da vida de Waldik Soriano em: www.opovo.com.br/conteudoextra

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Comentários

Waldick revela a real vida do gosto popular brasileiro. A sua característica, o seu modo de ser, projetado nas letras e melodias de suas músicas, descreve a trajetória cotidiana nos romances vividos das paixões que se despertava nas pessoas, regado a sofrimento amoroso,desentendimento, separação e tudo o que o menestrel-apaixonado pudesse exteriorizar através dos seus sentimentos, sempre apresentando uma solução sentimental nas desilusões amorosas. O Cowboi Durango Kid- era assim que gostava de se identificado devido às influências de épocas dos filmes de bang-bang americano- manteve esse estilo atravessando gerações e nunca caiu de produção, não obstante a alavanche da moda musical de costume diferenciado que não passava de uma onda passageira, e Waldic mantinha-se o mesmo, conservando o seu estilo e elevando o sucesso para os demais rincões do país e do mundo. Ele nos deixou na saudade pela presença física, mas eternizou as lembranças que a cada dia, em alguma rádio ou Long-Plays ou CD, se houve A carta, Paixão de um homem, A dama de vermelho, Perfídia e dentre outros grandes sucessos que o tempo jamais apagará de nossas lembranças. Que os anjos de saúdam ao som das trombetas, caro Waldik...

Antonio Ricardo Viana Câmara

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