Amanda Queirós
da Redação
O Grupo Em Cena formou toda uma geração de atores da cena cultural cearense ao apostar na qualidade do teatro feito dentro da escola. O trabalho deu tão certo que já originou outra companhia, o grupo Ouse
04/09/2008 00:58

O premiado dramaturgo Rafael Martins, do grupo Bagaceira, saiu de lá. O diretor teatral Ricardo Bessa, atualmente com peça em cartaz pela Comédia Cearense, também. Andréa Piol, vocalista da banda Encarne, se descobriu cantora por ali. Os três são exemplos da recheada lista de jovens que assumiu de vez a veia artística após a experiência ainda adolescente no Grupo Em Cena, mantido há 23 anos pelo Colégio Christus. Foi dentro da escola que eles descobriram o prazer de subir no palco tendo de dosar o ritmo puxado dos ensaios com as obrigações de tarefas e provas escolares.
"Minha preocupação nunca foi formar atores. Isso simplesmente aconteceu. Meu objetivo era que os jovens, através do teatro, aprendessem a ser mais humanos, a ter voz ativa, a serem críticos e mais participantes na sociedade", afirma Nazaré Fontenele, 69 anos, 36 deles dedicados ao trabalho teatral no ambiente escolar. Ela foi a responsável por implantar as aulas de teatro no Colégio. Todos os alunos são obrigados a freqüentá-las na quinta série. A partir daí, as aulas são opcionais e gratuitas. Quem se destaca é convidado a observar e, eventualmente, ingressar no Em Cena. Tem gente que se identifica tanto com o grupo que, mesmo já tendo concluído os estudos, volta para fazer teatro por lá.
Nazaré aposta na função pedagógica da linguagem e luta para afastar o preconceito de que teatro de colégio tem má qualidade. Freqüentemente, ela leva professores de áreas diferentes para seus alunos. Preparação vocal e corporal está sempre na lista. Outro trabalho é o de pesquisa de teóricos do meio teatral. Cada aluno é instigado a estudar as investigações de diferentes autores e repassar para os demais colegas (Stanislavski, Brecht e Barba são alguns dos nomes citados). Mesmo quando não estão em processo de montagem, os integrantes se reúnem pelo menos duas vezes por semana para manter o pique dos exercícios.
Desde 1997, o grupo ganhou projeção ao iniciar o projeto Vesteatro, no qual encena adaptações de obras literárias indicadas para o vestibular da Universidade Federal do Ceará (UFC). "Um dos grandes problemas do jovem de hoje é interpretar texto. O objetivo é tornar atraente o que parecia chato e instigá-los a ler as obras", afirma a diretora. Por conta do tema, as montagens têm um público fiel e dialogam diretamente com a origem escolar do grupo. São aproximadamente quatro meses de trabalho da construção do texto até a abertura das cortinas, com ensaios diários, sempre à noite, das 19h30 até depois das 22h.
A cada novo título, os jovens atores mergulham em processos diferentes, experimentando improvisação e movimentação corporal específica para cada montagem. Nazaré investe no "trabalho de mesa" antes de distribuir os papéis e ensaiar as marcações de cena. Para chegar até aí, os alunos esmiuçam o texto e descobrem os sentimentos e ações envolvidas nas cenas de cada personagem. Quando o prazo aperta, eles chegam a se internar no colégio durante o fim de semana com direito a frango assado e paçoca para não perder o clima.
Atualmente, o grupo prepara a encenação de Encontro Marcado, inspirado no livro homônimo de Fernando Sabino. A previsão de estréia é para outubro. Nazaré continua à frente do Em Cena com a tranqüilidade de quem sabe já ter frutos para tocá-lo adiante e energia de sobra para encarar um processo em eterno recomeço. "Quando você tem uma turma ótima, o ano passa e é preciso começar tudo de novo. É assim mesmo, e a gente precisa sempre ter os mais novos para suprir o espaço", conclui.
EMAIS
- Entre outras montagens, o Grupo Ouse já realizou O Guarani, de José de Alencar, e Ana Terra, de Érico Veríssimo. Essa última adaptação foi, inclusive, elogiada pelo filho do autor, Luís Fernando Veríssimo, quando foi apresentada na última Bienal do Livro do Ceará.
- O grupo tem sido pé-quente. Nos últimos três anos, todas as peças encenadas já caíram no vestibular.
- Assim como Nazaré, Jadeilson também acredita na potência do teatro de colégio. "Sempre que há alguma dificuldade do aluno com os estudos, a primeira coisa que é cortada é o teatro. Os pais não compreendem a imensa função terapêutica do teatro. Aqui se aprende a ter disciplina e tolerância porque precisamos fazer tudo juntos", afirma ele.
Leia mais sobre esse assunto