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Vida & Arte

FILME

O épico de Dulce

Juliana Girão
da Redação

Inspirado no romance de Caio Fernando de Abreu, o longa Onde Andará Dulce Veiga?, de Guilherme de Almeida Prado, abre o Festival For Rainbow hoje, logo mais à noite, no antigo Cine São Luiz. em entrevista ao Vida & Arte, o cineasta paulista fala sobre o novo filme, a carreira e a temática homossexual


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04/09/2008 00:58

Carolina Dieckmann interpreta a filha de Dulce Veiga, personagem vivido pela atriz Maetê Proença (Divulgação)
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Carolina Dieckmann interpreta a filha de Dulce Veiga, personagem vivido pela atriz Maetê Proença (Divulgação)

O paulista Guilherme de Almeida Prado ocupa um lugar muito particular no cinema nacional. Segundo a crítica, seus filmes são de difícil classificação. Não se encaixam em nenhum gênero: ação, policial, drama ou comédia. O próprio cineasta, que começou a carreira como assistente de direção em pornochanchadas, na Boca do Lixo, em São Paulo, na década de 1980, não sabe precisar que tipo de filme faz. Mas reconhece que suas obras, entre elas A dama de Shanghai (1988), Perfume de Gardênia (1992) e A Hora Mágica (1998) trazem, sim, elementos diversos. Há quem aponte estética de filmes B, film noir de Hollywood, cultura pop e até melodrama mexicano em tons kitsch. "As pessoas falam muito de referência, mas é mais uma reciclagem. Eu gosto de reciclar coisas. Não acredito numa arte que já começa em si. Eu gosto dessa idéia de que meu filme venha depois de um monte de filme. E antes de tantos outros", diz, em entrevista por telefone, de São Paulo.

O mais recente trabalho, Onde Andará Dulce Veiga?, lançado no Festival do Rio de 2007, é classificado pelo diretor como um "épico brasileiro". Nele, a atriz global Carolina Dieckmann está na pele de uma roqueira lésbica e drogada e os atores (também globais) Carmo Dalla Vecchia e Eriberto Leão protagonizam um ardente beijo gay. Inspirado no romance autobiográfico do escritor gaúcho Caio Fernando de Abreu, o longa abre o For Rainbow - Festival de Cinema da Diversidade Sexual, nesta sexta-feira (5), no antigo Cine São Luiz, em Fortaleza. O evento segue até o próximo dia 9 com cinco mostras de cinema, além do I Fórum Brasileiro de Turismo GLS, no Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, Casa Amarela Eusélio Oliveira, Sesc Iracema, Theatro José de Alencar e Brasil Tropical Residence.

No filme, Dulce Veiga (Maitê Proença) é uma lendária atriz e cantora, que fez sucesso nos anos 1960 e desapareceu misteriosamente. Um jornalista, não por acaso chamado Caio de Almeida (Eriberto Leão), publica uma crônica contando suas lembranças sobre a antiga estrela, o que gera uma enorme repercussão. Ele vê-se obrigado a descobrir o paradeiro daquela misteriosa mulher e embarca numa busca quase detetivesca. Segundo a crítica, o filme traz a visão de mundo nebulosa do diretor, em cenários noturnos, onde a realidade é frágil e móvel. Parece complicado? Para a atriz Maitê Proença, que vive o personagem-título, nem tanto. No lançamento no Festival do Rio, em setembro do ano passado, a atriz - que já havia atuado em A Dama do Cine Shanghai e A Hora Mágica - comentou que é sempre difícil saber o que se está fazendo num filme de Guilherme, mas este ela tinha achado "facinho". Conta-se que o diretor, que estava no palco com o restante do elenco, pegou carona na piada que relaciona as loiras à burrice e tascou: "Vejam como é fácil; até a Maitê entendeu".

Roteiro estava na gaveta
Com ares de diva desglamourizada, Dulce Veiga nasceu numa crônica que o escritor gaúcho Caio Fernando de Abreu publicou em 1987, no jornal O Estado de S. Paulo, chamada Onde Andará Lyris Castellani?, sobre uma atriz que fizera dois ou três filmes na década de 1960 e havia desaparecido. Na época, Guilherme de Almeida Prado procurou Caio e lhe propôs escrever um roteiro com o tema. O escritor topou. O projeto ficou pronto e o livro de mesmo título também. Publicado em 1990, o romance autobiográfico é até hoje considerado um dos mais intrigantes de Caio Fernando, morto em 1996. Já o roteiro, que levou a assinatura de Guilherme de Almeida, havia ficado este tempo todo engavetado. Nesta entrevista, o cineasta fala sobre o novo filme, a carreira, a temática homossexual e o cinema brasileiro - que, segundo ele, "sofre muito preconceito".

O POVO - Você começou a escrever o roteiro de Onde Andará Dulce Veiga?, em 1987, junto com o Caio Fernando de Abreu. O que o levou a retomar esse projeto quase 20 anos depois?
Guilherme de Almeida Prado - Na realidade, foi quase que uma coincidência. Eu fui entrar num concurso do Sundance Institute (responsável pelo Sundance Film Festival, principal evento do cinema independente dos Estados Unidos) e eu vi que podia entrar com dois roteiros. Aí eu achei que entrando com dois, teria mais chances, mas acreditando mais no outro roteiro. Mas o pessoal do Sundance selecionou o Onde Andará Dulce Veiga? e aí você ganhava uma espécie de workshop, onde as pessoas liam o seu roteiro e discutiam com você. Foi ali que eu percebi que eu tinha um bom roteiro. Porque, na realidade, eu achava que era uma coisa antiga, que já tinha ficado ultrapassada. Foi ali que eles chamaram a atenção pelas coisas que tinham de modernas, de novas.

OP - E o que o filme tem de moderno?
Guilherme de Almeida - Ele fala de um assunto que fica cada vez mais no dia-a-dia, que é essa coisa da necessidade que as pessoas têm de ser famosas. Como se a felicidade da gente só dependesse da gente ser famoso, mesmo que seja matando John Lennon ou aparecendo no Big Brother. Acho que esse tema é até mais atual hoje do que nos anos 80. A Dulce Veiga, ao contrário das pessoas de hoje em dia, não acredita na fama. Ela é uma pessoa que desaparece, justamente porque ela não tem essa necessidade de ser famosa. Ela quer ser ela mesma. E o Caio é a pessoa que vai atrás para descobrir onde é que ela foi parar.

OP - Esse personagem principal do filme chama-se Caio de Almeida. O nome é uma mistura de Caio Fernando de Abreu e de Guilherme de Almeida Prado. O que ele tem de autobiográfico?
Guilherme de Almeida - Acho que ele tem um pouco de mim e um pouco do Caio (Fernando de Abreu). No livro (homônimo, escrito por Caio Fernando de Abreu), inclusive, o personagem não tem nome. No roteiro original, tinha um outro nome. Eu brinquei um pouco com isso. Tanto eu quanto o Caio tínhamos uma visão muito crítica dessa coisa da fama. E o personagem tem muito de você descobrir você mesmo.

OP - E como surgiu a idéia para o roteiro?
Guilherme de Almeida Prado - A idéia surgiu quando eu li uma crônica do Caio (Fernando de Abreu). Ele era cronista no jornal O Estado de S. Paulo e escreveu uma crônica que se chamava Onde Andará Lyris Castellani? A Lyris Castellani foi uma atriz mesmo dos anos 60 que desapareceu. A partir dessa crônica, eu procurei o Caio e falei: "olha, essa crônica tem um argumento para a gente fazer um filme". E aí dessa crônica nasceu a Dulce Veiga.

OP - No cinema que você faz, e inclusive nesse filme, há uma mistura de filme noir e cultura pop. De onde vêm essas referências utilizadas em seus trabalhos?
Guilherme de Almeida - Olha, eu sou um cara que gosta muito de ver filme. Assisto muito filme. Gosto de arte em geral. Gosto de pintura, de música. E, quando eu vou fazer um filme, eu coloco um pouco disso tudo. Eu gosto de cinema de gênero, embora Dulce Veiga seja um filme com um gênero muito amplo. É quase que um épico. Mas tem elementos de musical, de filme noir, de comédia.

OP - As suas referências como cineasta vêm da sua experiência enquanto espectador de cinema?
Guilherme de Almeida - É. As pessoas falam muito de referência, mas é mais uma reciclagem. Eu gosto de reciclar coisas. Acho que no cinema, como em outras artes, tem muita coisa reciclável. Acho que a arte mesmo tem essa coisa assim. Não acredito numa arte que já começa em si. Eu gosto dessa idéia de que meu filme venha depois de um monte de filme. E antes de tantos outros filmes.

OP - O filme abre o festival de cinema For Rainbow, em Fortaleza, voltado para a diversidade sexual. Você acredita que o filme tem algum papel dentro dessa questão?
Guilherme de Almeida - Olha, eu não fiz um filme hasteando bandeira. Até porque o Caio (Fernando de Abreu) não era desse tipo, de levantar bandeira. Acho isso preconceituoso também, entende? Eu acho que esse tipo de assunto deveria ser uma coisa mais natural. Eu acho que eu trato no filme como uma coisa, não sei qual é a palavra, como uma coisa normal, compreende? Mas acho importante que esse assunto vá deixando aos poucos de ser exceção. Ainda existe muito preconceito. Acho que tem diminuído, mas ainda existe. E é justamente porque as pessoas não sabem, não conhecem, nunca pensaram. Enfim, o preconceito geralmente nasce da ignorância.

OP - O filme começa com a frase: "Lave seus olhos de preconceito e sonhe".
Guilherme de Almeida - É a frase de um chinês. Na realidade, as pessoas ligaram muito no preconceito sexual. Mas eu coloquei essa frase porque eu acho que tem vários outros preconceitos. Eu acho que tem até preconceito cinematográfico com relação ao cinema brasileiro e tudo. Eu coloquei essa frase no sentido mais amplo. O meu filme é para as pessoas que não têm nenhum tipo de preconceito.

OP - O cinema brasileiro ainda sofre algum tipo de preconceito?
Guilherme de Almeida - Sofre muito preconceito. Infelizmente. Eu sinto isso enquanto cineasta. As pessoas tratam como se fosse um gênero a parte. Como a gente vai ver um faroeste, a gente vai ver um filme brasileiro.

OP - Como na seção de locadoras de vídeo?
Guilherme de Almeida - Exatamente. Ele é sempre separado como se fosse um gênero a parte. Mas a gente faz drama, comédia, compreende? Você não vai na locadora e tem 'cinema americano'. Mas tem 'cinema brasileiro'.

OP - Como você analisa a produção cinematográfica brasileira de hoje?
Guilherme de Almeida - Eu acho que a gente teve um crescimento muito grande na questão da qualidade. Acho que os filmes hoje em dia têm uma qualidade técnica excelente. Mas ainda sinto que há muito o que se discutir na questão do diálogo com o público. O público brasileiro ainda não está com um grande diálogo com o cinema brasileiro. Isso não estou dizendo que é culpa do público. É culpa de todo mundo. O nosso público não só não está crescendo, como diminuiu este ano. Isso é muito grave. Tem algum coisa que não está dando certo.

OP - Hoje você está envolvido em que projetos?
Guilherme de Almeida - Hoje, como eu estou num momento complicado, sem saber que projeto tocar, eu estou desenvolvendo um negócio para a televisão. Eu não posso falar mais do que isso. Ainda não está tudo acertado. É um trabalho diferente que eu nunca fiz, mas que acho que vai ser muito bacana.


SERVIÇO:

Abertura For Rainbow - Festival de Cinema da Diversidade Sexual - Hoje (5), às 19 horas, no Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro - Cine São Luiz. Pré-estréia do filme Onde Andará Dulce Veiga? (Brasil, 2007, 105 min), de Guilherme de Almeida Prado. Troca de credenciais de acesso às atividades: Casa Amarela Eusélio Oliveira, sede do Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB) e Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro (Cine São Luiz) mediante doação de 1 kg de alimento não perecível. O festival segue até o dia 9 de setembro no Cultural Luiz Severiano Ribeiro (Cine São Luiz), Casa Amarela Eusélio Oliveira, Sesc Iracema, Theatro José de Alencar e Brasil Tropical Residence. Informações: 3242 1995 ou 3242 8422.


QUEM É O DIRETOR
Guilherme de Almeida Prado nasceu em Ribeirão Preto (1954), em São Paulo. Começou a carreira como assistente de direção em pornochanchadas da Boca do Lixo paulista, onde dirigiu a comédia As taras de todos nós (1981). Aplicando seu estilo inovativo a formas narrativas do cinema clássico, iniciou carreira autoral com o drama Flor do desejo (1984). Seguiram-se A dama do cine Shanghai (1987), exemplar de film noir aclimatado ao Brasil, e Perfume de gardênia (1992), paródia intencionalmente kitsch de melodrama conjugal. Impossibilitado de filmar durante a crise do início dos anos 1990, realizou, com o desenhista Héctor Gómez Alisio, a história em quadrinhos Samsara (1991), um marco do gênero no Brasil.

Veja
O trailer do filme no http://www.dulceveiga.com.br/

Leia
A entrevista na íntegra no site www.opovo.com.br/conteudoextra


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