Angélica Feitosa
da Redação
O fotógrafo cearense Tiago Santana foi escolhido o melhor fotógrafo documental do Brasil. Pelas suas lentes, a visão particular de um mundo fragmentado
02/09/2008 01:36

Tiago Santana fragmenta o corpo em partes, recorta cenas em pedaços, gente em parcelas. A visão de um mundo através das lentes do fotógrafo cratense caminha junto às imagens dos ex-votos de Juazeiro do Norte, Barbalha e Crato - para ele, uma cidade só. Das romarias, procissões e promessas brotam do povo a entrega a Deus Nosso Senhor, pela cura da enfermidade de uma seção do corpo. Do retrato de Tiago dessa mesma paisagem, as lentes pincelam imagens mais sugestivas que acabadas. Geralmente desvencilhada de uma de suas porções.
A conversa com O POVO pausa para as fotografias, dessa vez Tiago seria o alvo. Cabreiro, não mostra resistência, embora prefira não estar na mira. Tiago condensa em si uma simplicidade identificável com suas imagens, mesmo carregando a recente eleição de melhor em fotografia documental da seleção O Melhor da Fotografia, Brasil 7/8, promovido pela Sixpix Content - empresa de criação e comercialização de produtos multimídias - que se propôs a identificar os melhores profissionais da fotografia nacional em 16 categorias, contando com os votos de oitenta representantes da comunidade fotográfica. Na eleição, Tiago ficou à frente de nomes como Sebastião Salgado e João Castilho.
Cidades de Imagens
Da janela do escritório do fotógrafo, o concreto em pilares da Aldeota. Uma foto na parede branca mostra uma menina na terra seca e espinhenta do sertão. É justamente esse o universo, seco, rico, pobre, religioso, castigado e abençoado pelo qual ele transita. Foi seu espaço de formação, do nascimento ao ginásio. A partida para o científico na capital cearense não rompeu o laço com o interior. "Aquele lugar é visualmente rico", deleita-se na imagem, qual recordação.
Menino de nove para 10 anos, Tiago acompanhava o pai em reuniões pela região. "Sempre tinha crianças no meio das conversas, atrapalhando o encontro", recorda. Para distrair os inquietos, Tiago levava o projetor de Super 8 do pai e partilhava desenhos animados. Depois, passou a pegar repetidas vezes a câmera e fazer vídeos caseiros de tudo quanto encontrava. Era o primeiro contato com a imagem capturada.
Profissionalmente, entretanto, o gosto pelas fotos só despertariam muito depois. Tiago chegou a estudar engenharia mecânica, mas uma exposição na Universidade Federal do Ceará mudaria completamente os seus rumos. "Percebi que havia um movimento organizado em torno da fotografia, com discussões, vídeos sobre o assunto. Aquilo que estava latente passou a ser prioridade".
Filme preto e branco
As lentes analógicas e o filme profeticamente à beira de ser extinto são materiais de trabalho ainda hoje do fotógrafo resistente. A primeira máquina, Nikon FM2 conserva-se funcionando, embora esteja aposentada. O trabalho hoje é realizado com uma Leica M6 também de filme, equipamento com a melhor ótica do mercado. Delas, surgem os projetos idealizados por Tiago, nos quais a paisagem vem chapada de preto e branco. "Eu acredito que, para o que eu procuro, o preto e branco transmite mais", aponta. O filme 35 mm, por vezes, torna-se pequeno para abarcar a sucessão de cenas. O fotógrafo, então, recorta o mundo pelo filme panorâmico, mais amplo, no desejo de expandir e construir novas situações.
São quase 20 anos de profissão em trabalhos demorados, de mergulho. Numa região já bastante registrada e mastigada, ele consegue dar uma olhar que não deve ser classificado como novo, mas próprio. O livro de fotografias Benditos, por exemplo, levou oito anos entre a concepção e a conclusão. Foi produzido entre 1992 e 2000 e publicado por editora própria, a Tempo D'Imagem. Nele, Tiago volta ao Cariri para acompanhar um Juazeiro muito particular. Cotidiano de sua infância e juventude, fiéis, moradores, romeiros, gente. "Desde que decidi trabalhar com a imagem, Juazeiro sempre foi a primeira fonte", firma. O chão de Graciliano (2006), o seu trabalho mais premiado, foi realizado em quatro anos, a partir de um convite do jornalista Audálio Dantas para as comemorações de 110 anos de nascimento do escritor Graciliano Ramos, em 2003. Entre os títulos, o livro recebeu o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte.
Em ambos os trabalhos, reflexos diferentes de uma mesma visão de fotografia. "Eu era muito tímido e ainda sou. A fotografia era uma forma de me aproximar das pessoas, de aumentar meu contato com o mundo. A foto é um pretexto para o encontro com a riqueza humana", frisa. Em se trabalho, Tiago acha importante o contato, o convívio e, alcançado o resultado, voltar para mostrá-lo às pessoas. A partir dessa lógica, Tiago diz que o mais importante nem a fotografia. "Às vezes, nem tiro foto. Prefiro perder a imagem que a confiança e o respeito das pessoas".
EMAIS!
- Tiago Santana foi convidado pelo editor Francês de Fotografia Robert Delpire para publicar o livro pela coleção PhotoPoche francesa, a mais importante coleção de fotografia em formato de bolso do mundo. Sebastião Salgado também foi contemplado com uma edição
- São muitos os projetos, em andamento e em planejamento por Tiago Santana. Para 2009, será lançado um livro sobre Pataiva do Assaré que, além do ensaio fotográfico, vai trazer textos do professor Gilmar de Carvalho. O próximo trabalho tem o título provisório de Caminhoneiros e será uma visão do Brasil através de viagens em boléias de caminhões. O livro será feito em parceria com o jornalista Xico Sá.
- Entre outros projetos, está o de fazer um ensaio sobre a água, o homem e o semi-árido brasileiro e sobre a Floresta Nacional do Araripe.