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Vida & Arte

Maurice Durozier

O teatro é o outro

De passagem por Fortaleza para ministrar uma oficina, o ator do Théâtre Du Soleil, Maurice Durozier, falou ao Vida & Arte sobre o grupo Francês

Juliana Girão
da Redação

30 Ago 2008 - 00h56min

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Maurice Durozier, do Théâtre du Soleil, encerra hoje, no Theatro José de Alencar, oficina com atores cearenses (Foto: ALEX COSTA)
Sem exagero na expressão, Maurice Durozier, 54, quase nasce no teatro. A mãe, uma atriz de rua, estava em meio a uma turnê, quando teve de voltar às pressas para a cidade de Perpignan, no sul da França, para dar à luz o menino. Vindo de uma família de cinco gerações de atores ambulantes que apresentavam seus espetáculos percorrendo a França em carroças, Durozier estreou nos palcos ainda bebê. Nunca conheceu o pai e, até os oito anos de idade, viveu em uma casa sob rodas. A certa altura, os familiares acabaram desistindo. Foram todos trabalhar em fábricas. Na adolescência, Durozier retomou os palcos em bairros da periferia da cidade francesa. Somente aos 27 anos decidiu mudar-se para Paris. Na capital, se fez. Firmou respeitada carreira como ator e diretor no Théâtre du Soleil, considerado uma das experências mais radicais das artes cênicas francesas das últimas quatro décadas (e que nada tem a ver com o Cirque du Soleil, frise-se).

Cada montagem é precedida por extenso trabalho de pesquisa e de improvisação, com base na Cartoucherie, uma ex-fábrica de armamentos, na periferia de Paris, usada como sede do Théâtre du Soleil (Teatro do Sol, em francês), fundado em 1964. Além disso, todos os mais de 80 integrantes do grupo, procedentes de mais de 20 países, recebem o mesmo salário e dividem as tarefas do dia-a-dia, como cozinhar, limpar ou fazer a contra-regragem. A primeira vez que a companhia fez temporada no Brasil foi no fim do ano passado, em São Paulo e Porto Alegre, com o espetáculo Les ÉphémÕres (Os Efêmeros), que tem quase três horas de duração. De passagem por Fortaleza para ministrar oficina no Theatro José de Alencar, que se estendeu até ontem, Maurice Durozier conversou com o Vida & Arte, domingo à noite, nos jardins do teatro. O ator, que fala português com certa fluência, esteve pela última vez na capital cearense há 20 anos. Em 1988, a convite da então secretária de Cultura Violeta Arraes, o ator residiu por três meses entre Fortaleza e Crato para oficinas com atores e moradores locais.

Desta vez, o ator reuniu 60 alunos para vivenciar a temática O teatro é o outro. Para Durozier, um dos grandes problemas dos atores é o narcisismo e a competição no palco. "É o outro ator que dá a você a sua própria existência", acredita. Nesta entrevista, Durozier falou sobre a família mambembe, a carreira e os princípios que norteiam o trabalho do Théâtre du Soleil. No currículo, soma a atuação em criações famosas do grupo francês, dirigido por Ariane Mnouchkine, como Richard II e Henry IV e mais recentemente Le Dernier Caravansérail e Les Éphémères. Também traz na bagagem o período de 10 anos, em que esteve a frente da sua própria companhia, Les Voyageurs de la Nuit, entre 1992 e 2002.


O POVO - Você é pertencente de uma famíia de atores ambulantes que apresentava seus espetáculos percorrendo a Europa em carroças. Como é para você ter esse passado?
Maurice Durozier - Sim, eu tenho essa sorte e essa particularidade de vir de uma família de teatro ambulante de cinco gerações. Eles viajavam com carros desde os anos 1830 na França, fazendo teatro em família. Na época do meu avô, ele tinha 14 irmãos e irmãs. Então, eles se repartiram pelo sul da França. Imagino que era um pouco duro manter o grupo inteiro. E assim foi. O repertório deles era, sobretudo, melodrama. Mas era, como dizer, uma maneira de viver e uma concepção do mundo diversa. Porque quando você está viajando tem outras necessidades e outras maneiras de relação com a natureza e com os outros também. Em um momento, se misturaram famílias de teatro e de circo. A minha bisavó vinha do circo. E todas as famílias de circo são ciganas. Ela era da família Manush. A concepção do mundo deles é um pouco diferente dos sedentários, sabe? No mundo tem três grupos humanos: os sedentários, os nômades e os marinheiros.

OP - No seu caso, esse passado familiar, de ciganos, teatro e circo, influenciou de que maneira a sua vida e o seu trabalho?
Maurice Durozier - Em tudo. Mas também. Eu quero dizer uma coisa. Eu tenho sorte que toda essa vida parou. Em um momento fracassou. Tinha uma mudança terrível depois da última guerra (mundial). Mudança na maneira de viver, na aparição da televisão, no individualismo da comunidade. Quando eu tinha dois anos, eles (familiares) pararam (de atuar). Por isso eu tive uma vida normal. Tive sorte de ter uma educação, ir à escola, à universidade, e também de escolher fazer teatro e o teatro que eu queria fazer e não o teatro como eles pensavam. Quando comecei o teatro, eram os anos 70 e era o momento de total revolução não só no teatro, mas na maneira de viver dos jovens. A minha mãe passou a trabalhar numa fábrica de bonecas, outros eram mecânicos, motoristas.

OP - E seu pai?
Maurice Durozier - O meu pai? Eu sou, como se diz, um enfant de la balle (aquele que segue a mesma carreira dos pais). Eu não conheci o meu pai. Porque minha mãe encontrou um homem, eles se enamoraram, ela ficou grávida e foi uma história de amor muito forte. Mas depois minha mãe seguiu com o teatro e a família.

OP - E ela nunca mais se encontrou com ele?
Maurice Durozier - Não.

Silêncio.

Maurice Durozier - Também isso não é só uma vida romântica. Com tudo ideal, perfeito. A vida dessas pessoas tinha todas essas contradições do mundo ocidental. E, como eu dizia, eu escolhi fazer teatro.

OP - E quando você escolheu fazer teatro?
Maurice Durozier - Eu escolhi outra vez. Por que quando bebê eu atuava no palco com minha mãe, com meus tios. Eu fazia o papel de bebê e eu não gostava. Me diziam que eu chorava, eu não queria. Eu fazia teatro na escola e depois em todos os grupos amadores da cidade com 17 anos de idade.

OP - Foi aí que você resolveu que iria fazer teatro?
Maurice Durozier - Não. Eu fazia sem saber. Você não decide fazer teatro. O teatro que prende mais e mais e ganha mais importância na sua vida. Foi assim como um caminho iniciático. Você não decide. Essas coisas acontecem. Aos 17 anos, eu fazia teatro em todas as circunstâncias que eu poderia fazer.

OP - Mas quando foi que você sentiu que era aquilo que você queria fazer?
Maurice Durozier - Não é assim. Os encontros são muito importantes. É verdade que quando subi a Paris e encontrei a minha diretora Ariane Mnouchkine (diretora do Teatro de Soleil) foi um momento decisivo. Porque eu fazia teatro, mas eu não sabia, eu não conhecia. Com Ariane, neste momento, senti o que era atuar, o que era ser ator. Era a primeira vez que eu sentia concretamente.

OP - Você entrou para o teatro de Soleil em 1980.
Maurice Durozier - Era. Eu tinha 27 anos. Mas, antes na minha cidade, em Perpignan, eu tinha o meu grupo. Era um grupo de bairro. Eu não queria trabalhar mais com o pessoal que fazia teatro lá. Eu escolhi outra via. Eu senti que fazer um teatro, como dizer, classique, não era a minha história. Eu buscava alguma coisa e não sabia o que era. Mas, para mim, eu gostava mais de trabalhar com jovens do meu bairro, que era muito popular, e fazer teatro em bairros da cidade, do que fazer teatro para pessoas que vão para teatro. Então, eu escrevia, fazia um trabalho muito intuitivo, mas muito sincero. Eu queria falar de coisas que me preocupavam. Quando eu faço um trabalho de ator e, sobretudo de diretor, minha pergunta é porque você quer trabalhar esse texto? O que você quer dizer realmente? Era a mesma preocupação que eu tinha desde o início, mesmo sem conhecer as regras. Mas uma coisa era certa: eu não queria ser profissional. Eu fazia outros trabalhos, fazendo casas, mudanças.

OP - Qual é o teatro feito pelo Teatro de Soleil?
Maurice Durozier - (Pausa) Eu podia dizer que o Teatro de Soleil é teatro. Não tem característica porque, como dizer, falando em estética, nunca é o mesmo. Nunca uma peça é igual a outra. Talvez tenha ciclos. As duas últimas peças foram criações totalmente coletivas. A próxima será de novo de novos textos, mas posso dizer que é um teatro de trupe, de grupo. Somos 70 pessoas (entre atores, técnicos, administração). Somos juntos. Isso é uma particularidade. Isso é a riqueza e a força da história. Essa história dura há 45 anos. Os atores construíram essa obra com uma diretora, Ariane Mnouchkine. Então, tem princípios porque o Teatro de Soleil começou em 68, 70, quando eu comecei a fazer teatro, era uma tentativa de utopia. E é. Porque essa utopia é sempre viva. Por exemplo, todo o pessoal é pago igual. Todos ganham igual. Não muito, mas basta para viver. Também é, como dizer, uma utopia porque é verdade que você não poderia mensurar quem é mais importante.

OP - Isso são valores socialistas?
Maurice Durozier - Eu não diria que são socialistas. São mais humanistas. E também são considerações econômicas porque, se o teatro pagasse o pessoal com critérios normais, seria impossível manter pela importância do grupo. Por outro lado, podemos fazer um teatro bastante forte. Muito poucos grupos fazem isso agora no teatro. Mas, quando você quer fazer uma obra de Shakespeare, de três ou quatro horas, você precisa de atores e atrizes. A força e o número.

OP - Você falou em princípios. Quais são os princípios do Teatro de Soleil?
Maurice Durozier - Igualdade de salário, pontualidade. Uma coisa importante no teatro é a gestão do tempo. Você tem que controlar o tempo. Se o pessoal não está, você não pode trabalhar. São coisas simples. Outro princípio é que a gente faz tudo para o teatro. Participamos do decorado do teatro (cenografia), podemos fazer a cozinha para o público. Podemos limpar a sala. O teatro é lugar de todos. Repartimos todo o trabalho. Esses princípios não são escritos. Para mim, é uma coisa natural. Eu tenho uma bebida preparada para o público que é um té (chá), com especiarias. Eu fazia isso para o público em várias criações. Mas, quando estou fazendo isso, é uma forma de preparação e meditação para o ato de atuar. De toda maneira na vida, você tem que transformar as coisas em energia positiva. É possível. Todos os atores participam na criação. E estamos lá todo o tempo.

OP - Vocês vivem intensamente o teatro?
Maurice Durozier - Sim. É muito importante. Se tenho um problema, outro pode ir na cena. É um trabalho coletivo, de grupo. E por isso nem todo mundo pode trabalhar dessa maneira. Eu entendo perfeitamente que tem várias vias para chegar no teatro. Mas isso é nossa maneira de fazer.

OP - O nome da sua oficina em Fortaleza é "O teatro é o outro". O que você quer dizer com isso?
Maurice Durozier - Que o teatro é o outro.

OP - Mas por quê?
Maurice Durozier - (Pausa) O problema de todos nós atores é o narcisismo, o ego. O primeiro reflexo do ator, quando trabalha um personagem, uma história, é dizer "isso sou eu". E primeiro: tudo é trabalho. É pegar isso "meu" e colocar para o lado. Deixar o vazio necessário para vir um outro, que é o personagem. O personagem não é o ator. É o outro. Isso é uma parte da definição, se você quer teorizar. É teu trabalho fazer isso. Meu trabalho não é fazer isso. Meu trabalho é fazer sentir, descobrir essa noção realmente nos atores. E também é o outro porque, muitas vezes, o ator pensa que tem tudo dentro dele e que isso é importante. Não. O importante é o outro, o parceiro. É o outro ator que dá a você a sua própria existência. Se você faz o papel, por exemplo, da minha filha. Eu não posso fazer o pai. O pai não se atua. Se você me olha com olhos de uma filha, eu não tenho que fazer nada porque existo como pai. São coisas simples. O público percebe tudo isso.

OP - Você é contra decorar textos?
Maurice Durozier - (Nesse momento, Maurice não entende a pergunta, mas, depois de algumas explicações sobre o significado de "decorar", ele responde) Um texto de teatro não é escrito para ser lido, é para ser vivido. Todo o trabalho do ator é descobrir o que está vivendo o personagem a cada momento. Um texto de teatro de verdade são emoções e coisas que acontecem no interior do personagem. É verdade que, se você começa um trabalho, sabendo o texto, é muito mais difícil ser virgem depois. Você aprende com um mecanismo de memória. E a memória do ator é uma memória sensitiva, uma memória do corpo. Depois, pouco a pouco, quando o ator sente realmente o que tem de viver o personagem. O texto vem, sem aprender (memorizar). Não é que sou contra porque tem várias vias de fazer. Você tem as emoções, tem o corpo e no texto tem os pensamentos. O trabalho de teatro é ilimitado. A sabedoria do teatro nós conhecemos só 20% desta arte, das suas possibilidades. Porque você pode contar tudo com o teatro, com os textos, as improvisações. Mas tem algumas regras para atuar. E tem um paradoxo. Ao mesmo tempo, ser completamente frágil e permeável para deixar vir as emoções e ver você mesmo e controlar tudo o que está fazendo.

OP - Você falou da emoção do ator no palco. Existe um caminho para criar essas emoções?
Maurice Durozier - Não. As emoção não se criam, as emoções são. Elas vêm, você não pode forçar. Como dizer? É um pouco delicado de falar assim com palavras. São as emoções do personagem. Se você é o personagem, você não tem que pensar. Você não pode pensar: 'nesse momento eu vou ter uma emoção'. Isso quer dizer que você não está na situação. É um processo assim um pouco misterioso de ida e volta entre o ator e o personagem. É como caminhar numa corda-bamba.

OP - Se você puder definir, o que é teatro para você?
Maurice Durozier - (Silêncio) Teatro é um espelho. Que diz ao público: 'isso é você'. 'Assim somos. Assim sofremos. Assim são as relações entre homens e mulheres, pais e filhos'. Teatro é um peso de um grão de areia na balança para fazer avançar as coisas no mundo. Por exemplo, no tempo da tragédia grega, eram coisas terríveis. Um pai sacrifica sua filha para ir para guerra para ter ventos favoráveis. Depois, a mãe se vinga do pai e mata o pai. Depois o filho se vinga e mata a mãe. São mitos e muito sangue, crime, horror, tragédia. Mas quando os gregos iam ao teatro e viam isso era como uma catarse, era como um transe, para encontrar o poder e a força de continuar a viver juntos na cidade. Era uma comunhão. O sentido religioso do termo. E também obras contemporâneas modernas têm essa compreensão, se é teatro. O teatro nunca vai morrer. O teatro é uma necessidade não somente para os atores, mas para o público.

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