Lisabete Coradini
especial para O POVO
Por meio de imagem em movimento, o cinema sempre traçou paralelos com a cultura urbana, seja demonstrando seus medos ou os entusiasmos de um progresso tecnológico
23/08/2008 16:08

Desde sua invenção, na Paris do fin-de-siècle, o cinema tem mantido uma profunda relação com as cidades. O cinema não foi apenas o grande espetáculo do século XIX, mas também uma forma de entretenimento urbana em função do desenvolvimento da cidade. A cidade passou a ser um dos elementos mais filmados pelo cinema. E, as perspectivas de um futuro melhor têm provocado a imaginação de muitos cineastas. São diferentes visões, diferentes perspectivas que provocam novas questões e novos temas.
Parto do princípio que o cinema, a arquitetura, a literatura, os meios massivos, as histórias em quadrinhos são produtores de um imaginário coletivo e elaboram modelos para as inquietudes e incertezas de um futuro que pode ser próximo, distante ou utópico. De Júlio Verne a nossos dias, a inquietude permanece e cresce. Assim, à medida em que passam as décadas, determinados aspectos se fundem para formar outros pontos de vista que recontextualizam a cidade.
Durante o período pós-guerra surge uma nova metodologia de pensar e projetar a cidade; não podemos dizer que encontramos um modelo homogêneo, porém a imagem que mais se destacou, foi a da modernidade. Os elementos presentes no discurso modernista estavam vinculados a uma conjuntura política e ideológica. Conceitos como ciência, técnica e progresso eram amplamente utilizados muitas vezes para legitimar uma posição intervencionista do Estado na cidade. A intervenção do Estado nas grandes cidades da América Latina deu-se praticamente ao mesmo tempo a partir dos anos cinqüenta. A intenção ao implantar tal modelo de desenvolvimento era a de construir um presente que buscava romper com o passado e garantir um futuro melhor para todos, um futuro tangível, passível de ser realizado.
No período do pós-guerra, a sociedade moderniza-se. O futuro era ser moderno. As casas possuem equipamentos, como: ferro elétrico, enceradeira elétrica, lavadora, máquina de costurar, ar condicionado, refrigerador, televisor, estufa, aparelho de som, cortinas, lâmpada de mesa, cobertores elétricos, azulejos, impermeabilizantes. A arquitetura também incorpora o moderno: arranha-céus, vias rápidas, torres comunicadas através de pontes que ligam um edifício ao outro; a cidade deveria ser controlada pela máquina e pela tecnologia.
Esta busca de futuro esta presente filmes como Things to come, de 1936, Forbideden Planet, de 1956 e Barbarella, de 1968, onde aparecem as mais recentes construções modernas com pilotis e enormes janelas; as casas repletas de eletrodomésticos; roupas e móveis de plástico e acrílico. Estes filmes pertencem à modernidade: a modernidade do pós-guerra, marcada pelos avanços da tecnologia e o consumo massivo.
Nos anos 50 e 60, marca-se uma maneira diferente de abordar o futuro, pois há especulações mais profundas sobre as conseqüências da guerra, da bomba atômica, sobre o desenvolvimento de experiências científicas. Os filmes desta época são uma verdadeira celebração do moderno. Tecnologia sofisticada, robôs, planetas desconhecidos, viagens interplanetárias, discos voadores, povoaram o imaginário de uma época. Buscou-se conciliar o pragmatismo científico com o último sonho romântico: a conquista do espaço. Entretanto, junto com os avanços tecnológicos, cresce o temor de suas conseqüências, sobretudo a desumanização. A ficção científica foi um dos instrumentos destes sentimentos: crença no futuro e medo da (auto)destruição.
O cinema de ficção nos leva a espaço cósmico como cenário. Projetam no espaço seus medos e angústias mais irredutíveis. Em outros planetas se localiza o governo totalitário de máquinas e organizações que as servem. Manifesta assim sua obsessão em temer um lugar em um futuro próximo, a um tipo de homem e a uma forma de civilização que não seriam humanas mais que na aparência. A ficção científica é imaginativa na concepção de armas, seres extraterrestres, objetos de uso pessoal, alimentos, civilizações radicalmente distintas e equipadas com máquinas. O espaço pode ser portador de tudo que provoca calamidades e catástrofes. Muitas vezes os invasores se assemelham aos homens: são racistas, cruéis, ávidos. Porém o catastrofismo gera seu inverso, a ficção salvadora do céu pode fazer surgir seres benéficos.
Creio que estamos vivendo em uma destas épocas limítrofes, talvez um novo estilo de vida será inventado, assim como aqueles descritos na ficção científica. Entretanto, o que podemos afirmar ao analisar estas imagens é que não existe passado histórico em "estado puro", pois todo passado é uma interpretação retrospectiva feita a partir de crenças presentes.
Podemos afirmar também que quanto mais estudamos a cidade, mais percebemos que esta não pode ser entendida isoladamente. E que quanto mais estudamos o futuro, mais percebemos que este é portador de novidades, o que nos leva a rechaçar o ponto de vista determinista que afirma que o futuro está incluído no passado e, conseqüentemente, não poderia ser totalmente novo ou imprevisto. Portanto, não é possível prever o futuro porque não se tem a certeza nem sequer do presente; sempre há uma margem de ambigüidade, sempre há uma incerteza. Afinal, tudo é incerto de alguma maneira.
Lisabete Coradini é doutora em Antropologia pela Universidad Nacional Autônoma de México e professora da UFRN. Tem experiência na área de Antropologia Urbana e Visual
Leia mais sobre esse assunto