Alinne Rodrigues
Especial para O POVO
Inicia-se hoje mais uma edição da Feira da música, no CCBNB e no Centro de Negócios do Sebrae/Ce. As atrações fogem da obviedade dos grandes grupos de pop rock e vêm de uma cena independente em ascensão em todo o país
20/08/2008 00:59
Os rumos da música estão mudando, e isso não é novidade. A nova forma de se fazer música passa longe das grandes fábricas e encontra lugar na produção caseira de álbuns. A divulgação também é feita de casa, do computador, em sites acessados por entusiastas dessa nova cena e uma crescente imprensa especializada nela. Nesse mundo à parte, os artistas deixam de ser somente artistas e passam a trabalhar diretamente na construção de sua imagem, na composição das músicas, na produção dos discos e, na contramão do que se entende por mercado fonográfico, pirateiam o próprio trabalho ao disponibilizar as faixas para download gratuito.
Com uma boa auto-suficiência no diz respeito a investimentos públicos e privados, mais de 20 festivais acontecem dentro de um calendário anual, o da Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin). As bandas que circulam são inúmeras. Somente no site TramaVirtual, braço da gravadora Trama, são quase 60 mil grupos cadastrados. Lá eles disponibilizam suas MP3 e são remunerados a cada download, por patrocinadores. Diante dessa organização, as grandes gravadoras têm modificado o modus operandi e partido em busca de soluções virtuais como a venda de música digital. Em entrevista exclusiva ao O POVO, Dagoberto, ou simplesmente Dago, desvenda o universo da música independente, de onde surgem grandes novidades a cada dia.
O POVO - Como tem funcionado o mercado da música independente no Brasil?
Dago Donato - A indústria se pulverizou. Por um lado, foi horrível para as grandes gravadoras e também foi um obstáculo para as gravadoras pequenas e médias. O negócio do jeito que elas conheciam morreu, então há que se inventar uma nova fórmula. Por outro, o público ganhou a possibilidade de decidir o que ele gosta. Você tem TramaVirtual, MySpace, blog de mp3, e você passa a ser o seu próprio filtro, o que é uma coisa que não tem preço. Quando eu era moleque, o meu filtro era a Bizz, o rádio, cheio de jabá. Tinha que acreditar no que o crítico estava falando. Aí ia encomendar CD, gastar uma grana pra ouvir. Hoje o público está muito mais espalhado, e aparece um monte de oportunidade para quem é menor e está tentando fazer um trabalho de qualidade. Não tem ninguém fazendo uma puta grana, mas tem gente que consegue viver disso.
OP - Como é a relação das bandas com o mercado fonográfico de hoje? Ainda existe o sonho do contrato com uma grande gravadora?
Dago - Uma vez um rapaz virou para mim e perguntou quando ele ia chegar no Faustão. Eu fiquei chocado: o que ele estava fazendo num festival independente? Se você tem o sonho de entrar para uma major (grande gravadora), virar o Jota Quest, vai atrás, mas é muito difícil, cara. É só ver quantas bandas tem o elenco de uma major. No TramaVirtual, são quase 60 mil artistas. A probabilidade de um deles chegar a uma major é bem pequena, mas você tem exemplos como o Autoramas, uma banda longeva, que vive disso; o Dance of Days, O Teatro Mágico, que vendeu mais de 80 mil discos só nos shows e arrasta um público gigante. É possível obter sucesso dentro do seu meio sem mesmo ser notado pela grande mídia, isso é bizarro. Geralmente bandas como essas só são notadas quando fazem sucesso, o contrário do sistema das majors, que fazem os artistas, divulgam pra mídia e, aí sim, tornam os artistas conhecidos.
OP - E o que fazer para chamar a atenção desse mercado?
Dago - Se eu soubesse eu estava rico. Mas a primeira coisa é foco, descobrir aonde você quer chegar. Fazer música que você precisa fazer, não a que os outros fazem. Encontrar um caminho artístico próprio, se inteirar, se ligar. Não pode ter a postura "sou artista, descubram-me". Esse é um mal que se vê em muitas bandas brasileiras, que pensam que já fazem muito, que são artitas. Corre atrás, meu, descobre os meios para divulgar, vai para a Internet.
OP - Existe um empreendedorismo cultural muito grande no underground: festivais, selos independentes. Isso tem influenciado o padrão mercadológico ainda vigente no Brasil?
Dago - Quando eu vejo o Vanguart na Globo e o Hélio Flanders virando convidado de pessoas importantes para cantar com ele, ou quando vejo o Fabrício Nobre, da Abrafin, fazendo reunião com o Ministério da Cultura, não dá para não perceber esse impacto. Eu falei do Vanguart porque foi uma banda que se criou nesse circuito de festivais. A gente está falando de nicho quando fala de festivais e cena independente, não de um grande público. Mas acho que existe uma força aí, só não dá para saber quanto isso vai influenciar no gosto geral do público.
OP - Como se mantém esse mercado underground da música? Com editais de incentivo à cultura, patrocínio de empresas privadas?
Dago - Precisa de tudo para a conta fechar. Um festival não se banca em nenhum lugar do mundo só com entrada. É diferente de uma casa nortuna que vai agendar um showzinho lá. O South by Southwest (festival independente americano), por exemplo, tem um grande apoio governamental, até porque traz muitas divisas para a cidade de Austin. Se você consegue qualidade de bandas, não necessariamente bandas famosas, as pessoas que foram um ano vão voltar com os amigos no ano seguinte. E esse é o caso do Coquetel Molotov, em Recife, ou do Tim Festival.
OP - É possível fazer uma projeção do mercado da música para daqui a cinco anos?
Dago - O que morre é um mercado com uma única plataforma de venda de música, baseada numa fórmula desgastada. Eu queria que daqui a cinco anos a gente tivesse um circuito não só de festivais, mas de casas norturnas no Brasil inteiro. Que uma banda pudesse pegar uma van e excursionar num circuito mais residente. E um público educado, no sentido de estar disposto a conhecer coisas novas. Não sei se vai ficar assim, mas eu queria.
OP - De que bandas as pessoas deveriam ouvir falar atualmente?
Dago - Contra Fluxo, um rap com dois DJs e quatro MCs muito bem formado. Elma, a banda mais brutal da atualidade, metal instrumental muito torto. Do Amor, espetacular. Uma banda que mistura axé com indie rock, e o negócio fica bom merece muito crédito. Holger, uma molecada fazendo um rock cheio de referência boa. Babe, Terror, gravações lo-fi feitas em casa, o novo hype da cena. E o Supercordas, que é uma das melhores bandas da atualidade e talvez tenha o melhor compositor dessa nova leva, que é o Bonifrate.
SERVIÇO
Feira da música 2008
Abertura hoje, ao meio-dia, no CCBNB (Rua Floriano Peixoto, 941 - Centro), com show da banda The Cooler. À noite, festa de abertura no Buoni Amici's Sport Bar (Centro Dragão do Mar, Praia de Iracema), a partir das 22 horas, com Manassés e Costa a Costa. Grátis, os convites devem ser retirados na coordenação da Feira, no Sebrae. Outras informações: 3219 5454.
APROVEITE A FEIRA
MÚSICA
Plano Próximo (SP) - De São Carlos, interior de São Paulo, a banda faz um indie pop com um quê eletrônico, pueril e divertido, permeado por sintetizadores. Hoje, CCBNB, às 17h55min.
Ebinho Cardoso (MT) - Tido como um dos mais inventivos baixistas da atualidade, o jazzista cuiabano está se preparando para lançar novo álbum, desta vez só com baixo e voz. Quinta, Dragão do Mar, às 21 horas.
Julia Car (SP) - Rock, hip hop e uma alma pop com guitarra, baixo, bateria, sampler e pick-up. Quinta, CCBNB, às 17 horas.
Amps & Lina (PE) - No set-up, o violino é o diferencial. Tem forte influência de grupos como Sonic Youth, barulhentos e leves ao mesmo tempo. Quinta, CCBNB, às 17h55min.
Madame Saatan (PA) - O rock pesado do grupo já passou por vários festivais do circuito independente. Ano passado, foi indicado a artista revelação pelo Prêmio London Burning de Música Independente (RJ). Sexta, palco 2 do Poço da Draga, às 22h.
PAINÉIS E OFICINAS
Contra-Indústria e os autoprodutores. Discussão com Estrela Leminski e Téo Ruiz sobre as novas tendências da música brasileira frente aos avanços tecnológicos e a dinâmica do mercado. Sexta, sala 3 do Sebrae, das 14 às 16 horas.
Ferramentas de divulgação na Internet. Oficina prática de utilização de ferramentas on-line de divulgação de artistas independentes. Quinta, sala 2, das 14 às 16 horas.
Projeto Imagem e Comprador. Compradores e divulgadores internacionais num espaço produzido pela BM&A e Apex Brasil: Brent Grulke (EUA - SXSW), Jonh Bissel (EUA, trilhas sonoras), Oliver Lacourt-discograph (FRA, French Export Bureau), Mel Puljic (EUA, Mond Music), Tracy Mann (EUA, MG Limmited), entre outros. Quinta, auditório do Sebrae, das 16 às 17 horas.