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Vida & Arte

BASTIDORES E COXIAS

A mágica dos balaieiros

Amanda Queirós
da Redação

Aos 33 anos, a atriz reprisa o papel de Gata, interpretado onze anos antes, na primeira versão do Grupo Balaio para Os Saltimbancos, clássico texto infantil de Chico Buarque de Hollanda


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14/08/2008 00:58

Deugiolino Lucas está há 30 anos no Grupo Balaio. Na peça Os Saltimbancos ele interpreta o Jumento que canta, dança e faz malabarismos (Foto: Edimar Soares)
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Deugiolino Lucas está há 30 anos no Grupo Balaio. Na peça Os Saltimbancos ele interpreta o Jumento que canta, dança e faz malabarismos (Foto: Edimar Soares)

Na coxia, a atriz Kátia Camila esfrega um dos tornozelos. Minutos antes de entrar no palco, ela confessa. Fraturou-o na quarta-feira. A estréia, no sábado, só é possível à base de analgésicos e antiinflamatórios. "Não podia engessar. Tinha peça, né? Ossos do ofício", suspira. Aos 33 anos, a atriz reprisa o papel de Gata, interpretado onze anos antes, na primeira versão do Grupo Balaio para Os Saltimbancos, clássico texto infantil de Chico Buarque de Hollanda. No apertado backstage do Teatro Celina Queiroz, Kátia divide espaço com objetos de cena - bolas, latas, cavalos-de-pau, lanternas - enquanto aguarda a entrada triunfal, pendurada numa corda, à la Tarzan. Dali até o palco, sob os holofotes e os olhares arregalados do público, a dor se apaga. Afinal, teatro também é feito de mágica - ainda mais aquele pensado especialmente para os pequenos.

"O teatro infantil tem uma dinâmica que possibilita ao ator improvisar e ser co-autor da obra porque você nunca sabe qual vai ser a reação do público. É um grande prazer quando a criança participa e interfere. Ela não ouve a história calada e isso é mágico", afirma o veterano Deugiolino Lucas no alto de seus 36 anos de teatro, 30 deles no Balaio. Na peça, ele faz o Jumento. Além de interpretar, o ator canta, dança e faz malabarismos. O mesmo acontece com os demais personagens. Tudo exige um trabalho de corpo intenso que, muitas vezes, chega a ser mais desgastante que a preparação para um espetáculo adulto.

"Existia um clichê de que Fortaleza precisava criar platéia a partir das crianças, mas, mesmo assim, o teatro infantil ainda era visto como um gênero menor. Acho que o Balaio definiu um novo padrão para ele e provou que esse não era um teatro de segunda mão", afirma a atriz Isabelle de Morais, intérprete da Galinha. A remontagem de Os Saltimbancos levou dois meses de ensaios. No primeiro, o grupo se reunia três vezes por semana. Com o aperto da data de estréia, os encontros passaram a ser diários a partir do segundo mês. A noite era o horário reservado aos ensaios. O resto do dia se destinava aos estudos e aos empregos de cada um. Afinal, cachê de ator não enche barriga de família mesmo quando vem do teatro infantil, apontado pelo próprio grupo como um dos gêneros mais rentáveis na cena cearense.

No ensaio geral, já no palco do teatro, os balaieros ajustam os últimos detalhes. O cenário de pano e os figurinos são os mesmos da primeira montagem. Foram conservados impecavelmente no sítio de um integrante do grupo. As gravações originais das músicas também datam daí. O apuro de detalhes revela um cuidado profundo com a produção. Numa passagem rápida da coreografia de abertura, o diretor Augusto Abreu cobra a igualdade dos passos pelos atores. Logo em seguida, orienta os atores a não andarem em frente às caixas de som. Por conta da acústica do lugar, eles utilizam microfones invisíveis e é preciso cuidado para que não haja microfonia.

No dia da estréia, a preparação começa cedo. Os atores chegam ao teatro duas horas antes da apresentação. Os mais antigos, já acostumados à trabalhosa maquiagem circense, podem se dar ao luxo de atrasar. Do camarim, ouvem-se barulhos estranhos. "A, a, a, a, u, u, u, u, nham, nham, nham, nham". Eles partem do ator Marcelo Gomes, 22 anos, o primeiro a ficar pronto. Uma hora antes, ele já está completamente trajado de Cachorro. "Me preparo cedo pra ter mais segurança", diz. Tem algo a ver com o nervoso da estréia? "Eu não fico nervoso, fico impaciente", solta.

Os minutos passam e a hora do espetáculo se aproxima. O produtor Fernão de La Roche irrompe da porta dos fundos em busca de dinheiro trocado para a bilheteria. À medida em que se apronta, cada ator se espicha pelo palco. Puxa os pés, a pernas e se entorta na preparação para os movimentos que estão por vir. Enquanto isso Isabelle, se vira para vestir a pesada barriga falsa exigida pelo figurino. "Nem quando eu tava grávida a barriga pesava tanto assim", solta. Faz isso com a consciência de que o peso significa muito suor debaixo da roupa e horas a fio do material arejando depois no varal de casa.

O burburinho das crianças já vai alto na platéia. Com as cortinas fechadas o grupo faz uma roda e junta as mãos. O diretor comanda palavras de incentivo e Deugiolino puxa uma oração. A adrenalina começa a subir. "Passem a coreografia antes de começar para vocês entrarem bem quentes no palco", orienta Augusto antes de se dirigir para a sala de operação da música e da luz. Uma voz em off anuncia a atração do dia. Os palhaços se entreolham, sorriem. Chegou a hora. Au au au, ia ió. O espetáculo vai começar.


SERVIÇO

Os Saltimbancos - Em cartaz nos dias 16, 17, 30 e 31 de agosto, às 17 horas, no Teatro Celina Queiroz (Av. Washington Soares, 1321 - Edson Queiroz). Ingressos: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia). Info: 3477 3033


E-MAIS

- O Balaio é um dos grupos mais tradicionais do teatro cearense. Começou em 76, sob o comando de Geraldo Markan e Gilmar de Carvalho e foi batizado com o mesmo nome do suplemento cultural editado por Gilmar na Gazeta de Notícias. Inicialmente, o grupo encenava exclusivamente autores cearenses. Dez anos depois, mudou o foco e passou a se dedicar a apresentações de clássicos do teatro. De 95 para cá, assumiu com afinco a faceta infantil. O último espetáculo adulto foi Auto Natalino: Ouro Incenso e Mirra, de 2003.

- Ultimamente, o Balaio tem se focado em remontagens. O grupo tem um caixa próprio para financiar os espetáculos. Parte do dinheiro vem dos próprios integrantes, que doam um percentual sobre os cachês para o fundo. A outra forma de financiamento vem de iniciativas privadas. Quando o dramaturgo Marcelo Costa esteve à frente do grupo, a maior parte das peças era financiada pelo bolso dele. O prejuízo era tirado somente com bilheteria numa época em que não existia política de editais consolidada na cidade.

- Durante os anos 90, o teatro do Ibeu serviu como casa do grupo - tanto o da sede da Aldeota, quanto o da sede do Centro, hoje transformado em estacionamento. O espaço fechou para o público em 2006, mas o Balaio continua a ensaiar por lá. "Tínhamos o privilégio de ensaiar no palco onde íamos nos apresentar. Isso nos deixou mal acostumados. Em trabalhos com outros grupos, vejo a dificuldade que é faltar meia hora pro espetáculo e ainda estar afinando a luz", pontua a atriz Isabelle Morais. O fato de habitar o Ibeu fez com que a trupe só encerrasse uma temporada quando havia outra peça engatilhada para ocupar o lugar. Ainda nesse tempo, chegava-se a ocupar até três teatros diferentes com espetáculos distintos.

- Por mais que pertençam a diferentes gerações, todos os integrantes se mostram orgulhosos de estarem no Balaio. "A gente não se sente amador, até porque quem vem nos ver quer algo profissional", afirma o diretor Augusto Abreu. "Inclusive nos perguntam muito de onde nos somos. Perguntaram ontem mesmo (na estréia), como se não fosse permitido ao teatro daqui fazer um bom trabalho", coloca Isabelle.

- Os Saltimbancos conta a história de um grupo de animais que se rebela contra os seus donos e foge do campo para a cidade em busca de liberdade. Eles formam uma trupe musical e seguem a jornada até o momento em que se deparam novamente com seus donos. Para enfrentá-los, eles precisam contar com uns dos outros. Com isso, descobrem que juntos são mais fortes e podem lutar pelos seus ideais.


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