Vida & Arte
entrevista
Literatura reconfortante de um mundo irreal
Em entrevista a O POVO, o professor da Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, e ex-preso político Mário Maestri, 60, aponta as razões por trás do sucesso editorial do escritor Paulo Coelho
09 Ago 2008 - 13h34min
"Um dos primeiros ensaístas a voltar os olhos sobre sua obra fora o professor Mario Maestri". Feita por Fernando Morais em O Mago, a afirmação também vem revestida de crítica. Ainda na página 541 da biografia do escritor Paulo Coelho, Morais admite: em texto posterior, Maestri - cujos trabalhos iniciais analisavam com imparcialidade a obra do escritor carioca - cederia à rabugice da crítica literária brasileira. Para o biógrafo, grande parcela dessa crítica vive, salvo um ou outro hiato de bom-humor, às turras com o autor best seller.
Em entrevista a O POVO, o professor gaúcho Mário Maestri, 60 anos, fala, de passagem, sobre o episódio. E cutuca: Paulo Coelho teve o biógrafo que mereceu. Doutor em História pela Université Catholique de Louvain (UCL), na Bélgica, Maestri analisa a obra de Paulo Coelho. Nesse exercício, ele sugere explicações para o fenômeno editorial que representado por Coelho e retoma conceitos apresentados no livro Por que Paulo Coelho teve sucesso, publicado em 1993. Para o pesquisador, as razões por trás do estrelato literário do mago são razoavelmente simples: com uma prosa trivial, assemelhada estruturalmente às tele-novelas, os livros de Coelho destinam-se a um público feminino. Não por acaso, explica Maestri, os personagens mais bem-acabados pelo autor são mulheres, como Brida e Veronika. Isso permite que "jovens e menos jovens desiludidas com a vida identifiquem-se com as soluções literalmente mágicas obtidas pela charmosa bruxinha irlandesa para suas frustrações". Atualmente, Mário Maestri dá aulas na Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Ainda em 2007, em reportagem publicada pela revista americana New Yorker, Maestri colaborou com uma análise da obra de Paulo Coelho. (Henrique Araújo, Especial para O POVO)
O POVO - Há resposta simples e direta que explique a surpreendente trajetória de Paulo Coelho?
Mário Maestri - Por ser escritor de escassas qualidades e alcançar enormes vendagens, Paulo Coelho constitui indiscutivelmente um fenômeno, ou seja, um fato relevante que exige explicação científica. Em artigo longo, A feitiçaria yuppie de Paulo Coelho, de 1993, reapresentado em forma ampliada como livro, em 1999, Por que Paulo Coelho teve Sucesso, expliquei o sentido daquela literatura e da oposição aparente entre uma qualidade escassa e uma aceitação fluvial. É interessante que, na página 541 de O Mago, Fernando Morais refere-se a esses dois trabalhos, registrando que não os leu e ajeitando-os a suas necessidades. Já em 1993, lembrava que a produção literária de Paulo Coelho era, certamente, prosa literária de tema esotérico, e não ensaísmo de auto-ajuda, como proposto por inúmeros críticos que não haviam lido a produção coelhista, criticando-a a partir da esdrúxula posição "não li e não gostei". Sobretudo, assinalava, em uma tentativa de análise racionalista de uma ficção irracionalista, as características textuais, estruturais e de conteúdo, assim como o momento histórico, que levaram ao paradoxal sucesso da ficção do Bruxo escrevinhador. Apontei, sobretudo, a estrutura muito simples da narrativa, como as tele-novelas: texto fácil, em ordem direta, com frases, parágrafos e diálogos breves, contando história simples, que avança no espaço e no tempo, cortada por episódios autônomos. Uma narrativa sempre encenada por poucos personagens, em geral não mais do que cinco, contracenando sempre em forma dual com o protagonista, com nomes ou denominações fáceis de serem lembrados. Portanto, uma literatura fácil e acessível a leitores ocasionais, não habituados à ficção densa. Isso, ao meu ver, teria permitido, mas não garantia, um sucesso nascido da capacidade dessa literatura mágico-esotérica de servir de lenitivo à enorme população mergulhada em perplexidade, desânimo, desconcerto, etc., quando da vitória da maré neoliberal. Em 1999, propus que Coelho tivesse modernizado a sub-literatura irracionalista que pôde sair das sombras, com a verdadeira irracionalização do mundo. O Diário de um Mago foi lançado precisamente quando ruía o Muro de Berlim!
OP - Como teve início o seu interesse pela obra do autor?
MM - É uma história divertida. Em 1969, estudante, passei alguns dias preso no DOPS. Um tio, delegado, me presenteou com Meu pé de laranja-lima, um outro sucesso louco na época, que desdenhei pela baixa qualidade literária e ofereci ao meu companheiro de cela, um enorme açougueiro argentino, preso por viver no Brasil sem documento e surrar a mulher. De noite, acordei com seus soluços: homem se debulhava em lágrimas, com o coração partido pela história melosa contada por José Mauro de Vasconcellos. Desde então me interessa o sucesso desse tipo de produção cultural.
OP - O senhor é doutor em História. Do ponto de vista das ciências humanas, que aspectos da obra de Paulo Coelho se relacionam mais diretamente com o cotidiano das suas centenas de milhares de leitores?
MM - O aspecto determinante é a trivialidade. A mesma trivialidade das tele-novelas, da cinematografia melosa, da música brega, dos romances de amor, etc. Trata-se de narrativa de cunho individualista, socialmente piegas e tranqüilizadora, que reitera preconceitos e ilusões, como "querer é poder", "os justos vencerão", "todos seremos felizes", "está em nós vencer", "ricos e pobres são iguais". Nessa narrativa, o receptor, reconfortado, desbrava maravilhado mundos conhecidos e seguros, arrombando portas abertas, descobrindo obviedades. Tudo ao contrário da verdadeira arte, que enseja experiências profundas, sentimentos complexos, através de aventura estética de conteúdos essenciais que, desorganizando o senso comum e enriquecendo a consciência, remete para a vida real e não para o mundo das ilusões.
OP - Por falar em leitor, o senhor se arriscaria a traçar um perfil do leitor médio de Paulo Coelho? Afinal, para quem o mago escreve?
MM - No Brasil, Argentina, Portugal, Bélgica e Itália, países onde me informei, sem maior sistematicidade, sobre a recepção da literatura coelhista, parece dominar, claramente, o público feminino, sobretudo jovem e adulto. Em verdade, alguns dos personagens melhor construídos por Coelho são mulheres, como Brida, o que permite que jovens e menos jovens desiludidas com a vida identifiquem-se com as soluções literalmente mágicas obtidas pela charmosa bruxinha irlandesa para suas frustrações. Tenho também a impressão que esse tenha sido o público alvo dos primeiros romances do autor.
OP - Primeiro grande sucesso de Paulo Coelho, O Diário de um Mago foi lançado em 1987. Em seguida, viriam O alquimista e Brida. Esses três romances formam uma espécie de núcleo duro no conjunto da obra do autor. A questão é: como os romances posteriores, até os mais recentes, trabalharam as temáticas e premissas presentes nos primeiros livros?
MM - Esses três foram os livros escritos quando, em 1987-90, Paulo Coelho surfava no sucesso, com enorme impacto cultural e ideológico, de sentido profundamente irracionalista e quietista. O livro As valkírias, de 1992, já assinala o declínio de literatura obrigada por sua trivialidade a reapresentar, sempre, sob formas diversas, os mesmos ingredientes, apesar da metamorfose da conjuntura histórica que lhe garantira o sucesso. Paulo Coelho é homem inteligente à frente de um enorme negócio. Ele se esforça para superar essa tendência declinante, que certamente não lhe impedirá de seguir vendendo, e muito bem, nesse mundo globalizado, sem precisar acender vela para qualquer santo, um produto cada vez mais distante do impacto inicial.
OP - Numa de suas entrevistas, o senhor fala que Paulo Coelho costuma reorientar-se literariamente. Ele faz mesmo novas opções estéticas ou seus livros mudam apenas de cor?
MM - É precisamente para contrabalançar o declínio a que acabamos de nos referir, que Paulo Coelho procura reinventar-se, a ele e a sua literatura. Despiu a capa, abandonando a posição de bruxo, procurando propor-se como simples ficcionista, nos romances Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei [1994], O monte Cinco [1997] e, sobretudo, Veronika decide morrer [1998]. Jamais alcançou, porém, nesses e nos trabalhos seguintes, o impacto relativo das obras iniciais. Vai ser sempre, sobretudo, o autor de O alquimista. O verdadeiro assalto que empreende à Academia Brasileira de Letras, em agosto de 2002, ou a atual biografia acordada com Fernando Morais, são operações de marketing bem pensadas e bem realizadas, destinadas a contrabalançar essa perda de impacto e de dinamismo relativo. Mesmo se aceitando que Paulo Coelho tenha vendido cem milhões de livros em vinte anos, cinco milhões por ano, trata-se de sucesso relativo, diante dos trezentos milhões, em apenas dez anos, 30 milhões por ano, da escritora J. K. Rowling. Ou seja, apenas em livros, a Bruxa britânica faturou relativamente seis vezes mais que o nosso feiticeiro carioca!
OP - Para epígrafe de O Mago, Fernando Morais destaca duas declarações do crítico literário Wilson Martins. Na primeira, de 1998, Martins desanca Paulo Coelho. Escrita sete anos depois, a segunda tolera-o. Por que a crítica literária no Brasil despreza o pop star das letras nacionais? O senhor acredita que uma reabilitação do escritor esteja, agora mesmo, sendo processada ou o mago ainda amargará bastante desprezo?
MM - A evolução de Wilson Martins em relação a Paulo Coelho tem sido a da crítica brasileira, que tende a se render ao magnetismo das vendagens siderais e direitos astronômicos, em mundo em que a pedra de toque é o sucesso de mercado e monetário. Em geral, a crítica já defende Paulo Coelho como ficção de planície que prepara para vôos mais elevados. O que é uma ilusão. A leitura, por si só, não eleva. Literatura racista, sexista ou irracionalista reforça o racismo, o sexismo, o irracionalismo. As telenovelas não levam ao bom teatro ou ao bom cinema. A música brega não introduz à popular e erudita de valor. O caminho para Graciliano Ramos não passa por Paulo Coelho. A narrativa trivial é uma droga que droga o consumidor e o mantém apartado da arte e da vida. Atualmente, a posição de escritor de sucesso mundial, injustiçado pela crítica brasileira, já é parte da estratégia de marketing coelhista. Não foi pela qualidade de sua obra, mas pelo número de exemplares vendidos e pelo novo consenso da crítica, que ele entrou na Academia Brasileira de Letras, algo impressionante, mesmo se considerando a sabida permeabilidade da veneranda instituição. Em todo caso, a avaliação positiva ou negativa da crítica, importante na recepção e, portanto, na vendagem, não cria ou anula a qualidade de uma obra, podendo apenas reconhecê-la ou ignorá-la. O mulato e maximalista Lima Barreto foi ignorado e desancado pela crítica, não apenas de sua época, sendo um enorme fracasso de vendagem. Ele consolida-se, porém, crescentemente como um dos maiores ficcionistas brasileiros.
OP - Logo no primeiro capítulo de O Mago, Fernando Morais apresenta Paulo Coelho como alguém que se enfeza rapidamente quando não se vê cercado por jornalistas e fãs. A seu ver, a biografia faz jus às contradições do personagem?
MM - Fernando Morais consagrou-se com sua reportagem sobre Cuba - A ilha -, publicada em 1976, durante a Ditadura Militar, no começo da chamada Abertura, quando era imenso o interesse da população brasileira sobre Cuba. Repetiu o sucesso com Olga, em 1985, sobre a militante comunista alemã, companheira de Prestes, entregue por Getúlio aos nazistas. Neste último e nos seguintes livros, perseguiu, com sucesso, as vendagens, mesmo através de amplo sacrifício de conteúdo. Creio que vendeu já dois ou três milhões de livros apenas no Brasil. Uma enormidade! Com a biografia de Paulo Coelho, traduzível para dezenas de línguas, vai ampliar enormemente sua tiragem. É sua maior operação mercadológica. Apesar da alta qualidade do seu texto, sua produção historiográfica denota igualmente conteúdo claramente trivial. Estou nas páginas iniciais de O Mago, mas arriscaria dizer, sem medo de ser injusto, que Paulo Coelho não encontraria melhor biógrafo no Brasil. Fernando Morais candidatou-se, em 2003, à Academia Brasileira de Letras, sendo derrotado por Marcos Maciel, ex-senador e ex-vice presidente da República de 1995 a 2002. Certamente com esse trabalho e um santo forte como Paulo Coelho, vai tornar-se igualmente imortal.
E-MAIS
Algumas das obras relacionadas acima podem ser baixadas gratuitamente no blog oficial de Paulo Coelho. Lá, há versões em várias línguas de livros como Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei e Maktub. O endereço do blog é http://paulocoelhoblog.com. A agenda internacional do escritor; textos sobre o Caminho de Santiago de Compostela, entre a França e a Espanha; uma coluna semanal; fotos e outros textos de autoria de Paulo Coelho podem ser acessados no site oficial do escritor (www.paulocoelho.com).
ESTANTE DO AUTOR
> O vencedor está só (2008)
> A Bruxa de Portobello (2007)
> Ser como o rio que flui (2006)
> O Zahir (2005)
> O Gênio e as Rosas (2004)
> Onze Minutos (2003)
> Histórias para pais, filhos e netos (2001)
> O Demônio e a Srta. Prym (2000)
> Palavras essenciais (1999)
> > Veronika decide morrer (1998)
> Manual do Guerreiro da Luz (1997)
> Cartas de Amor do Profeta (1997)
> O Monte Cinco (1996)
> Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei (1994)
> Maktub (1994)
> As Valkírias (1992)
> O Dom Supremo (1991)
> Brida (1990)
> O Alquimista (1988)
> O Diário de um Mago (1987)
Em entrevista a O POVO, o professor gaúcho Mário Maestri, 60 anos, fala, de passagem, sobre o episódio. E cutuca: Paulo Coelho teve o biógrafo que mereceu. Doutor em História pela Université Catholique de Louvain (UCL), na Bélgica, Maestri analisa a obra de Paulo Coelho. Nesse exercício, ele sugere explicações para o fenômeno editorial que representado por Coelho e retoma conceitos apresentados no livro Por que Paulo Coelho teve sucesso, publicado em 1993. Para o pesquisador, as razões por trás do estrelato literário do mago são razoavelmente simples: com uma prosa trivial, assemelhada estruturalmente às tele-novelas, os livros de Coelho destinam-se a um público feminino. Não por acaso, explica Maestri, os personagens mais bem-acabados pelo autor são mulheres, como Brida e Veronika. Isso permite que "jovens e menos jovens desiludidas com a vida identifiquem-se com as soluções literalmente mágicas obtidas pela charmosa bruxinha irlandesa para suas frustrações". Atualmente, Mário Maestri dá aulas na Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Ainda em 2007, em reportagem publicada pela revista americana New Yorker, Maestri colaborou com uma análise da obra de Paulo Coelho. (Henrique Araújo, Especial para O POVO)
O POVO - Há resposta simples e direta que explique a surpreendente trajetória de Paulo Coelho?
Mário Maestri - Por ser escritor de escassas qualidades e alcançar enormes vendagens, Paulo Coelho constitui indiscutivelmente um fenômeno, ou seja, um fato relevante que exige explicação científica. Em artigo longo, A feitiçaria yuppie de Paulo Coelho, de 1993, reapresentado em forma ampliada como livro, em 1999, Por que Paulo Coelho teve Sucesso, expliquei o sentido daquela literatura e da oposição aparente entre uma qualidade escassa e uma aceitação fluvial. É interessante que, na página 541 de O Mago, Fernando Morais refere-se a esses dois trabalhos, registrando que não os leu e ajeitando-os a suas necessidades. Já em 1993, lembrava que a produção literária de Paulo Coelho era, certamente, prosa literária de tema esotérico, e não ensaísmo de auto-ajuda, como proposto por inúmeros críticos que não haviam lido a produção coelhista, criticando-a a partir da esdrúxula posição "não li e não gostei". Sobretudo, assinalava, em uma tentativa de análise racionalista de uma ficção irracionalista, as características textuais, estruturais e de conteúdo, assim como o momento histórico, que levaram ao paradoxal sucesso da ficção do Bruxo escrevinhador. Apontei, sobretudo, a estrutura muito simples da narrativa, como as tele-novelas: texto fácil, em ordem direta, com frases, parágrafos e diálogos breves, contando história simples, que avança no espaço e no tempo, cortada por episódios autônomos. Uma narrativa sempre encenada por poucos personagens, em geral não mais do que cinco, contracenando sempre em forma dual com o protagonista, com nomes ou denominações fáceis de serem lembrados. Portanto, uma literatura fácil e acessível a leitores ocasionais, não habituados à ficção densa. Isso, ao meu ver, teria permitido, mas não garantia, um sucesso nascido da capacidade dessa literatura mágico-esotérica de servir de lenitivo à enorme população mergulhada em perplexidade, desânimo, desconcerto, etc., quando da vitória da maré neoliberal. Em 1999, propus que Coelho tivesse modernizado a sub-literatura irracionalista que pôde sair das sombras, com a verdadeira irracionalização do mundo. O Diário de um Mago foi lançado precisamente quando ruía o Muro de Berlim!
OP - Como teve início o seu interesse pela obra do autor?
MM - É uma história divertida. Em 1969, estudante, passei alguns dias preso no DOPS. Um tio, delegado, me presenteou com Meu pé de laranja-lima, um outro sucesso louco na época, que desdenhei pela baixa qualidade literária e ofereci ao meu companheiro de cela, um enorme açougueiro argentino, preso por viver no Brasil sem documento e surrar a mulher. De noite, acordei com seus soluços: homem se debulhava em lágrimas, com o coração partido pela história melosa contada por José Mauro de Vasconcellos. Desde então me interessa o sucesso desse tipo de produção cultural.
OP - O senhor é doutor em História. Do ponto de vista das ciências humanas, que aspectos da obra de Paulo Coelho se relacionam mais diretamente com o cotidiano das suas centenas de milhares de leitores?
MM - O aspecto determinante é a trivialidade. A mesma trivialidade das tele-novelas, da cinematografia melosa, da música brega, dos romances de amor, etc. Trata-se de narrativa de cunho individualista, socialmente piegas e tranqüilizadora, que reitera preconceitos e ilusões, como "querer é poder", "os justos vencerão", "todos seremos felizes", "está em nós vencer", "ricos e pobres são iguais". Nessa narrativa, o receptor, reconfortado, desbrava maravilhado mundos conhecidos e seguros, arrombando portas abertas, descobrindo obviedades. Tudo ao contrário da verdadeira arte, que enseja experiências profundas, sentimentos complexos, através de aventura estética de conteúdos essenciais que, desorganizando o senso comum e enriquecendo a consciência, remete para a vida real e não para o mundo das ilusões.
OP - Por falar em leitor, o senhor se arriscaria a traçar um perfil do leitor médio de Paulo Coelho? Afinal, para quem o mago escreve?
MM - No Brasil, Argentina, Portugal, Bélgica e Itália, países onde me informei, sem maior sistematicidade, sobre a recepção da literatura coelhista, parece dominar, claramente, o público feminino, sobretudo jovem e adulto. Em verdade, alguns dos personagens melhor construídos por Coelho são mulheres, como Brida, o que permite que jovens e menos jovens desiludidas com a vida identifiquem-se com as soluções literalmente mágicas obtidas pela charmosa bruxinha irlandesa para suas frustrações. Tenho também a impressão que esse tenha sido o público alvo dos primeiros romances do autor.
OP - Primeiro grande sucesso de Paulo Coelho, O Diário de um Mago foi lançado em 1987. Em seguida, viriam O alquimista e Brida. Esses três romances formam uma espécie de núcleo duro no conjunto da obra do autor. A questão é: como os romances posteriores, até os mais recentes, trabalharam as temáticas e premissas presentes nos primeiros livros?
MM - Esses três foram os livros escritos quando, em 1987-90, Paulo Coelho surfava no sucesso, com enorme impacto cultural e ideológico, de sentido profundamente irracionalista e quietista. O livro As valkírias, de 1992, já assinala o declínio de literatura obrigada por sua trivialidade a reapresentar, sempre, sob formas diversas, os mesmos ingredientes, apesar da metamorfose da conjuntura histórica que lhe garantira o sucesso. Paulo Coelho é homem inteligente à frente de um enorme negócio. Ele se esforça para superar essa tendência declinante, que certamente não lhe impedirá de seguir vendendo, e muito bem, nesse mundo globalizado, sem precisar acender vela para qualquer santo, um produto cada vez mais distante do impacto inicial.
OP - Numa de suas entrevistas, o senhor fala que Paulo Coelho costuma reorientar-se literariamente. Ele faz mesmo novas opções estéticas ou seus livros mudam apenas de cor?
MM - É precisamente para contrabalançar o declínio a que acabamos de nos referir, que Paulo Coelho procura reinventar-se, a ele e a sua literatura. Despiu a capa, abandonando a posição de bruxo, procurando propor-se como simples ficcionista, nos romances Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei [1994], O monte Cinco [1997] e, sobretudo, Veronika decide morrer [1998]. Jamais alcançou, porém, nesses e nos trabalhos seguintes, o impacto relativo das obras iniciais. Vai ser sempre, sobretudo, o autor de O alquimista. O verdadeiro assalto que empreende à Academia Brasileira de Letras, em agosto de 2002, ou a atual biografia acordada com Fernando Morais, são operações de marketing bem pensadas e bem realizadas, destinadas a contrabalançar essa perda de impacto e de dinamismo relativo. Mesmo se aceitando que Paulo Coelho tenha vendido cem milhões de livros em vinte anos, cinco milhões por ano, trata-se de sucesso relativo, diante dos trezentos milhões, em apenas dez anos, 30 milhões por ano, da escritora J. K. Rowling. Ou seja, apenas em livros, a Bruxa britânica faturou relativamente seis vezes mais que o nosso feiticeiro carioca!
OP - Para epígrafe de O Mago, Fernando Morais destaca duas declarações do crítico literário Wilson Martins. Na primeira, de 1998, Martins desanca Paulo Coelho. Escrita sete anos depois, a segunda tolera-o. Por que a crítica literária no Brasil despreza o pop star das letras nacionais? O senhor acredita que uma reabilitação do escritor esteja, agora mesmo, sendo processada ou o mago ainda amargará bastante desprezo?
MM - A evolução de Wilson Martins em relação a Paulo Coelho tem sido a da crítica brasileira, que tende a se render ao magnetismo das vendagens siderais e direitos astronômicos, em mundo em que a pedra de toque é o sucesso de mercado e monetário. Em geral, a crítica já defende Paulo Coelho como ficção de planície que prepara para vôos mais elevados. O que é uma ilusão. A leitura, por si só, não eleva. Literatura racista, sexista ou irracionalista reforça o racismo, o sexismo, o irracionalismo. As telenovelas não levam ao bom teatro ou ao bom cinema. A música brega não introduz à popular e erudita de valor. O caminho para Graciliano Ramos não passa por Paulo Coelho. A narrativa trivial é uma droga que droga o consumidor e o mantém apartado da arte e da vida. Atualmente, a posição de escritor de sucesso mundial, injustiçado pela crítica brasileira, já é parte da estratégia de marketing coelhista. Não foi pela qualidade de sua obra, mas pelo número de exemplares vendidos e pelo novo consenso da crítica, que ele entrou na Academia Brasileira de Letras, algo impressionante, mesmo se considerando a sabida permeabilidade da veneranda instituição. Em todo caso, a avaliação positiva ou negativa da crítica, importante na recepção e, portanto, na vendagem, não cria ou anula a qualidade de uma obra, podendo apenas reconhecê-la ou ignorá-la. O mulato e maximalista Lima Barreto foi ignorado e desancado pela crítica, não apenas de sua época, sendo um enorme fracasso de vendagem. Ele consolida-se, porém, crescentemente como um dos maiores ficcionistas brasileiros.
OP - Logo no primeiro capítulo de O Mago, Fernando Morais apresenta Paulo Coelho como alguém que se enfeza rapidamente quando não se vê cercado por jornalistas e fãs. A seu ver, a biografia faz jus às contradições do personagem?
MM - Fernando Morais consagrou-se com sua reportagem sobre Cuba - A ilha -, publicada em 1976, durante a Ditadura Militar, no começo da chamada Abertura, quando era imenso o interesse da população brasileira sobre Cuba. Repetiu o sucesso com Olga, em 1985, sobre a militante comunista alemã, companheira de Prestes, entregue por Getúlio aos nazistas. Neste último e nos seguintes livros, perseguiu, com sucesso, as vendagens, mesmo através de amplo sacrifício de conteúdo. Creio que vendeu já dois ou três milhões de livros apenas no Brasil. Uma enormidade! Com a biografia de Paulo Coelho, traduzível para dezenas de línguas, vai ampliar enormemente sua tiragem. É sua maior operação mercadológica. Apesar da alta qualidade do seu texto, sua produção historiográfica denota igualmente conteúdo claramente trivial. Estou nas páginas iniciais de O Mago, mas arriscaria dizer, sem medo de ser injusto, que Paulo Coelho não encontraria melhor biógrafo no Brasil. Fernando Morais candidatou-se, em 2003, à Academia Brasileira de Letras, sendo derrotado por Marcos Maciel, ex-senador e ex-vice presidente da República de 1995 a 2002. Certamente com esse trabalho e um santo forte como Paulo Coelho, vai tornar-se igualmente imortal.
E-MAIS
Algumas das obras relacionadas acima podem ser baixadas gratuitamente no blog oficial de Paulo Coelho. Lá, há versões em várias línguas de livros como Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei e Maktub. O endereço do blog é http://paulocoelhoblog.com. A agenda internacional do escritor; textos sobre o Caminho de Santiago de Compostela, entre a França e a Espanha; uma coluna semanal; fotos e outros textos de autoria de Paulo Coelho podem ser acessados no site oficial do escritor (www.paulocoelho.com).
ESTANTE DO AUTOR
> O vencedor está só (2008)
> A Bruxa de Portobello (2007)
> Ser como o rio que flui (2006)
> O Zahir (2005)
> O Gênio e as Rosas (2004)
> Onze Minutos (2003)
> Histórias para pais, filhos e netos (2001)
> O Demônio e a Srta. Prym (2000)
> Palavras essenciais (1999)
> > Veronika decide morrer (1998)
> Manual do Guerreiro da Luz (1997)
> Cartas de Amor do Profeta (1997)
> O Monte Cinco (1996)
> Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei (1994)
> Maktub (1994)
> As Valkírias (1992)
> O Dom Supremo (1991)
> Brida (1990)
> O Alquimista (1988)
> O Diário de um Mago (1987)
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