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Vida & Arte

EXPOSIÇÃO

Mútiplo indivíduo

Amanda Queirós
da Redação

As reflexões do artista e pesquisador Cezar Migliorin estão na exposição Viagem à Superfície, que tem abertura hoje no Mauc


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08/08/2008 00:17

Foto: GEÓRGIA SANTIAGO
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Foto: GEÓRGIA SANTIAGO

Em 2002, o gaúcho Cezar Migliorin decidiu fazer um filme. Com um prêmio de R$ 20 mil de um edital da Petrobras, ele montou um vídeo nos moldes de um diário do bordo. A proposta era viajar por diversos países e nunca permanecer mais de uma noite na mesma cidade. Tudo registrado. Seria simples e absolutamente esquecível se, no canto da tela, ele não mostrasse a "contagem regressiva" dos recursos ganhos da estatal. A cada refeição, passeio ou viagem, lá iam-se embora os cifrões até o número zerar e o filme acabar.

Os cinco minutos de Ação e Dispersão irradiam uma carga crítica de altíssima voltagem, gerando discussões apaixonadas sobre a relação entre dinheiro/arte e público/privado. De lá para cá, os manifestos conceituais e absolutamente políticos de Migliorin deram espaço a mergulhos mais estéticos e menos cerebrais. É esse caminho que constrói Viagem à Superfície, reunião de oito vídeos enxertados a partir de hoje nos salões no Museu de Arte da UFC. A abertura acontece às 19 horas e a exposição fica em cartaz até 28 de agosto.

Migliorin tem um pé na arte e outro na academia. É doutor em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e já atuou como montador em diversos filmes, como Carlota Joaquina (1995). Por conta disso, não se considera artista. Prefere se intitular "pesquisador audiovisual que transita no meio das artes". Essa dupla face o faz dominar a rara capacidade do artista pensar a sua própria obra. Para ele, Viagem à Superfície é a constação de uma transformação decorrida nos últimos anos.

"Meus trabalhos eram muito agressivos. Eles não funcionavam sem polêmica. Essa mudança tem a ver com a pesquisa que acompanhou o meu doutorado. Comecei a ficar muito interessado nos nossos modos de vida, em como a política do cotidiano, de ser no mundo, é também uma forma de pensar a política como um todo. Percebi que é na superfície que se dão os embates do cotidiano. É nela que se pode achar outras concepções estéticas e políticas", afirma ele, que está ministrando o curso Audiovisual e Artes Plásticas aos alunos da Especialização em Audiovisual em Meios Eletrônicos da UFC. Daí vem o título da exposição. Apesar de os trabalhos terem cada vez mais o próprio artista como objeto, eles procuram desviar a noção de "eu" como uma concepção unicamente individualista, investindo nele como uma multiplicação de vozes do cotidiano. Afinal, o sujeito não se faz sozinho. "'Eu' estou sempre presente, mas sempre em retirada para dar lugar a essas vozes", diz.

Por conta dessa dimensão coletiva do indivíduo, Migliorin aposta nos processos. Alguns de seus trabalhos, na verdade, não fazem o menor sentido quando apresentados somente em sua versão finalizada. É o caso de Artista sem Idéia, concebido em 2005. Nele, o gaúcho lançou por e-mail um edital para a compra de um vídeo de outrem. Pagaria US$ 1 mil desde que passasse a assinar a obra. A discussão em cima da questão de autoralidade permeou toda a "feitura". Na exposição, o vídeo comprado será exibido pela primeira vez apontando para o processo decorrido na internet. No entanto, ele fica isolado dos demais trabalhos assim como Ação e Dispersão e Meu nome é Paulo Leminski (vencedor do prêmio de melhor vídeo e melhor direção no 15º Cine Ceará), as obras mais conhecidas e mais antigas. "Privilegio o que não sei se funciona, o que não me garante nada. Puxo pelos trabalhos que me deixam sem chão. Tenho que aproveitar oportunidades como essa (da exposição) para poder fazer isso", diz.

SERVIÇO
Viagem à Superfície - A exposição abre hoje, às 19 horas, no Museu de Arte da UFC (Av. da Universidade, 2854 - Benfica). O artista estima ser necessário uma hora para conferir todos os trabalhos. A visitação acontece até o dia 28 de agosto, de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 14h às 18h. Grátis. Info: 3366 7481.


Leia mais informações sobre o trabalho de Cezar Migliorin em: www.opovo.com.br/conteudoextra


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