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HISTÓRIA/LANÇAMENTO

Um homem, dois destinos

Regina Ribeiro
da Redação

No livro Traição - um jesuíta a serviço do Brasil holandês processado pela inquisição, o historiador fluminense Ronaldo Vainfas investiga a vida conturbada de Manoel de Moraes


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05/08/2008 00:12

A inauguração da ponte Recife-Maurícia, obra de Maurício de Nassau, foi uma das obras do período holandês (Divulgação)
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A inauguração da ponte Recife-Maurícia, obra de Maurício de Nassau, foi uma das obras do período holandês (Divulgação)

O cenário era o Brasil colonial do século XVII. Nele, Manoel de Moraes, um mestiço paulistano, filho de bandeirante, ingressou na Companhia de Jesus e foi parar no Colégio da Bahia. Talentoso, destacou-se nas letras, fez três dos principais votos e, por mérito, foi se embrenhar em Pernambuco no comando da Companhia no aldeamento de São Miguel de Muçuí, a 42 km de Olinda. Tinha sob suas ordens entre 300 e 600 guerreiros índios. Estava quase tudo pronto para o combate.

Do outro lado do Atlântico, a Holanda fazia planos audaciosos de conquistar o Brasil. Nação protestante, com razoável força militar, pôs o plano em execução em 1623 quando ensaiou a invasão por Salvador. Não conseguiu se estabelecer. Pernambuco foi o novo alvo e, neste caso, teve mais sucesso. Manoel de Moraes foi um dos primeiros a comandar índios no combate aos holandeses hereges. Sua atuação e bravura ficaram conhecidas tanto do lado dos jesuítas, que olhavam de banda para o religioso afoito com as armas, quanto pelos holandeses que, aos poucos foram conquistando pontos estratégicos do litoral açucareiro. Por quatro anos, entre 1630 e 1634, Manoel liderou indígenas na refrega entre Brasil e Holanda, mas a cada ano o avanço holandês era visível e o cansaço português também. Quando a Holanda investiu contra a Paraíba, num momento em que os flamengos pareciam levar ampla vantagem, a debandada portuguesa foi geral. Manoel, entre a cruz e a caldeirinha, optou pelos hereges: rendeu-se ao comando de Artichewski, em dezembro de 1934, com um "lenço branco amarrado num pau".

A partir daí, a vida de Manoel de Moraes se transformou nunca sucessão de escaramuças e conturbações políticas e religiosas. E é sobre ela que se debruçou o historiador fluminense Ronaldo Vainfas, um estudioso do Brasil colonial e da inquisição portuguesa. No livro recém-lançado Traição - Um Jesuíta a serviço do Brasil holandês processado pela inquisição, Vainfas esquadrinha a vida e o contexto político, econômico, cultural e religioso do Brasil cruzado entre Portugal, Holanda e Espanha.

Para reconstruir a história de Manoel, Vainfas teve como base as peças dos dois processos abertos contra o jesuíta na Inquisição portuguesa. Pesava contra ele graves crimes: ter se debandado para o lado calvinista, causando inestimáveis perdas para a luta contra os flamengos e a imagem dos jesuítas; ter se casado duas vezes na Holanda no rito calvinista, imperdoável para os homens do Santo Ofício; pregado a doutrina calvinista e recebido dinheiro dos hereges. Num dos processos Manoel foi julgado à revelia, condenado à fogueira e queimado em estátua.

Com base nos processos, o trabalho de Ronaldo Vainfas foi sendo ampliado com outras fontes que ajudaram a montar o quebra-cabeça de um rico e atormentado personagem do Brasil colonial. Isso porque Manoel de Manoel não foi apenas um traidor que se passou para o lado dos hereges, ele foi um escritor renomado e um dos mais citados na historiografia antiga do Brasil. Era respeitado intelectualmente, freqüentou a universidade de Leiden, na Holanda. E é justamente o tormento de Manoel que o torna um personagem fascinante.

Apesar de professar a fé calvinista na Holanda, ele abandona a segunda mulher e os filhos e volta ao Brasil como católico ardoroso. Para dar provas disso, comanda como capelão uma batalha em Tabocas, interior de Pernambuco, na guerra divina pela libertação do Brasil da mão dos holandeses. Nessa guerra, ela agarra-se à Virgem Maria e, aos berros, empunha a cruz e incentiva os combatentes a lutarem contra os hereges. Saiu vitorioso e Manoel ganha, até dos inimigos, depoimentos favoráveis a ele no processo inquisitório. O livro de Vainfas desnuda também os ritos religiosos coloniais e a batalha pela fé que tirava o fôlego e a vida de não se rezasse pela cartilha da Inquisição. Com habilidade mostra a rede de interesses que, à margem da fé, define as ações de portugueses católicos e holandeses calvinistas em território brasileiro. Em entrevista ao O POVO, por e-mail, o historiador Ronaldo Vainfas conta alguns detalhes da pesquisa que refaz os caminhos de Manoel de Moraes e seus destinos.

O POVO - Para começar a conversa, eu gostaria de saber como foi o seu encontro com o personagem Manoel de Moraes?
Ronaldo Vainfas - O encontro foi casual, lá pelos idos de 1985. Estava pesquisando os desvios morais e sexuais perseguidos pela Inquisição no Brasil e o Manoel de Moraes estava na minha lista de padres que se casaram. Um delito que tinha o nome curiosíssimo de "bigamia similitudinária". Mas quando me deparei com o processo dele, percebi que o caso era bem mais interessante. Os outros padres dessa lista tinham simplesmente largado a batina para casar na Igreja católica, fingindo-se solteiros. O Manoel não. Tinha casado na Holanda, no rito calvinista, e ainda por cima estava a serviço dos holandeses. Pensei, então, que algum dia ainda iria examinar este caso de perto. Dei sorte e acabei fazendo o livro passados 20 anos do primeiro encontro.

OP - Como foi o percurso para perseguir a repercussão dos textos produzidos por Manoel de Moraes e que nunca foram publicados? Aliás, nesse momento, Manoel deixa de ser um traidor e passa a ser um personagem importante para a história brasileira.
Ronaldo - Este percurso foi penoso, sobetudo porque a principal obra dele, a Historia Brasilensis, jamais foi publicada. Percorri diversos autores do século XVII e XVIII à cata de citações ao livro. Nesse ponto foi valioso o estágio que fiz na John Brown Carter Library, em Providence (EUA), a principal biblioteca de livros antigos relacionados ao Brasil colonial. O texto de 1641, publicado em Leiden, no qual Manoel louvou a restauração portuguesa, também sumiu. Mas tive a sorte de localizar uma réplica detalhada de Juan Caramuel Lobkowitz, datada de 1642, que resume e cita, para refutá-los, cada um dos argumentos de Manoel. Já a Resposta aos Holandeses de 1648 foi publicada por Afonso Taunay nos anos 1920 e ainda pude ler os originais. O dicionário da língua tupi também foi publicado pelo Joannes de Laet, seu "padrinho" na Holanda. De todo modo, Manoel de Moraes foi mais que um "traidor". Os historiadores da literatura costumam citá-lo. Paulo Setúbal chegou a dizer que ele foi o primeiro escritor brasileiro, isto é, nascido no Brasil, do qual se tem notícia. Mas isso não é exato. O primeiro foi o baiano Frei Vicente do Salvador. Manoel foi o segundo.

OP - Para além do contexto histórico envolvendo Brasil, Portugal e Holanda, o livro constrói o personagem desde o seu nascimento ao desaparecimento em algum lugar entre Lisboa e o Brasil. Quais juízos de valor teceram o fio condutor dessa pesquisa?
Ronaldo - Minha intenção era contar a história dos conflitos envolvendo Espanha, Portugal, Holanda e Brasil a partir de um personagem marginal. E mergulhar, através dele, nas complexas redes de poder que então se formavam, nas quais as lealdades eram muito volúveis; nos processos de mediação cultural; nos dramas que a religião podia causar nos indivíduos. A história do Manoel de Moraes é um exemplo excelente de tudo isso.

OP - A principal fonte do seu trabalho foi o processo da inquisição portuguesa, mas o texto está recheado de várias outras fontes, um trabalho copioso de checagem para validar datas e fatos. Mesmo assim, as lacunas não deixaram de ser preenchidas com a sua imaginação. Como o historiador lida com a imaginação para compor o texto histórico?
Ronaldo - De fato, além do processos da Inquisição (ou processos, porque foram dois), examinei a crônica de guerra portuguesa e holandesa, as cartas jesuíticas sobre ele depositadas no arquivo do Vaticano, alguns documentos da Companhia das índias depositadas no Arquivo de Haia e muitos livros de época do acervo a Jonh Carter Brown Library. Mesmo assim, a narrativa por vezes adentrou em zonas cinzentas, onde a informação era turva. Nesses casos, não tive saída senão conjecturar, trabalhar com possibilidades, já que me faltavam provas cabais de certos fatos. Acho perfeitamente lícito que o historiador use a imaginação para enfrentar as lacunas. O grande historiador francês Georges Duby disse isso certa vez com todas as letras. Mas uma coisa é enfrentar as lacunas, outra é preenchê-las. Para tanto é preciso sempre a prova factual.

OP - Manoel de Moraes, em alguns momentos, parece ser um sujeito oportunista, que queria sucesso, fama e dinheiro. Em outros parece um homem atormentado com a própria sina. Parece sofrida a construção do perfil psicológico de Manoel de Moraes. O texto parece fluir quando é a história pura que está em jogo. Por quais dilemas você passou para lidar com aspectos da vida desse homem tão escorregadio?
Ronaldo - Os meus dilemas foram os de um historiador que ousou se debruçar sobre a biografia de um personagem escorregadio, cuja vida só se pode alcançar através de fragmentos, de vestígios documentais muitas vezes contraditórios, sem falar nos documentos que se perderam. Não foi fácil. Mas os dilemas do Manoel de Moraes foram mais penosos. Ele era mesmo um oportunista, como você sugere, mas tinha sido formado pelos jesuítas, atuado como missionário. Percebi que, com o tempo, estando na Holanda, ele por vezes se questionava sobre sua escolha de trabalhar para os holandeses por dinheiro e ainda por cima adotar o calvinismo. O Manoel de Moraes tornou-se um homem com identidade fragmentada ou ambivalente. De um lado era um homo oeconomicus, logo calculista. Fazia apostas no campo político e tinha ambições materiais.De outro lado, continuava a ser um homo religiosus, temente a Deus, preocupado com a salvação de sua alma, fanático pela figura da Virgem Maria. Ele nunca resolveu esse dilema.

OP - A narrativa histórica com um estilo claramente literário é um dos pontos fortes do seu livro. Do ponto de vista historiográfico, o seu livro está de acordo com a micro-história. Você considera que esse método proporciona o tipo de narrativa escolhida para apresentar a história de Manoel de Moraes às voltas entre o catolicismo e o calvinismo?
Ronaldo - A micro-história é uma metodologia que não só favorece como exige algum apego pela narrativa. Um gosto por contar uma história com ingredientes de suspense, envolta numa atmosfera de novela. Exige também a ousadia de esboçar, na medida do possível, o perfil psicológico dos atores e buscar sempre descrever tudo com o maior detalhe. Os cenários, as roupas, os usos, as palavras, as fisionomias. Avaliar o drama de Manoel de Moraes entre o catolicismo e o calvinismo foi até relativamente fácil diante das mil tarefas que a redução da escala analítica exige. Imagine você que fiz até "pesquisa de campo", quando estive na Holanda, pois fui visitar a cidadezinha de Harderwijk, na Gueldria, para conhecer de perto o lugar onde Manoel viveu por dois anos e se casou com Margarida van Dehait. O historiador por vezes é um antropólogo dos mortos.


Traidores que ficaram para história

Judas e o beijo
Talvez seja o mais famoso traidor do Ocidente cristão. Apóstolo de Jesus, Judas o entregou aos romanos por trinta dinheiros. Para indicar quem era o homem que deveria ser preso, Judas combinou um singelo beijo. De acordo com o relato bíblico, na última ceia que tomaram juntos, Jesus disse a Judas: "O que tem de fazer, faz depressa".

Calabar esquartejado
Contemporâneo de Manoel de Moraes na luta entre Portugal e Holanda pelas terras brasileiras, Domingos Fernandes Calabar também passou para o lado calvinista. Teve o azar de perder para os portugueses a batalha do forte de Nazaré, no Cabo de Santo Agostinho, em julho de 1635. Os holandeses ainda tentaram negociar um salvo-conduto para Calabar. Em vão. O traidor, julgado e condenado sumariamente, foi garroteado, "feito em quartos" com as partes espetadas em quatro paus e a cabeça estatelada num quinto.

Até tu Brutus?
Marcus Junius Brutus era afilhado do imperador romano Júlio Cesar, que o perdoou quando Brutus apoiou Pompeu nas guerras civis romanas. Após a guerra da Farsália, César fez dele governador da Gália Cisalpina. Aliou-se a Cássio para matar Júlio César. Pego numa cilada pelos inimigos, César foi apunhalado pelas costas, mas antes de morrer reconheceu o afilhado. Os historiadores da antiga Roma creditam a César estas últimas palavras: "até tu Brutus?"

O mito Jasão
Um dos personagens mitológicos da Grécia antiga, Jasão casa-se com a filha do rei Aetes, depois que esta o ajuda a conquistar o Velocino de Ouro. Vão morar em Corinto onde têm dois filhos. Lá, Jasão abandona Medéia para casar-se com Gláucia, filha do rei, por quem se apaixona. Medéia, desesperada, envenena Gláucia e vinga-se do marido matando os dois filhos dele. Depois do crime, foge numa carruagem em chamas puxada por dragões.


SERVIÇO

Traição. Um jesuíta a serviço do Brasil holandês processado pela Inquisição. De Ronaldo Vainfas. Companhia das Letras, 384 pgs. R$ 47


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