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crônica

Nem de perto um guerrilheiro

O escritor Jorge Pieiro divaga sobre um tempo de sonhos e de guerrilhas. De fusca bege, ele deixa a imaginação correr solta pelos arredores da cidade

Jorge Pieiro
04 Ago 2008 - 00h04min

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Não me venham confundir com contradições!
Logo que falamos, começamos a errar

(Goethe)

Manhã de domingo. O fusca bege e cinco camaradas. Entre a utopia e a desordem - isto seria uma blasfêmia entre os ingênuos e anacrônicos revolucionários da nossa taba - Eu aplicava sua verve insuportável para combater o questionável tempo de apertura/abertura política. Início dos anos 80...

A Nicarágua do primeiro Ortega e a FSLN; dom Pedro Casaldáliga e sua Araguaia; padre Reginaldo Veloso e seu Morro da Conceição, no Recife, e a canção censurada ao padre Vito Maracapillo, que se negara a celebrar a missa de nossa independência (sic); a chacina de sete dirigentes da Central Obrera Boliviana-COB; Leonardo Boff, Frei Betto e o martírio de Frei Tito; os encontros nada clandestinos no Seminário da Prainha... Tudo, tudo levava a crer que a utopia continuava acesa, pira incandescente de uma ingenuidade titânica. Eu metia-se no final perverso da safra de subversivos, mas sem deixar de lado nem a ternura nem inconseqüência anarquista acautelada, ora pelo medo visceral de todos os seres, ora pela irreverência contrária a qualquer atitude grosseira ou estritamente revolucionária. Enfim, um burguês, diriam, dirão alguns. E daí?

Pois, então, essa lembrança externada desde a mesa 11, do Restaurante Rengaio, da Oh! Linda Pousada, do Geraldinho Menezes, nas falésias da confluência das comunidades de Redonda e de Peroba, em Icapuí, vem atiçar a desenvoltura do pensamento.

Naquele fusca bege, quantas vezes Eu dirigiu-se a Maranguape... Subir à serra, abrir picadas, criar novos caminhos, vislubrar possibilidades de esconderijos, bases de apoio para futuros rebeldes ou criar regras para uma formação de selva, treinamento ingênuo e ineficaz?

Daquela vez, o intuito fora diferente. O objetivo era, por intermédio de outra prática atingir uma instância de engajamento que favoreceria o resultado final da luta anônima, que não tinha, certamente, uma identidade, senão uma conquista a ser repensada. Isto seria novidade dentro do espírito da dita esquerda, combalida e reprocessada a custos juvenis.

Naquele domingo, deixando de lado o pretenso treinamento para guerrilheiro, cortando a facão todo o mato que aparecia pela frente, como se fora um inimigo intermitente, Eu seguiu com sua camaradagem ao futebol - mesmo sendo, como a religião, um ópio desabrido do povo. Nem se lembrava das vezes anteriores, em que se aventurara no precipício da Pedra Rajada ou nas encostas que levavam às paredes da antiga senzala.

Naquele dia, ninguém queria se lembrar da pedra jogada por aquele futuro padre, fã de dom Oscar Romero, contra as costas de um... Isto foi fruto de uma celeuma sem conta, mas que se consagrou pelo perdão; ninguém queria se lembrar dos garrafões de vinho São Brás carregados aos ombros ladeira a cima, à guisa de exercícios físicos; ninguém queria se lembrar do aquecimento excessivo da bateria sob o banco traseiro do fusca de Eu, em ida anterior, rebuscada pelo apetite sapiente de outro, vítima e solucionador da pendência; ninguém queria se lembrar da imagem à esquerda de todos os pensamentos. Afinal, estavam, Eu e os outros, imbuídos do propósito único da satisfação de um final de semana revolucionariamente heterodoxo.

Naquele dia, a tônica era fortificar relações com futuros camaradas, mostrando-se todos bravos e resistentes. Entraram, pois, em campo dispostos a lutar, como se tivessem que libertar a nação de todos os infortúnios. Eu, naquela manhã, estava tão sóbrio, feito um diplomata em solenidade de recebimento da medalha do Barão. Aos três minutos de partida, invadido por uma sensação de revanche contra o aparelho repressor, Eu aplica um chutaço na pelota de couro que atinge uma cerca e logo uma explosão se faz ouvir, a lembrar do tempo em que alguns insanos detonavam bancas de revistas no centro da cidade. Era uma vez a bola...

Imediatamente, uma outra é colocada em jogo e, passados não mais que seis minutos, Eu novamente acerta um tirombaço na mesma direção da cerca e outra explosão dá por encerrada aquela partida, talvez a mostrar que aquilo não era atitude compatível com a ordem vermelha. Futebol era mesmo um anestésico para a alma da revolução. Onde já se viu pernas-de-pau salvarem um país? Não precisa contar do corredor polonês formado para o estraga-prazeres.

Na mesma marcha de ida ao campo de batalha quixotesco, o retorno dos cinco camaradas à capital. Mudos, insatisfeitos, carrancudos, prestes a retornarem de uma falsa clandestinidade aos seus afazeres semanais, até que chegasse o próximo sábado para mais uma reunião na Fumaça, ou em Bombinha, entre o Pici e o Jockey Club. Afinal, salvar a pátria era um desejo de Eu, que só não queria ser flagrado por um falso companheiro e seu gravador camuflado, aquele dedo-duro, mas esta é outra história...

Outros tempos, o mundo continua como dantes: os camaradas continuam clandestinos dentro de si mesmos; Fortaleza continua provinciana e metida a soçaite em sua camisola de renda e purpurina; e Eu continua tentando esquecer do cano frio da metralhadora em um trem andino e da falta de atitude que o tornara um covarde sem revolução, contraditório em seus próprios erros de cúmplice de uma juventude silenciada.


Jorge Pieiro, inventor e vítima das não-guerrilhas no palco de Alencar.
jorgepieiro@secrel.com.br

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