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Da (des)necessidade do clássico

Não ler os clássicos é, afiança o escritor Ítalo Calvino, bem pior que lê-los. na música, a lógica permanece. Quem nunca ouviu acabou chorare, dos novos baianos, pode não sentir qualquer remorso


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02/08/2008 12:13

Por que ler os clássicos? Porque lê-los é melhor que não os ler. Simples, a pergunta e a resposta podem ser encontradas em um dos livros de Italo Calvino. Por que ler os clássicos (Companhia das Letras, 1991, 277 págs.) apresenta a lista particular do escritor. E mais: quatorze motivos ou características que, separadas ou em conjunto, podem convencer qualquer um da importância de se ler, ainda hoje, Don Quixote, de Miguel de Cervantes. Com a música, a coisa não é muito diferente. Pode-se sobreviver sem os discos clássicos dos últimos 50 anos? Claro que sim. Afinal, Revolver, dos Beatles; Black Sabbath, da banda Black Sabbath e Dark Side of the Moon, do Pink Floyd não constituem artigos sem os quais viver torna-se algo impraticável. Entretanto, perde-se muito desconhecendo-os.

"Parodiando Cazuza (inclusive com sua confusão de 'nós' com 'a gente'): nossos clássicos a gente inventa. Para se distrair e para coisas mais sérias", diverte-se Hermano Vianna, antropólogo e pesquisador musical. Seja para se distrair ou para falar a sério, Hermano inventariou os seus clássicos e os lançou aos leitores de O POVO. Sua lista vai do grupo musical alemão Kraftwerk ao último trabalho de Caetano Veloso, Obra em Progresso. "Ele nem foi gravado ainda e, quando for lançado em disco, não terá nem este nome, mas só com sua promessa de 'transamba' já se torna meu clássico - clássico futuro, que pode nem se tornar realmente meu clássico, mas que nem por isso deixa de ser já meu clássico." Para Hermano, a formação do repertório canônico musical nunca é estática. Do ponto de vista político, assemelha-se aos processos eletivos e de construção da identidade de um povo. "Inventar listas de clássicos é parte importante, essencial, da construção de nossa 'tradição', de nossa identidade. E identidade, como disse Ernest Renan (pensador francês do Século XIX) analisando o nacionalismo, é um plebiscito diário. É, portanto, algo em constante transformação."

Produtor musical e apresentador da Rádio Universitária FM desde a sua fundação, em 1981, Nelson Augusto priorizou o gosto particular e intransferível como elemento primordial na hora de elaborar a sua lista de clássicos da música. Segundo Augusto, "para um disco se tornar clássico, é necessário ser uma matriz do seu estilo musical e permanecer atual até os dias de hoje". Para serem clássicos, prossegue, seus discos têm de "agradar do início ao fim". Ele tem de conseguir ouvi-los "desde a primeira música até a última, inclusive só por puro diletantismo, sem o compromisso profissional". (Henrique Araújo, especial para O POVO)


Confira as listas

Hermano Vianna, antropólogo e pesquisador musical, é autor do livro O mundo funk carioca e um dos idealizadores do site colaborativo Overmundo.

> Computer World (1981), do Kraftwerk
> ...Das Barrancas do Rio Gavião (1972), de Elomar
> Duck Rock (1983), de Malcolm McLaren
> Corações Futuristas (1976), de Egberto Gismonti
> In All Languages (1987), de Ornette Coleman
> Potro de Rabia Y Miel (1988), de Camaron de la Isla
> I Want You (1977), de Marvin Gaye
> Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência (2007), do Costa a Costa
> The Pearl (1984), de Harold Budd e Brian Eno
> Obra em Progresso (2008), de Caetano Veloso

Nelson Augusto, jornalista e radialista, é produtor musical e apresentador da Rádio Universitária FM desde a sua fundação, em 1981, e idealizador do site NelSons (www.nelsons.com.br).

> Abbey Road (1969), The Beatles
"Antológico álbum dos Fab Four no qual, depois da fase psicodélica, os então rapazes de Liverpool incluíram composições da mais alta criatividade de melodia, letra e harmonia. Lembro que adquiri o então elepê no início da década de 70 em Recife, com as economias da mesada em parceria financeira com o meu primo. Clássicos do quilate de Come Together e Something, além do meddley final com Golden Slumbers/ Carry That Weight/ The End arrepiam até hoje."
> Acabou Chorare (1972), dos Novos Baianos
"Os então cabeludos e desajeitados 'ripongas', mas essencialmente musicais que eletrificaram o samba e o choro, depois do encontro com o papa da Bossa Nova, João Gilberto, lançaram essa pérola da MPB. No disco, as deliciosas Preta Pretinha, A Menina Dança, Mistério do Planeta, além da faixa-tíltulo, todas de Moraes Moreira e Galvão, também Besta é Tu, da dupla com Pepeu Gomes. Tem também o vibrante resgate de Brasil Pandeiro, do conterrâneo Assis Valente."
> O Azul e o Encarnado (1977), de Ednardo
"Verdadeiro caldeirão sonoro de ritmos do cantor, compositor e instrumentista, o qual conta com o auxílio luxuoso de, entre outros, músicos do nível de Robertinho de Recife (guitarra, viola portuguesa e cítara), o mineiro Túlio Mourão (piano e teclados) e o conterrâneo Manassés na viola de 10 cordas no frevo Maresia. Tem também outros cearenses que colaboram com o álbum: Fausto Nilo nos desenhos e artes gráficas e Fagner nos vocalizes da criativa Pastora do Tempo."
> Alucinação (1976), de Belchior
"Após de ser brindado pelas gravações de suas músicas, Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, por Elis Regina, o cantor, compositor e músico lançou o seu lendário disco, o qual, além das duas já citadas também trazia a faixa-título, e os petardos sonoros Fotografia 3X4, Como o Diabo Gosta, Não Leve Flores e Apenas um Rapaz Latino Americano. Todas de autoria do cearense, as quais questionam os valores de sua época, escrevem definitivamente seu nome na MPB."
> Raimundo Fagner (1976), de Fagner
"O terceiro álbum individual do cantor, compositor e músico depois da estréia com o Manera Fru-Fru, Manera (1973), e o Ave Noturna (1975), demonstra seu amadurecimento como autor com parceiros em Asa Partida, Calma Violência, Corda de Aço, Natureza Noturna, Pavor dos Paraísos e Sangue e Pudins. Nelas, também já revela também um intérprete que viria conquistar seu definitivo espaço na música brasileira resgatando também a reflexiva Sinal Fechado, de Paulinho da Viola."
> Na Quadrada das Águas Perdidas (1978), de Elomar
"Álbum duplo do arquiteto, criador de bodes e principalmente cantor, compositor e violonista Elomar Figueira Mello, além de criações isoladas de sua obra, inclui também temas de O Auto da Catingueira e O Tropeiro Gonsalin. Todas as 20 músicas e letras de sua autoria destacam a linguagem sub-dialetal de sua região em Vitória da Conquista (BA), com inclinação da tradição árabe e ibérica, em sublimes interpretações para, entre outras, Campo Branco e Curvas do Rio."
> The Dark Side of The Moon (1973), do Pink Floyd
"Após quatro álbuns pouco performáticos, surge a lendária criação da banda inglesa, a qual até hoje é sucesso de público e crítica. Tanto que, já virou livro do jornalista John Harris, em português Os Bastidores da Obra-Prima do Pink Floyd e filme em DVD, onde seus próprios integrantes contam e tocam a história do álbum no qual a atmosfera de rock progressivo envolvente de início ao fim, traz mensagens para as submissões humanas, as quais são detonadas em Time e Money, entre outras."
> Machine Head (1972), do Deep Purple
"Trazendo a formação mais celebrada pelos admiradores da banda de hard rock inglesa, a qual conta com Ian Gillan (voz), Ritchie Blackmore (guitarra), Roger Glover (baixo), John Lord (teclados) e Ian Paice (bateria), o disco também tornou-se um sucesso de vendas e o mais conhecido do grupo. Com sensacionais riffs de guitarras, potentes levadas de bateria com o rascante vocal, desfilam as pesadas Never Before, Highway Star, Space Truckin' e a auto-biográfica Smoke on The Water, mais popular do seleto repertório."
> All Things Must Pass (1970), de George Harrison
"Após a dissolução definitiva dos Beatles, anunciada no primeiro semestre de 1970, o guitarrista dos Fab Four lançou um luxuoso álbum triplo, registro raro na época, com canções que podiam ter feito parte dos discos do grupo. Tendo uma pequena ajuda dos amigos músicos, entre eles, Eric Clapton e Ringo Starr, o sofisticado álbum é recheado de jóias como Beware of Darkness, Isn't a Pitty, Wah-Wah, What is Life e My Sweet Lord. Em 2001 foi relançado em CD com faixas bônus."
> Wild Life (1971), de Paul McCartney
"Lançado pelo baixista, cantor e compositor inglês e sua banda pós-Beatles, o Wings, a qual também contava com sua mulher Linda, o álbum tempera a atmosfera do pop e do rock em vigor na época. Com interpretações vibrantes para suas criações, McCartney nos brinda com pérolas bluseiras como a faixa-título e Dear Friend, Some People Never Know, Mumbo e Tomorrow, esta última sucesso maior no Brasil e que mereceu inclusive versão nacional pelo The Fevers.

Marcelo Costa é jornalista. Atualmente, é editor de capa e de música do portal IG. Além disso, é editor do site Scream & Yell (www.screamyell.com.br).

> Bringing It All Back Home (1965), de Bob Dylan
> Revolver (1966), de The Beatles
> The Velvet Underground & Nico (1967), de The Velvet Underground
> Black Sabbath (1970), do Black Sabbath
> What's Going On (1971), de Marvin Gaye
> The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars (1972), de David Bowie
> Dark Side of the Moon (1973), do Pink Floyd
> London Calling (1979), de The Clash
> Doolittle (1989), do Pixies

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