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Vida & Arte

EXPOSIÇÃO

Mobiliáros do eu

O artista paraibano José Rufino, 43, abre a exposição individual Nausea hoje, às 19 horas, no Centro Cultural Banco do Nordeste. Concomitante, a coletiva Eu o outro traz à cidade jovens artistas contemporâneos paraenses


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29/07/2008 00:10

(Foto: Divulgação/Layout Amauricio Cortez)
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(Foto: Divulgação/Layout Amauricio Cortez)

Ao mesmo tempo em que Nausea será aberta em Fortaleza, hoje, às 19h, exposições em São Paulo, Rio de Janeiro e Madri exibem obras do artista paraibano José Rufino, 43. Entre esculturas, instalações e desenhos, a produção contemporânea de Rufino segue profundamente marcada, ou impactada como o próprio artista prefere, pela sua infância, fase na qual viveu em meio a derrocada do engenho canavieiro de seu avô e a atuação política de seus pais, presos durante a ditadura do regime militar nos anos 1960.

A relação familiar, por sinal, está no cerne de sua produção artística, a começar pelo nome "José Rufino", tomado de seu avô paterno (1895-1979), antigo dono do engenho Vaca Branca, localizado em Areia, município do brejo da Paraíba. A substituição do seu original José Augusto de Almeida pelo o do avô se deu na década de 1980, quando o artista recebeu uma herança familiar: todo o acervo documental do patriarca - cartas, notas, recibos, bilhetes, livros e uma papelada diversa.

Segundo o crítico de arte Moacir dos Anjos, foi a partir desse encontro com o passado que a obra de Rufino sofreu uma mudança brusca em relação à assinada com seu nome de batismo. Esse acervo familiar foi por muito tempo o principal suporte para a obra do paraibano, que o utilizou, por exemplo, em Cartas de Areia, quando desenhou e pintou sobre envelopes e cartas de seu avô. "Esse ajuntamento de rastros materiais permitiu a reconstituição de parte do universo escriturário e sentimental no qual seu avô vivera e exercera, por tempo longo, o poder dos donos. Universo que inclui o ambiente familiar e geográfico no qual o artista, na infância, passara extensas temporadas", escreve o crítico em um texto dedicado ao artista intitulado O Tempo Impreciso que se nomeia Agora.

"Esse impacto da infância no engenho vai investir na minha vida até o fim do meu trabalho, porque eu convivi com a opulência da estrutura canavieira no limiar dela se decompor. Então, eu acompanhei a decomposição dessa espécie de império e, ao mesmo tempo, convivi com meu pai, envolvido em movimentos sociais. Então, todo o arsenal, tanto de materiais como de técnicas, das sensações e das relações sociais vão estar sempre presentes", faz questão de frisar José Rufino, que veio a Fortaleza montar a exposição e estará na abertura.

Nausea
Na década de 1990, as instalações de médio e grande porte ganharam maior espaço nas produções do artista. O mobiliário e documentos familiares e institucionais aparecem como uns dos principais materiais trabalhados por Rufino, como na grande instalação Plasmatio, primeiramente exibida na XXV Bienal Internacional de São Paulo (2000), e composta por mobiliário e grandes manchas de tinta sobre cartas e documentos originais de desaparecidos políticos brasileiros.

Na escultura que chega à cidade, Nausea, José Rufino continua enredando essas dimensões. Feita a partir de móveis de metal, documentos e desenhos, ela está apenas em sua segunda exibição. Depois de passar pelo Centro Cultural Banco do Nordeste de Souza, na Paraíba, para o qual foi originalmente criada, Nausea chega aqui em uma versão ampliada, acrescida, dentre outros elementos, de móveis do arquivo morto do BNB.

"Certamente ela vai ter outros desdobramentos, porque é uma escultura que não tem tamanho, ela pode crescer", disse o artista. A obra foi feita a partir de um viagem de José Rufino e Marcelo Campos pelo sertão paraibano. Doutor em Artes Visuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor adjunto e coordenador da Graduação em Artes do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Marcelo assina a curadoria.

"Na instalação, os interesses de Rufino focam o lado de dentro dos móveis, armários e gavetas, procurando algo que é interdito, 'espectrado'. A náusea é uma consciência subjetiva. Os armários cospem desenhos, manchas, fluidos", escreve Marcelo sobre o trabalho.


E-MAIS

José Rufino fez exibições em bienais (Havana, 1997; São Paulo, 2000; Mercosul, 1999; Venezuela, 1998, 2004; Ushuaia, 2007) e exposições individuais (Museu de Arte Moderna, Recife; 2003; Museu Oscar Niemeyer, Curitiba; 2004; Museu de Arte Contemporânea, Niterói; 2004; Embaixada do Brasil, Berlim, 2006).


SERVIÇO:

Abertura da exposição individual Nausea, de José Rufino, e da coletiva Eu o outro, com curadoria de Val Sampaio, hoje, 29, às 19h, no Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza (rua Floriano Peixoto, 941 - Centro). Nausea fica em cartaz até o dia 14 de setembro e Eu o outro até o dia 31 de agosto. Os horários de visitação são: das 10h às 20h (terça-feira a sábado) e de 10h às 18h (domingo). Entrada gratuita. Mais informações: (85) 3464.3108.

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