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Mocinho x bandido
Cinturão Vermelho é um filme sobre a dificuldade em se manter ético num mundo torto. O longa, que tem Rodrigo Santoro e Alice Braga no elenco, se perde ao apostar no mito do herói sem falhas
Amanda Queirós
da Redação
29 Jul 2008 - 00h10min
Um dos motivos para essa atração, talvez, seja a reabilitação irrestrita de uma espécie de ética do samurai como há muito não se via nas tramas hollywoodianas. Cinturão Vermelho centra o roteiro em Mike Terry (Chiwetel Ejiofor), um veterano da Guerra do Golfo que tenta ganhar a vida como professor de jiu-jitsu em uma academia pouco freqüentada. Para ele, a beleza da arte marcial não está na força ou na maquinação para a derrota do outro, mas na filosofia contida nela. Os princípios determinam que até o mais fraco pode vencer desde que ele treine concentração, paciência e conhecimento para cansar o adversário até conseguir se desvencilhar da situação de perigo.
Com essa chave, repetida como um mantra ao longo da trama, Mamet já anuncia o desfecho de seu filme desde o início. Não há surpresas mesmo diante da cascata de tragédias pelas quais Terry passa. O lutador é desenhado praticamente como o último homem justo e bom do mundo. Ele é exatamente aquele que, de tão ético, está desconectado de uma realidade na qual os conceitos de justiça e bondade são relativizados e questionados. O norte ético dele é rígido ao ponto de fazer com que o público não o condene mesmo quando o lutador é impelido a trair a si próprio. É o encantamento pelo utópico, crível apenas naquele universo de ficção.
Na trama, Terry precisa de dinheiro para ajudar a viúva de um de seus ex-alunos, o que o leva a participar de campeonatos de luta organizados pelos irmãos de sua esposa Sondra (Alice Braga). No caminho, se depara com uma série de irregularidades que vão empurrá-lo a uma decisão mais drástica quanto à sua postura naquele universo. Nesse momento, se põe um verdadeiro duelo de mocinho e bandido, onde um lado é unicamente bom e outro é unicamente mau. Aqui, a briga suplanta o dilema moral que permeia todo o longa. Afinal, para quê se luta? Para se ter o reconhecimento da integridade? Para se reafirmar a ética e valores? Toda essa pretensão se perde diante do enorme e iluminado ringue montado ao fim do filme para o combate final. Meio sem querer querendo, David Mamet se deslumbra com a luta por si própria, misturando focos e perdendo o ponto. O que renderia uma grande reflexão entre o torto e o direito acaba conquistando um final que beira o piegas. Uma pena. ***
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