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CRÔNICA

Quando as crianças saírem de férias

As férias de julho chegam ao fim e o cronista Pedro Salgueiro solta suas farpas afiadíssimas para a 'programação cultural e turística' ofertada em Fortaleza neste período

Pedro Salgueiro
Especial para O POVO

28 Jul 2008 - 00h12min

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(Arte: Carlus)
Mais umas férias de meio de ano em nossa loirinha destrambelhada pelo Sol: e não temos nada para oferecer aos sofridos nativos e aos numerosos turistas que aportam por mar, terra ou ar em nossa luminosa e sonsa Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Nenhuma boa peça de teatro de alguns dos poucos grupos locais. Nenhum lançamento de livro de nosso 1 bilhão de escritores da terra. Nenhum show musical dos diversos artistas cearenses. Nenhum filme de nossos esforçados cineastas. Nenhuma exposição de nossos renomados pintores e fotógrafos. Nenhum... Etc.etc., e haja etc. & tal.

Não bastasse a pobreza mental, nada (ou quase nada) temos a oferecer no aspecto físico: ruas congestionadas e esburacadas (e sem sinalização alguma), segurança nenhuma (por que então os empresários que ganham rios de dinheiro com o turismo não ajudam e privatizam logo suas seguranças?), praças horrorosas, passeios turísticos que abranjam toda a cidade e seus infinitos bairros (Teriam que começar na Vila Velha da Barra, passar em todas as lagoas, da do Tabapuá à do Opaia, praças todinhas, Parangaba inteirinha, Messejana e Alagadiço Novo, terminais de ônibus, avenidas principais, bairros os mais escondidinhos; aí só então o turista retornava aos verdes mares de Meireles e Iracema; não sem antes dar uma esticadela nas linhas Grande Circular e Paranjana, de cujas janelas avistariam o Jangurussu e os chifres do Zé Walter). Só assim o glorioso visitante conheceria "de vera" nossa luminosa terrinha.

Mas não, a eles será facultada apenas nossa proposta milenar do "Turismo dos três Pês": Praia, Prostituição e Piada de mau gosto! Além do famigerado Fortal, onde um bando de espertalhões contrata as ociosas bandas de axé-music (a pior invenção musical brasileira depois da lambada e do forró eletrônico) que poluem os céus da Bahia para entreter os incautos de fora e os ingênuos locais, carentes de opções interessantes. E ainda aparece um político demagogo e ocioso propondo um título de cidadania a um poluente cantorzinho esperto. É de se rir, pra não se chorar!?

Nas praias encontrarão os já manjados caranguejos com cerveja quente a um preço de caviar, no tradicional espaço privatizado pelas barracas (que não privatizam a segurança, isto é, ficam apenas com o bom), onde excluem qualquer liso ou com cara de suburbano (experimente sentar-se em uma barraca de praia e veja a diferença de atendimento aos nativos em relação aos gringos, tem garçom expulsando o cabeça-chata, demorando em servir de propósito, sugerindo outro local etc. etc.), os que têm carro ficam reféns dos flanelinhas e gatunos. Sem contar os preços que milagrosamente dobram nas altas estações.

Todos os Estados da federação criam suas crendices populares, a nossa lenda é a de que o turismo trás riqueza para todos! Mentira de economista amestrado: trás riqueza para os empresários, que estão se lixando para o resto da população! Mas a tal lenda diz que há distribuição! Distribuição de migalhas! Pergunte quanto ganha um sujeito que segura as cordas nos blocos de otários do Fortal, pergunte quando ganha um garçom, sem contar que acabou turista acabou subemprego! Rua para essa massa reserva de mão de obra barata! A mesma lógica é aplicada aos feriados de Natal, dia das mães e demais feriados puramente comerciais! Lucro é o que interessa a essa classe escrota dos comerciantes! Ainda tentam passar pra nós, os excluídos de tudo, que será bom para todos! Por trás do risinho cínico de cada comerciante dessa nossa espilicute loirinha descamisada pelo sol há um enorme falo preparado para empalar todos nós! Só há uma coisa que eles sabem fazer bem: ganhar dinheiro! Nisso eles são competentíssimos, mas procurem em outras áreas um destaque vindo das classes altas! Procurem! Nem surfistas eles produzem! (até isso quem produz é nossa favela do Titanzinho!) Procurem um cientista, um pesquisador, um músico, um arquiteto, um escritor, um pintor, todos, sem exceção para confirmar a regra, vêm das classes baixas e remediadas! Essa nossa elite só sabe produzir mais valia e colunas sociais (vejam a quantidade de colunas sociais em nossos jornais, em que os ricos, os novos-ricos e esnobes de uma maneira geral nos brindam a cada fim de semana), que os jornais nos enfiam goela abaixo e sem cuspe.

Outros "Ps"
No segundo "P": basta dar uma voltinha pela Beira-Mar e arredores para ter um panorama da situação, mas se quiser esticar até nossa periferia confirmará do mesmo jeito (dê uma voltinha de carro em plena 19 horas nas Avenidas Humberto Monte, Osório de Paiva, Sargento Hermínio etc. etc. e outras mil mais) a quantidade de prostitutas, muitas adolescentes desnutridas. Um verdadeiro paraíso para a gringalhada, que conta com a cumplicidade de muitos facilitadores, começando nas pousadas e hotéis sem consciência, passando pelos taxistas "espertos" (até o dia em que não acontecer com uma filha deles), guias turísticos desonestos e diversos monstros que cercam a cidade nesses meses de férias. Houve uma época que a Polícia Federal apertou o cerco e sabem para onde os turistas sexuais estavam indo? Acreditem se quiser: pro Sertão! Vocês imaginam cidadezinhas como Monsenhor Tabosa, Tamboril, Pedra Branca... recebendo gringos atrás de suas meninas!?

O terceiro "P" vem do nosso desqualificado humor bufão e grosseiro, humor este que foi criado para ser acompanhamento de pizza das nossas casas de massas, mas que por total vácuo em nossas programações (e igual vazio mental de nossa população e da que aqui aporta) acabou sendo oferecido como "opção cultural" principal de nossa escrotinha loira desmiolada pelo Sol. E haja piada de mau gosto, grosseria pornográfica sendo vendida como produto de exportação (não basta a gente já ter inventado o nojento forró eletrônico que polui parte do Brasil vazio não só de cultura mas de alfabetização mesmo, incluo aí os que assinam o nome e assistem novela como únicas fontes de informação). Vá ao Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e veja nossa principal programação de férias: "humor cearense de baixa qualidade", pergunta-se onde se encontram nossas tradicionais companhias teatrais? Onde os promissores e talentosos grupos jovens de teatro? Estão preparando suas pérolas para os porcos! Por que nossas empresariais secretarias voltadas para o turismo e a cultura não implementam esta costura entre os grupos teatrais e o turismo e a população?

E os cinco bilhões de lançamentos de livros locais? Por que não estão nas programações culturais voltadas para nativos e estrangeiros? E vem secretário de cultura falar em um trilhão de livros nas bibliotecas. Pra quê? Se em suas casas os professores não têm uma estante, não lêem um livro desde os tempos da faculdade, ganham uma miséria e são desestimulados! Guardar livros em bibliotecas não é a melhor maneira, criem-se leis que garantam uma pequena estante em cada sala de aula desde o infantil e habilitem os professores para trabalhares estes livros com seus alunos uma hora por dia que estarão fazendo mais pela educação e cultura do que em projetos megalômanos! Pois bem, houve um tempo em que não se podia comer uma pizza em paz que vinha um sujeito contar uma piada! Foi o jeito deixar de comer a massa italiana! Culpa do nosso genial Chico Anísio? Do nosso querido Didi Mocó? Claro que não! Culpa de nosso vácuo cultural! E haja piada!

Pense bem ao verem a alegria de seus queridos pimpolhos quando saírem de férias, pois eles podem estar próximos de mais uma armadilha dessas preparadas por empresários do ramo de entretenimento. Conversem com eles, para que desistam logo dessa vida, senão mais tarde será difícil mudar suas cabeças: serão um gado a mais nessa imensa manada! Crie programações alternativas, ver bons filmes (o Batman está imperdível, o Agente 86, então, nem se fala, o Panda lutador, tirando os olhos claros colonizado), aquele ótimo musical infantil na Unifor, um passeio despretensioso a uma livraria, uma viagem de fim de semana fora do eixo turístico. Enfim, use um pouco de sua criatividade: o futuro saudável de seus filhos lhe agradecerá.

P.S.: Lembram-se daquele ministro que foi assaltado aqui na Beira-Mar? O ladrãozinho de meia-tigela continua preso, sem poder exercer sua suada profissão nessas férias tão cheias de novidades. Vejam só: o tal ministro foi o mesmo que deu habeas-corpus para a quadrilha de empresários que sai todo dia na TV, sabia? Por que será que o defensor público desse pobre coitado não pede um habeas-corpus ao mesmíssimo ministro para libertá-lo, hein!?

Pedro Salgueiro é licenciado em Pedagogia pela Uece, em História pela UFC e deixou pela metade o curso de Agronomia da UFC. É funcionário público do TRF 5ª Região, em Recife (PE), por completa falta de vocação pra qualquer atividade. Foi professor por 9 anos, mas abandonou por desnutrição e medo de enlouquecer.

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