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Bastidores de uma piada

Pai da Raimundinha, Paulo Diógenes é um dos pioneiros nos costumes de show de humor nos bares de Fortaleza. Com mais de 20 anos de trajetória, ele agrada aos turistas sem perder um repertório de piadas diretamente ligadas com o Ceará


26 Jul 2008 - 16h13min

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Paulo Diógenes começou fazendo teatro no final dos anos 70 até optar pela comédia quando criou o personagem Raimundinha (Foto: ALEX COSTA)
O fotógrafo comenta "eu nunca vi um humorista tão sério". Paulo Diógenes responde de pronto: "Eu não rio, cara. Impressionante. Eu não consigo sorrir para a foto. Fica uma coisa forçada". O motivo é simples. Paulo Diógenes não se considera artista. Todos os méritos deste humorista estão em ter criado a mega-pop-estrela-canelau Raimundinha, há 23 anos.

Meio sem perceber, a personagem foi tomando forma na medida em que agradava ao público. Paulo Diógenes tem o pé inicial no teatro. Em 1979, participou de um grupo de teatro da UFC, sob coordenação da profa. Erotilde Honório. Depois, passou pelo grupo Grita, ao lado de Oswald Barroso. "Mas eu sentia a necessidade de fazer comédia em Fortaleza. Esse tipo de comédia que o povo chama de besteirol", diz.

No teatro mesmo, precisou substituir sua ex-esposa Neidinha Castelo Branco em um espetáculo cômico. A peça tratava do desejo de uma mãe que queria transformar a filha em uma dançarina de boate, onde pudesse fazer striptease. Da platéia, donos de bares perceberam, naquelas encenações, a possibilidade de atrair o público. Precisaria, no entanto, de uma personagem forte, de origem humilde, para arrancar risadas.

Raimunda não poderia ser nome mais popular. Os sobrenomes foram Jereissati e Bezerra. Na época, existiam rixas políticas entre esses dois grupos políticos. Raimundinha ganhou a graça, antes de tudo, da elite de Fortaleza. Nos bares da Aldeota, a personagem se consolidou, depois com as primeiras aparições, ganhou o gosto do povão, do restante do Ceará. Daí, ela virou pop. A personagem começou a vender o Ceará para o Brasil, participando de eventos de turismo. Virou um produto, dentro de um mercado quase consolidado.

Apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, Paulo Diógenes se considera cearense. Veio ainda bebê para cá. Raimundinha é a sua principal personagem. Existem outros: Catita e Josimar. Mas a Raimundinha é o xodó. Diferente da sua personagem, Paulo Diógenes fala de assuntos sérios. Ele acredita que ela, em parte, foi responsável por diminuir o preconceito no Ceará e que representa o protótipo da visão de uma mulher vinda do interior, de uma moradora do subúrbio. (Tiago Coutinho)

Carisma
O sucesso explodiu em 1990, com a campanha eleitoral do Ciro Gomes para governador do Estado. Foi quando a personagem se consolidou, mas ela já tinha toda uma história. Eu montei com o Aristides Neto, o quadro da janela. As comadres comentavam o dia-a-dia do Ceará. O quadro fez tanto sucesso que o programa eleitoral dava Ibope. O povo assistia ao programa até a hora de aparecer o quadro, depois desligava. Aí eu tive a dimensão da Raimundinha. Eu chegava em Sobral e não conseguia nem descer do carro porque não tinha condições. A oposição ainda tentou rebater, dizendo que eu tava desprezando a mulher cearense. Mas eu dei a resposta no horário eleitoral tirando a roupa da Raimundinha e dizendo que eu era um ator. Aquilo era meu trabalho e, por favor, eles deixassem eu trabalhar.

Turismo
Existia uma história de que Fortaleza não havia turismo. Eu comecei a fazer show na Praia do Futuro, nas barracas. Eu fazia show em cima de duas mesas. O turista vinha e ia comer caranguejo na praia. Ninguém ia com o objetivo de assistir ao show de humor, mas quando tinha, os turistas gostavam. Não foi nada programado. Somente quando a história começou a ganhar forma, fui atrás de melhorar o figurino, melhorar a maquiagem. Comecei a pesquisar mais para compor a personagem. Você tem a responsabilidade diante daquelas pessoas que saíram de casa para te ver.

Cearenses
Os programas nacionais, depois de um tempo, começaram a enxergar o Ceará. Aqui não se valoriza o que tem. Como o humor cearense é algo tão diferente, às vezes, fica um pouco marginalizado. Existem algumas injustiças iguais a da Dercy Gonçalves, por exemplo. Aquela mulher morreu marginalizada, mas daqui muitos anos vão perceber a grandeza dela. O humor cearense é realmente diferente. Você chega em São Paulo e existe um outro tipo de humor. Não existe a improvisação. A gente é muito repentista. Eu trouxe algumas pessoas de São Paulo para fazer show aqui nos bares e foi um fracasso. Eles são humoristas de teatro. Eu acho que a maior escola está no bar. O público tá bebendo, tá paquerando e de repente eu tenho que tirar a atenção de todo mundo.

Preconceito I
O perigoso, quando eu comecei a fazer a Raimundinha, era de as pessoas não entenderem que eu era um ator fazendo uma personagem mulher. As pessoas, quando vê alguém vestido de mulher, pensam logo que é uma bicha. Nada contra, mas ali é um ator. A Raimundinha é uma mulher. É uma personagem feminina. Ela conta a vida dela. Mas até que as pessoas entendessem isso demorou muito. Por incrível que pareça, o cearense hoje é menos preconceituoso do que o povo do Sul. Eu acho que as pessoas não sacam a transformação que foi antes e depois da Raimundinha com relação ao preconceito. Eu sinto que daqui alguns anos as pessoas verão melhor essas transformações. Qual o dia em que você está vestido de mulher no meio da rua e vem o senhor com o filho no colo e diz: 'meu filho te adora'? Antes jogaria era uma pedra.

Raimundinha
É muito engraçado. Aqui em casa, a Raimundinha virou um ser humano. Meu filho chega pra mim e diz 'pai, eu vi um brinco que é a cara da Raimundinha'. Às vezes eu escuto histórias que o povo fala que a Raimundinha iria adorar. Aqui em casa tem o quarto só da Raimundinha. Ela começa a ser tratada como um ser humano. Para mim, a grande artista é a Raimundinha. Eu não sou. Quando eu visto a Raimundinha, o Paulo Diógenes deixa de existir. A Raimundinha tem vida própria. Ela tem pensamento, fala, personalidade. Eu, Paulo Diógenes, jamais teria coragem de sentar no colo de alguém da platéia. Quando eu assisto à Raimundinha, eu fico chocado com ela. É outra pessoa. Isso são 23 anos fazendo um personagem. Ela tomou corpo próprio.

Preconceito II
O humor mexe com isso. Quando a personagem fala no show que quem mora no Pirambu é traficante, a Raimundinha conserta depois. Ela diz que isso é preconceito. A lógica é você falar, as pessoas rirem, brincar com o preconceito mesmo e depois você consertar. Você reverte e mostra para as pessoas que elas também são preconceituosas. Não é confirmar. Quem fala que no Pirambu só tem traficante não é nem a Raimundinha. É outra personagem, uma drogada, meio louca. Ela acha isso mesmo. Você espera que ela fale alguma coisa coerente? Nunca. Ela diz coisa que não tem nada a ver. Eu até brinco no show em relação às drogas. Dizendo que eu prefiro andar fedendo do que andar cheirando. Eu não bebo, eu não uso drogas. Eu acho que isso é uma maneira de levar uma mensagem legal para o público.

Público
A Raimundinha cativa as crianças, os idosos. Eu nunca tive a preocupação com que tipo de público eu quero. O que me deixa mais feliz é que se eu vou fazer um show no subúrbio, as pessoas adoram. Se eu me apresento no Ideal Clube, as pessoas adoram do mesmo jeito. Eu não quero nunca me taxar como humorista para os intelectuais. Meu humor é terapêutico. As pessoas estão ali para rir. A platéia tem idade para saber o que elas têm que fazer na vida. Não sou eu quem digo como as pessoas irão viver. Eu não estou ali para dar carão em ninguém.

Grotesco
Eu nunca analisei de fato o humor que eu faço. Eu não sei se é grotesco. Pode ser diferente. A Raimundinha é o cearense que é muito moleque. Não é só a personagem, mas todos nós em geral. A gente tem a capacidade de fazer da pior desgraça a melhor piada. Acontece uma desgraça, no outro dia, já tem uma piada pronta. A gente tem essa facilidade. A personalidade da Raimundinha é de ser uma pessoa ignorante. Aquela mulher que quando vai brigar com o filho, em vez de esperar chegar em casa, ela briga logo no meio da rua. Ela é doméstica. É a visão de uma mulher de interior, uma mulher de subúrbio. Não é grotesco. Toda pessoa ignorante pensa como a Raimundinha. É a pessoa que diz o que pensa e não fica pensando o que dizer.

Projeção Nacional
A essência da Raimundinha permanece. No começo, o humor era muito regional. A piada vinha assim "Quando eu fui no Comercial Clube, fazer compra na Samasa". Os humoristas cearenses tiveram que se adaptar ao turismo. Hoje a gente nacionalizou nosso show. Não adianta vir um cara de fora te assistir e você só apresentar piadas de Fortaleza. Mas eu ainda mantenho muitas coisas da terra. Quando eu chego em São Paulo ou no Rio ninguém tem a preocupação de mudar, por que eu devo mudar? Eu procuro contextualizar. Mas a gente tem que nacionalizar mesmo. A gente já fala muito rápido, cheio de dialetos. Se a gente quiser que o turista entenda, a gente precisa se adaptar. A gente foi se apresentando para os turistas, eles começaram a gostar e começaram a contratar para fora. Hoje, minha agenda tá assim: duas vezes por ano eu vou a Manaus, duas vezes por ano eu vou pro Acre, isso há muito tempo. Tô indo agora para São Paulo.

Fama
Eu nunca quis ficar famoso. Eu quis fazer o que eu gosto. Eu já fui para a Escolinha do Professor Raimundo. Gravei dois programas e pedi para voltar. Eu quero ser feliz da minha maneira. Fazer do jeito que eu gosto. Eu vou agora para uma temporada em São Paulo, vou ficar indo na sexta e voltando na segunda. Eu não vou ficar naquela cidade. Eu não agüento. Quero fazer meu trabalho lá, mas não quero me afastar daqui. Em Fortaleza eu me sinto como se eu fosse o dono da festa. Em São Paulo eu me sinto um penetra. Aqui, eu sou anfitrião. Meu trabalho é como se eu recebesse os turistas. Eu me sinto como se eu fosse relações públicas dessa cidade. Amo isso tudo aqui. Eu me sinto bem. Quando eu tô no avião e enxergo que tô chegando em Fortaleza, eu mudo.

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