Clerton Marins
Especial para O POVO
O psicólogo Clerton Martins apresenta a diferença entre os termos tempo livre, ociosidade e ócio. Embora sempre utilizadas como sinônimas, elas possuem significados distintos
19/07/2008 14:13
No caos entre necessidades econômicas e existenciais, o homem contemporâneo se vê dividido entre as obrigações impostas e o desejo de liberação destas, para usufruir um tempo para si. Nesse mesmo contexto, somos fruto de um processo de educação, que gerou os valores da sociedade atual, que não contempla a orientação para ser/existir num tempo de "nada fazer". Assim, faz-se necessário refletir sobre Ócio e Tempo Livre, para entender suas funções na nova sociedade, elaborada a partir de valores advindos da crítica ao que já elaboramos.
A compreensão do conceito de ócio surge na contemporaneidade com muito impulso, por conta da amplitude que o termo convoca para si, a partir da revisão do que a razão pura e lógica concedeu, observando as novas configurações de realidades. Em nossas observações, no Brasil, os termos Ócio e Tempo Livre são tratados como termos semelhantes. No entanto, não é preciso ir muito longe, para perceber que são termos distintos, que convocam para si âmbitos que merecem, por sua sutileza, atento cuidado.
No caso, o Tempo Livre está carregado dos valores do capital, relacionando-se diretamente com tempo de reposição de energia para o trabalho. Por outro lado, o Ócio refere-se à experiência gratuita, necessária e enriquecedora da natureza humana. Na compreensão geral do senso comum, está, equivocadamente, relacionado com a Ociosidade, que sugere um sentido negativo do ócio.
Desde Aristóteles, filósofos e teóricos ao tentarem precisar a natureza do ócio, o relacionaram à percepção de felicidade e com a vivência de situações e experiências prazerosas e satisfatórias. Para se compreender o ócio, é necessário recuperar algumas informações sobre aspectos relacionados à sua essência: o jogo (lúdico), a festa, a criatividade, a participação voluntária, a satisfação, a felicidade, o autodesenvolvimento, a integração solidária, etc. É também interessante, refletir sobre as possibilidades práticas do ócio na atualidade, nas categorias: cultural, esportiva, recreativa, turística, a partir de suas atuais configurações.
O professor Manuel Cuenca Cabeza, catedrático do Instituto de Estudos do Ócio da Universidade de Deusto, nos diz que "diante do mundo de evasão, distração espetáculo que nos rodeia, o ser humano se torna cada vez mais limitado, cada vez mais dependente das máquinas, menos ator e mais espectador de uma realidade irreal. Falar de ócio então, se transforma, neste contexto, num questionamento de cada um consigo mesmo, de como ser um pouco mais livre para fazer o que se quer. (...) A vivência de ócio é uma experiência que nos ajuda a nos realizar, nos conhecer, nos identificar, nos sentir melhores, sair da rotina, fantasiar e recuperar o equilíbrio das frustrações e desenganos".
Ao estudar o ócio, é comum observar a relação entre este e o fator tempo, o que para a maioria dos estudiosos, é um grande engano. O ócio jamais pode ser identificado com tempo apenas, pois o tempo em si não define uma ação humana. A identificação que se produziu entre ócio e tempo livre é um produto dos estudos da Sociologia difundidos a partir da segunda metade do século XX, sendo este um fator que dificultou sua compreensão, por não incluir a percepção psicológica.
A partir disso, evidencia-se que, apenas com um tempo livre, não se pode falar do que seria uma experiência de ócio. O tempo constitui, sim, uma coordenada vital para qualquer ato humano, a expressão Tempo Livre se torna importante nesta relação, pela palavra livre que sugere relação com o exercício humano de identidade, reconhecimento, auto-reconhecimento, autonomia e vontade.
Compreende-se que Tempo Livre, enquanto conceito originado do capitalismo, se diferencia do Ócio pela existência de condicionamentos que tentam uniformizar padrões para atender ao sistema, a partir de normas, metas e objetivos. O Ócio, por sua vez, se coloca numa outra perspectiva: é anárquico por natureza, não se volta a uma utilidade ou a metas, representa expressão da liberdade e da autonomia que orientam ao bem-estar, qualidade de vida e realização.
É evidente que difundir um conceito tão libertário não interessa a nenhum sistema que se mantém a partir da exploração de recursos humanos. Muito mais útil seria ou é disseminar os valores do ócio como "ociosidade", afinal esta palavra não sugere um ideal de homem digno pois carrega consigo os significados de "vagabundagem", "malandragem", "pai de todos os vícios", etc.
O tempo livre deveria ser aquele aspecto do tempo social, no qual o homem conduz com maior autonomia sua vida pessoal e social. No entanto, este tempo que poderia ser de puro ócio, levado pelos valores do consumismo, termina por ser empobrecido de significado.
O termo Tempo Livre nos remete a muitos equívocos. Por exemplo, ao referir-se ao qualificativo 'livre', pressupõe diretamente uma alusão a um outro tempo de 'não-liberdade', ao qual se opõe. Tempo Livre de quê? Ou para quê? Imediatamente, compreende-se que, no caso, este se oporia ao Tempo de Trabalho e isso se reflete na compreensão negativa de Trabalho.
Pode-se ainda, sugerir outra compreensão. O Tempo Livre não se opõe ao Tempo de Trabalho, uma vez que está intimamente relacionado a este, pois é elaborado a partir da necessidade de reposição de energias física e mental do trabalhador, para logo retomar o Tempo de Trabalho.
O adjetivo livre, no termo em pauta, refere-se à liberação do trabalhador, destinando-se a outras obrigações de ordem fisiológica, social e cultural, além de, em sua maior parte, ao descanso e reposição de energias. Assim, é da liberação do tempo, que devia ser dedicado ao trabalho, que emerge a noção do tempo livre.
Para concluir, observamos que, independente das informações sobre conceitos e suas atualizações, estamos imersos em movimentos atuais como o "slow" e a "simplicidade voluntária", onde as pessoas questionam suas opções e colocam-se em defesa de "um tempo mais tranqüilo" onde possam se inserir mais autonomamente. A centralidade do tempo contemporâneo, ainda no tempo de trabalho, diz de um sujeito menos realizado na busca de um tempo a ser conquistado para a livre expressão, com mais ócio e menos obrigações impostas.
Clerton Martins é psicólogo e professor titular da Universidade de Fortaleza Unifor. Pós-doutor em Estudos do Ócio pela Universidad de Deusto (Pais Basco/Espanha). Doutor em Psicologia pela Universidad de Barcelona (Catalunya/Espanha).