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Neg-ócio?

Marcio Acsilrad
Especial para O POVO

Sem ócio, não existira filosofia, não existiria a arte. Marcio Acselrad faz uma análise bem humorada da importância do ócio. Para ele realizar qualquer negócio seria exatamente negar o ócio


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19/07/2008 14:13


Escrever sobre o ócio? Ai, que preguiça. Será que não dá pra ficar só deitado na rede fazendo nada? O pessoal vai entender a mensagem. Escrever sobre o ócio é, acima de tudo, uma contradição. É trabalhar, e trabalhar é negócio, o exato oposto do ócio. Nada contra o trabalho, vejam bem. O trabalho, diz a ética protestante, enobrece o homem e - completa o humorista - enriquece a mulher. É pelo trabalho, dizia Marx, que o homem se realiza, torna-se o que é. No trabalho o homem se humaniza, transforma a natureza e se transforma a si mesmo. Trabalhar é negociar com os outros homens e com o mundo, transformando objetos em ferramentas e transformando o mundo para se adequar às nossas necessidades, coisa exclusivamente humana.

Mas vadiar, "ociar", é mais humano ainda. Se no trabalho negociamos, dialogamos, comunicamos, nos tornamos seres sociais, no ócio não precisamos fazer concessões. Aqui o diálogo é interno e nos tornamos seres individuais, livres. No trabalho nos relacionamos com o outro (natural, social e cultural) mas no ócio nos relacionamos conosco, tarefa muito mais difícil mas muito mais autêntica. Sem o trabalho, não há arte. Mas sem o ócio não há filosofia.

Neste ponto, o velho Aristóteles é insuperável. De fato, acertou na mosca ao identificar a filosofia ao ócio. Não quer isto dizer que os filósofos sejam vagabundos. Alguns o eram, como o cínico Diógenes, que escarnecia de tudo e de todos e não via sentido algum em escrever ou trabalhar. Outros, como o próprio estagirita, deixaram extensa obra. Dizem até que escrevia segurando uma bola de ferro. Quando se cansava e pegava no sono, a bola caia e com o barulho ele acordava para trabalhar mais. O problema é o sentido de ócio e de trabalho que Aristóteles usa. O ócio aqui significa não fazer nada de útil, nada de prático, nada que se assemelhe a dimensão tradicional do trabalho ou mesmo do lazer. Pois lazer não é ócio. O lazer, principalmente em nossa época, se tornou quase um segundo trabalho.

Parece que temos a obrigação de nos divertirmos, portanto, de preenchermos o dito tempo livre, de preferência através do consumo, que não passa da contrapartida do trabalho. O sistema atual de dominação funciona não tanto pela imposição mas pelo convite, não tanto pela disciplina mas pelo controle. Não se força ninguém a nada, no entanto as conseqüências do não pertencimento são enormes. Disfarçada de autonomia e liberdade, idéias caras ao iluminismo, a sistematização globalizante escamoteia seus verdadeiros fins de controle e submissão. O lazer e o trabalho, o descanso e a obrigação, são igualmente controlados, organizados, preconcebidos. As férias são programadas, pois afinal não podemos "perder tempo".

Não se pense, no entanto, que este processo é meramente casual nem tampouco que seja uma fatalidade inexorável. Nem uma coisa nem outra. Trata-se apenas do destino que o próprio homem traçou, uma rede tecida fio por fio em que acabamos por nos enredar. Esta rede histórica teve vários percalços até que nos víssemos na situação atual em que todo valor se vê reduzido a um só, o de troca; em que um só princípio busca reger as relações humanas, o lucro. O esporte, a cultura, a tecnologia, a religião, a produção, a ciência e, é claro, o lazer, enfim, quase todas as dinâmicas de realização da humanidade se vêem de alguma maneira sufocadas pela voracidade de aumentar o lucro. Não há praticamente nenhuma modalidade de ação hoje em dia que independa deste sistema tornado global e que ameaça também se tornar universal. Depois de ocupar plenamente o presente planetário, tornando-se o modo de produção e de regência dos relacionamentos sociais por excelência, parece querer mais (sempre mais) e caminha para se tornar a única forma possível e imaginável de se conceber o humano e seu mundo, sendo então sinônimo mesmo de troca, de valor, de comunicação. Neste sentido o ócio, mais do que simples "não fazer nada", torna-se espaço de resistência, ferramenta política.

O ócio é o contrário, é aquilo de que precisamos para poder entender o mundo em que vivemos, para podermos nos distanciar do cotidiano e observá-lo com o olhar do estranhamento, da desnaturalização. Sem isto, o próprio mundo do trabalho perde o sentido, torna-se algo mecânico e, portanto, não humano. Sem o ócio o trabalho vira refém do mercado, como se o capitalismo fosse a única maneira possível de se viver. Sem ócio, o trabalho se transforma no seu oposto: ao invés de ser ferramenta de humanização, de produção do mundo humano, social e cultural, torna-se máquina de produção de máquinas, instrumento de reprodução da ordem estabelecida. Um tal tipo de trabalho transforma o homem em coisa, em servo, em nada. O ócio é a prova cabal de que a vida não tem preço, não tem necessidade, não dispõe de uma lógica simples. O fim da vida é gozar, é saber-se viva.


Marcio Acselrad é professor de comunicação da Unifor, coordenador do Labgraça - Laboratório de Estudos do Humor e do Riso e do Cineclube Unifor.


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