Tiago Coutinho
Da Redação
Você tem tempo livre para fazer o que gosta? em meio ao mundo cada vez mais agitado, o Vida & Arte Cultura abre espaço para uma discussão sem muita pressa. Qual a importância do ócio na contemporaneidade? para começar a conversa, o escritor Ignácio Loyola Brandão, a convite do O POVO, interrompeu o seu ócio e enviou esta crônica poética - inédita e exclusiva. nas próximas páginas, mais sobre o prazer de não fazer nada
19/07/2008 14:13
Apressado, o tempo não pára. Ele corre. Segue num ritmo em que, quando menos se percebe, você já se tornou escravo da velocidade. O celular toca direto, o e-mail é acessado várias vezes ao dia, vai buscar filho na escola, corre para dar tempo chegar ao cinema, reza para não se atrasar no trabalho. Só de pensar que amanhã começa uma nova semana, já dá um cansaço. O domingo nem sempre é suficiente para descansar. O Vida & Arte Cultura de hoje é sereno, feito especialmente um dia para não de fazer nada. Deve ser lido sem pressa, deitado numa rede ou sentado em uma cadeira com as pernas esticadas sobre a mesa, acompanhado, quem sabe, de um café passado e fresquinho.
É o ócio que ganha destaque. Ele é o centro das atenções. No entanto, é preciso alguns esclarecimentos. O que significa de fato ócio? Ele é simplesmente o não fazer nada? Sobre o assunto, um dos autores mais conhecidos, é o italiano Domênico de Masi. Seu livro, O Ócio Criativo, tornou-se best-seller na década de 90. Ao pensar sobre o assunto, o autor escreve: "Para os gregos, por exemplo, [o ócio] tinha uma conotação estritamente física: 'trabalho' era tudo aquilo que fazia suar, com exceção do esporte. Quem trabalhava, isto é, suava, ou era um escravo ou era um cidadão de segunda classe". No entanto, em uma sociedade à beira da revolução industrial, a expansão da tecnologia pode levar a uma diminuição do trabalho braçal e propiciar mais criatividade.
Para Ieda Rhoden, professora do curso de Psicologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), do Rio Grande do Sul, o ócio é antes de tudo uma instância subjetiva. Ela acredita que vivemos hoje em um mundo resignado, sem auto-crítica, habituado a um ritmo de velocidade em que não dá muito tempo para pensar. "Até nas escolas, as crianças vivem num regime apressado, tudo muito cronometrado. Até as brincadeiras têm hora certa", afirma. Mais do que não fazer nada, para ela, o ócio deve trazer uma percepção de realidade, uma sensação e sentimento de desfrute, próximo do prazer.
Do ponto de vista do indivíduo, o ócio, para Rhoden, deve ser pensado como uma questão de auto-conhecimento e auto-determinação. São questões de escolhas. Existem, porém, alguns prazeres e lazeres que são destrutivos e, portanto, não podem ser considerados ócios. "Uma vivência com o prazer da droga, da substância química, por exemplo, ela agrega para o crescimento da pessoa, pode até dar sentimento de liberdade. Mas a dependência suprime a liberdade", explica.
O ócio portanto pode ser pensado com uma a equação composta por escolhas, prazeres, liberdades, descansos. Tudo feito de forma independente, onde centra a atenção e pensamento em si. Existiria coisa melhor? Ora, se o ócio é tudo isso junto, por que então não nos damos o prazer de desfrutar do ócio de vez em quando? Fica a pergunta para se desfrutar no dia de hoje.
O ócio é essencial ao ser humano.
Mas o homem é um tolo e acredita no trabalho, na força do trabalho, no enobrecimento que o trabalho traz.
Por isso, o homem inventou o computador, o celular e carros cada vez mais velozes. E o learjet, o helicóptero, e etc. Para correr, correr, correr e fazer reuniões, reuniões.
Com o celular e o computador, com os laptops e notebooks, a humanidade está trabalhando como desgraçada cada vez mais.
Veja nos aeroportos o número de executivos falando ao celular.
Veja o desespero deles quando precisam desligar o telefone no avião. Ficam nervosos, tremem, soluçam, sentem-se desligados do mundo, da terra.
Sem celular e computador um homem fica impotente.
Um homem ocioso, em lugar de ser considerado um sábio, é visto como marginal, outsider, deslocado, um pária da sociedade, um elemento que não interessa ao capitalismo vigente.
Preconceitos.
Porque a maior delícia do mundo é o ócio, o não fazer nada, o saber que os outros estão fazendo e você não, você não participa dessa loucura geral que tem provocado úlceras, infartos, câncer, angústias, ansiedades, carradas de toneladas de Prozac.
Quem vive no ócio dispensa o Prozac.
Por acaso as toneladas de antidepressivos são gratuitas?
Não!
E mais não escrevo, nem digo, porque vou estragar
meu ócio interrompido.
Ignácio de Loyola Brandão é autor do romance Zero (1975) e do livro de contos O homem que odiava segunda-feira (1999), entre outros
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