Cidade Queimada de Sol, do cearense Antônio Bandeira, foi a obra escolhida para ilustrar a capa do Anuário do Ceará 2008-2009. A publicação será lançada segunda-feira
19/07/2008 00:12

A Fortaleza do artista plástico Antônio Bandeira é luminosa, híbrida, movimentada e, acima de tudo, moderna. Esse mesmo espírito está presente no Ceará registrado pelo Anuário do Ceará 2008-2009. Cidade queimada de sol (1959) foi a obra escolhida para ilustrar a capa da publicação que tem lançamento na próxima segunda-feira (21). É a primeira vez que uma pintura abstrata ganha o espaço desde a nova fase do projeto, iniciada em 2004. Nela, o artista cearense traduz seu amor pela capital em pinceladas ágeis e de cores fortes.
"Essa é uma obra que representa profundamente o Ceará e reforça bastante uma imagem dele como estado moderno", afirma o também artista plástico Roberto Galvão, autor do livro Uma visão da arte no Ceará (Ed. Galeria Ignez Fiúza, 1987) e diretor de ação cultural do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Antes de Bandeira, a capa do Anuário já havia sido estampada por outros grandes nomes da história da arte cearense, como Vicente Leite (2004), Aldemir Martins (2005), Raimundo Cela (2006) e Chico da Silva (2007-2008).
"Quando retomamos o projeto em 2004, pensamos na possibilidade de um concurso para a capa. Queríamos algo que tivesse uma ligação forte com o Ceará e surgiu a idéia de pegar alguns clássicos da arte cearense. Nosso desejo era de mostrar um Estado grande, importante e que soube se pensar não só na economia e na política, mas também na arte", afirma o editor-geral do Anuário, Fábio Campos. A escolha de Antônio Bandeira para esta edição passa por uma efeméride: o ano de 2008 é marcado pelos 40 anos de morte do artista. A data foi lembrada recentemente em uma exposição fotográfica no Museu de Arte da Universidade Federal (Mauc), que detém um acervo de 40 obras dele, entre as quais se destaca Cidade Queimada do Sol.
Para Francisco Bandeira, sobrinho do artista, a tela em questão imbrica-se com a poesia homônima escrita também pelo tio. "Ele se inspirou muito no cotidiano de Fortaleza. Se inspirou também nas centelhas da fundição do meu avô, nessa explosão de cores, de luminosidade. Nós, da família, estamos muito contentes com essa homenagem. O Anuário vai circular em gabinetes de políticos, de empresários e em escolas e, assim, a obra do Bandeira vai poder ser mais vista e conhecida", afirma o sobrinho.
Antônio Bandeira nasceu em Fortaleza em 1922. O talento para as artes foi descoberto ainda na escola por uma de suas professoras. Aos 19 anos, ele já trabalhava com Barrica e Mário Barata, tendo sido um dos fundadores da Sociedade Cearense de Artes Plásticas (Scap). Em 45, já no Rio de Janeiro, ele realizou a primeira exposição individual e conquistou uma bolsa para estudar na Escola Nacional Superior de Belas Artes, na França. Daí até a morte prematura, em 1968, ele permaneceu indo e voltando da Europa para o Brasil. Suas pinturas o transformaram em um ícone do abstracionismo e sua arte resvala também para poesias e desenhos, entre outras manifestações.
SERVIÇO
Anuário do Ceará 2008-2009 - Lançamento (apenas para convidados) no dia 21 de julho (segunda-feira), no La Maison Dunas, às 20 horas.
O QUE É O ANUÁRIO?
A origem do Anuário data de 1841, quando foi iniciado por Joaquim Mendes da Cruz Guimarães sob o nome de Almanach do Ceará. A partir da década de 1960, a responsabilidade da publicação passou para os jornalistas Lustosa da Costa e Dorian Sampaio. Em 2002, O POVO se responsabilizou pela edição, publicando uma revista que, dois anos depois, daria origem ao formato feito hoje.
O Anuário do Ceará se consolidou como uma das principais fontes de dados sobre o Estado. A edição 2008-2009 traz 752 páginas de informações econômicas, políticas, sociais e culturais do Ceará. O formato gráfico facilita as consultas e apresenta, além de textos, mapas, tabelas, fotos e ilustrações, ajudando a traçar um panorama do Estado.
CAPAS ANTERIORES
2004
VICENTE LEITE (1900-1941)
Obra não creditada. Acervo particular.
O artista nasceu no Crato e estudou Belas Artes no Rio de Janeiro. Seu trabalho seguia a linha impressionista e o levou a representar o Ceará no Salão de Rosário, na Argentina, em 1929, e no Salão de Arte Contemporânea do Hemisfério Ocidental, nos Estados Unidos, em 1941, ano em que morreu prematuramente.
2005
ALDEMIR MARTINS (1922-2006)
Cangaceiro, 1977/1978. Acrílico sobre tela do acervo do Museu de Arte da UFC (Mauc).
O desenhista, gravador e pintor nasceu em Ingazeira, no Cariri. Foi um dos fundadores do Grupo Scap, que reuniu os artistas modernistas cearenses. Em 1946, fincou morada em São Paulo. Entre outros prêmios, venceu o concurso de melhor desenho da Bienal de Veneza de 1956. Suas pinturas são caracterizadas por uma intensa dramaticidade e destacam imagens nordestinas, como cangaceiros e rendeiras, e também frutas e animais, principalmente gatos.
2006
RAIMUNDO CELA (1890-1954)
Jangadeiros em palestra, 1943. Óleo sobre madeira do acervo do Banco do Nordeste do Brasil.
Natural de Sobral, o gravador e pintor dividiu o fazer artístico com o ofício de engenheiro. Estudou no Rio de Janeiro e, por lá, foi influenciado pelo academicismo. Morador de Camocim, teve sua obra influenciada pela imagem de pescadores e de tipos populares, empregando em suas telas a força, o movimento e a luminosidade da paisagem nordestina.
2007-2008
CHICO DA SILVA (1922-1985)
Sereia e dragões, 1959. Óleo sobre cartão do acervo do Museu de Arte da UFC (Mauc).
Saiu do Acre, onde nasceu, para se fazer artista no bairro Pirambu, em Fortaleza. Começou a desenhar a carvão e a giz sobre muros e paredes da região, sendo descoberto pelo crítico suíço Jean Pierre Chabloz, que o incentivou a pintar em guache e o projetou nacionalmente. Sua arte é identificada com o universo naãf. São famosos seus quadros ilustrados por pavões.
POESIA
CIDADE QUEIMADA DE SOL
Bom dia
Fortaleza
te ofereço
esse carinho de viajor
do filho
que não sabe
se vem ou se vai
o que olha e medita
indo e voltando
à sua cidade
envelhecendo e remoçando
com ela (ela és tu)
Fortaleza
te ofereço
esse carinho de gente
(porque é gente a que
nasce de teu ventre)
de corpo e alma também
ofereço
cadinho de ferro e bronze
(uma lembrança de meu pai)
cadinho de corpo e alma
esse cadinho de raças
Fortaleza
Antônio Bandeira
1961