Rute de Alencar
da redação
Sofrimento e sexualidade. Os temas das esculturas, pinturas e desenhos de Francisco Brennand revelam a universalidade do artista plástico e de sua obra. Tudo isso compõe a exposição Brennand: Uma Introdução, que será aberta ao público amanhã, no Museu de Arte Contemporânea. Em entrevista ao O POVO Brennand fala da procura pelo sentido da existência
07/07/2008 00:40

Alguns quadros parecem dialogar. A mulher nos olha fundo, um olhar lascivo, e de sua boca é quase possível escutar uma evocação. Parece querer atrair um homem de qualquer jeito. É chamada de A Viúva. Os seios desnudos provocam e deixam à mostra a carência daquela mulher. Exposto logo na sala de entrada, é posto ao lado de um anjo, que nada tem de singelo. As tintas espelham uma criança deformada e de ar sombrio. Logo em frente está a escultura O Ídolo, uma águia bicéfala de 140 quilos. Cada bico aponta para uma das direções que o visitante pode tomar. Em Brennand: Uma Introdução, cinco salas, com a de entrada, podem ser percorridas e um pequeno mundo deve ser desvendado.
Se os quadros dialogam, as esculturas falam, choram, derramam pequenos rios de sangue e expressam mais do que sentimentos. O sofrimento e a dor suplantam as obras e atingem quem pára para observá-las. São universais e eruditas. Na exposição, deparamo-nos apenas com uma mostra, pequena diante do universo Brennand. 33 esculturas, 17 pinturas e nove desenhos escolhidos entre mais de 2600 peças. Apesar da grandiosidade, a seleção não foi difícil, revela o curador da exposição, Olívio Tavares de Araújo. "Como já fiz várias exposições eu já conheço bem, então rapidamente vem a idéia. Escolho as peças mais representativas e que esclarecem a compreensão da obra", explica.
O habitat do material exposto no Museu de Arte Contemporânea é a Oficina Brennand, localizada a vinte quilômetros do centro do Recife, Pernambuco. O lugar é suntuoso, uma espécie de museu gigante, a maior parte a céu aberto. As esculturas ficam espalhadas por galpões e jardins. Lá também funciona uma indústria de cerâmica, que produz em larga escala revestimentos de piso e de parede, além de objetos decorativos. A exposição traz um pouco desse universo para Fortaleza, pela primeira vez. "É uma primeira visita ao mundo desse artista vigoroso e original, cuja obra é bem menos conhecida que seu nome", destaca Olívio Tavares.
E nesse fragmento, encontramos os elementos fundamentais de Brennand: sexualidade, mulheres e dramaticidade. Na sala de história universal, esculturas de cerâmica retratam personagens da história antiga e da européia, como Maria Antonieta, Joana D'Arc e Carlota Corday, quase todas associadas a acontecimentos terríveis e sangrentos. Na sala da mitologia, Antígona, de Sófocles, e Ophelia, de Shakespeare, estão entre as "degoladas". A sexualidade é descoberta em outra sala: falos, vaginas, amantes acorrentados e aparafusados. Esculturas que expõem uma sexualidade do sacrifício, e não do erotismo e do prazer. Uma outra sala é dedicada exclusivamente às pinturas e aos desenhos de Brennand. É lá onde estão, inclusive, seis quadros datados de antes de 1960, época em que Brennand desenvolvia temas ligados à identidade nacional.
Todavia, o curador faz questão de destacar que a maioria das peças da exposição, e da própria obra de Brennand, é ligada a temas universais. "Por um equívoco terrível da história da arte brasileira, sempre se falou muito de Brennand como um artista ligado à brasilidade. Isso é errado! Na década de 60 sim. Mas de 70 em diante isso perde a importância. As obras ganham universalidade", esclarece.
Apesar de a obra de Brennand já ter transitado pelo Brasil inteiro e por países como Portugal e Estados Unidos, a exposição que veio para Fortaleza é inédita. De acordo com o curador Olívio Tavares, "95% das peças já fizeram parte de outras exposições, mas é a primeira vez que uma exposição inclui pintura, desenho e escultura de Brennand".
Serviço:
Abertura da exposição Brennand: Uma Introdução: amanhã, 8, às 19 horas, no Museu de Arte Contemporânea (MAC), no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Horários de visitação: de terça a domingo, das 14h às 21h (acesso até às 20h30). O acesso é gratuito. Informações: 3488-8624.
Saiba mais sobre Brennand em http://www.brennand.com.br/.
ENTREVISTA
Em 37 anos de exercício diário da arte, o artista plástico Francisco Brennand já esculpiu pelo menos 1700 peças de cerâmica. Enormes, pesadas e frágeis ao mesmo tempo. Mas o interesse do artista pela arte não começou com a escultura, e sim com a pintura. A década de 1970 marca a grande virada em sua trajetória, quando passar a dedicar-se, preferencialmente, à escultura moldada em argila.
Descendente de ingleses, Brennand nasceu em Recife em 1927. Premiado, aclamado e reconhecido pelo mundo inteiro coleciona prêmios em sua carreira. Um deles, o Prêmio Interamericano de Cultura Gabriela Mistral, foi conferido, em 1993, pela Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington.
Em entrevista ao O POVO por telefone, na última sexta-feira, Brennand revelou um pouco da sua trajetória, falou dos temas recorrentes em suas peças, da sua procura "desesperada" pelo sentido da existência e contou o que espera para a primeira exposição em Fortaleza.
O POVO - Como surgiu o interesse pelas esculturas em cerâmica?
Brennand - Eu me formei e toda a minha atividade artística foi com pintura. Os prêmios que ganhei foram com pintura, óleo em tela. Em 1947, eu ganhei o primeiro prêmio, eu tinha 20 anos. Daí em diante eu fui estudar pintura. Daí eu descobri que Picasso já estudava cerâmica. Eu continuei a estudar pintura na Europa. Quando voltei passei a fazer murais e só tardiamente centrei nas esculturas nos anos 70 e a minha obra escultural tem 37 anos.
OP - Um dos temas recorrentes, principalmente nas esculturas, é a sexualidade... Pode-se dizer que sua obra tem algo de erótico?
Brennand - Elas têm como base a reprodução, um dos elementos mais enigmáticos da nossa existência. As coisas são eternas porque se reproduzem. Daí porque a maior parte das minhas esculturas carregam uma pesada carga sexual que nada tem a ver com erotismo. Não é que eu procure forçar a barra com elementos eróticos. Isso o mundo é especialista com revistas, filmes.... Muito pelo contrário. Há uma certa selvageria nessa parte sexual, uma espécie de carnificina como se fosse um parto. É o enigma da nossa sexualidade. Daí porque as pessoas confundem. Na verdade, rotular é fácil o difícil é se desvencilhar desse rótulo. As pessoas começaram a ver o que não existia. Não foi minha culpa eu ter abordado temas que são comuns na cultura arcaica e primitiva. Essa foi a minha intenção. Uma espécie de olhar arcaico de retorno aos arcaísmos. Nenhuma intenção de erotismo. Se eu tivesse essa intenção eu estava fazendo outra coisa. Minha arte era mais realismo. Uma mulher bonita correria diante das minhas esculturas.
OP - Dramaticidade, sangue, e muitas mulheres, sejam elas conhecidas, como Joana D'Arc e Maria Antonieta, ou não. Tudo isso é muito presente em sua obra. Por que as mulheres recebem essa atenção especial?
Brennand - Quando eu comecei a estudar a mitologia grega eu procurei de fato algumas figuras que eram, ou melhor, procurei mulheres desafortunadas. A maior parte delas tinha uma história trágica. Mas essa história trágica persiste hoje nos jornais como se fossem os mesmos mitos. O homem é um passageiro. A mulher se firma num lugar porque ela é a matriz tem que dar a luz. A mulher é presa fácil do infortúnio. Elas são mais autênticas, e por isso elas pagam. Por mais que elas queiram fugir e competir com o homem, a natureza dela é ligada à terra. E é impossível fugir de uma imposição da natureza. O que eu faço não é nada novo. Está ligado a uma série de artistas que optaram por elementos arcaicos. A começar por Paul Gauguin, um dos fundadores da arte moderna. E ele já propugnava pelos arcaísmos. Ele foi à procura da barbárie.
OP - Como o senhor auto-define sua obra?
Brennand - Eu definiria como uma procura desesperada do sentido da existência. De uma certa maneira é a inquietação de todas as criaturas. Os artistas exageram essa inquietação para que os outros sintam e interpretem o que o outro está falando por ele. O artista não é acima da criatura humana. Ele está no nível de todas as criaturas. O dom artístico é uma capacidade de demonstrá-la com a aquiescência dos outros que estão ansiosos por desvendá-lo. Eu suponho que seja isso. Nós somos o mesmo homem primitivo, haja vista, agora na entrada do milênio, onde se prometia mundos e fundos de felicidade, o drama que estamos vivendo, guerras, falta de alimentos, violência, etc. Cabe ao artista denunciar isso. É preciso se pensar na sobrevivência da criatura humana, diante de todas essas dificuldades que nós estamos vivendo e atravessando.
OP - O senhor costuma dizer que é antes de tudo um desenhista. As obras surgem sempre a partir do desenho?
Brennand - Eu costumo dizer que todos os pintores são antes de mais nada desenhistas. O desenho é a base, é a estrutura, o esqueleto da pintura. É em cima da estrutura do desenho que a pintura é confirmada pela cor. É possível até que a pintura estrague o desenho ou vice-versa. Captar a natureza é feito com esforço e talento, mas você tem que coincidir com isso. Você não é obrigado a copiar a natureza. Isso seria impossível. Você pode pintar ao barco, a vela... o que você não pode pintar é o vento. No entanto você transmite a sensação de que o barco move-se. A arte é um simulacro. Encontrar uma semelhança com as leis na natureza. A natureza não se deixa copiar. O que nós aprendemos é ouvindo os outros artistas. Nós começamos a ver o mundo através do que os outros artistas demonstraram. É realmente extraordinário que homens primitivos, que, mesmo necessitando caçar pra sobreviver, pintaram as paredes de pedra. E é esse mesmo sentimento que persiste. Apesar de toda modernidade, fotografia, cinema, televisão, o homem não deixa de usar a mão. A manufatura, o feito à mão, como um milagre. Enquanto o homem sobreviver ele estará realizando alguma coisa com suas próprias mãos. E é isso que caracteriza a criatura humana. Dizer que o livro vai desaparecer é conversa fiada. O livro é necessário ao homem e essa intimidade com o que está escrito no livro não é a intimidade com o computador.
OP - O desenho então também é a base da sua escultura?
Brennand - Claro que sim. Veja a quantidade enorme de desenhos de Michelangelo para chegar às esculturas que ele fazia. É através do desenho que você vai captar a forma no seu primeiro momento. Ninguém pode começar do nada. Tudo na vida a gente aprende.
OP - O senhor já expôs sua arte em diversas cidades brasileiras e em muitos países. Pela primeira vez vai expor em Fortaleza. O que espera para essa exposição? É possível conhecer a obra de Brennand com a exposição?
Brennand - Vou ficar satisfeitíssimo de ir à Fortaleza, de conviver com vocês. A expectativa é ótima. Inclusive eu tenho um funcionário meu que está ai dizendo que está excelente a arrumação da exposição e vai ficar uma beleza. Em relação a conhecer a obra, essa exposição pode despertar o interesse das pessoas. Ontem vieram aqui alguns estudantes e ficaram satisfeitíssimos quando souberam que eu ia expor em Fortaleza. Tudo é a necessidade de uma vez visto. Aqueles que são mais curiosos vão ter o interesse despertado. Isso não quer dizer que vá ser um sucesso como uma festa popular ou um cantor popular. A natureza da emoção não é igual a um festejo popular que é muito mais lúdico, que é muito ligado a sentimentos primitivos de alegria, de sensualidade, de instintos. Não é desprezível que uma festa popular desperte mais interesse que uma exposição de pintura. Mas há um mundo que é sensível ao universo da pintura e das artes. Então é absolutamente impossível você conseguir uma unanimidade, aí não seria arte. Já é arte porque é difícil de fazer e de compreender. Como muito difícil é compreender a vida e a morte. E os seus desígnios.
OP - A Oficina Brennand surge em 1971 nas ruínas de uma olaria do início do século XX, antiga fábrica de tijolos e telhas herdada de seu pai, como materialização de um projeto seu. Por que retomar esse espaço e o que ele representa hoje?
Brennand - Em primeiro lugar, você sabe que o meu pai foi um pioneiro industrializando o barro. Os tijolos e telha eram feitos manualmente. Ele começou a fazer telhas de tijolos com máquinas em termos de uma estrutura industrial em 1917. A fábrica foi bem sucedida e funcionou até 1950. Por razões empresariais (...) ela foi ficando esquecida e foi desativada. Passou um pouco mais de 10 anos de abandono e entrou em ruínas. E em novembro de 1971 eu resolvi reconstruir. Estou aqui há 37 anos e fiz desse local meu ateliê, minha oficina de trabalho. É um trabalho em progressão. Não é nada que esteja pronto. Um grande pintor francês dizia que não existe quadro acabado e sim quadro abandonado. Eu aproveitei esses imensos galpões. E não existe grande originalidade nisso, porque na Europa já estavam aproveitando até moinhos, que foram transformados em espaços culturais. Eu não fiz mais do que confirmar essa arqueologia industrial no Brasil. Aqui eu fiz meu ateliê e povoei de esculturas. São 1700 esculturas.
E-Mais
Exposições, Brennand já fez em todo o Brasil e vários países do mundo. Em 1993, a convite da Staatliche Kunsthalle, Brennand realiza em Berlim sua primeira retrospectiva. Em 1998, a exposição é na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Em 1999, no Teatro Nacional, em Brasília, em 2000, na Casa França-Brasil, no Rio de Janeiro, e no Centro Cultural Palácio Rio Negro, em Manaus. Seguem-se grandes mostras em Portugal e no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba (2004). Em 2008, realizou-se em São Paulo uma exposição dedicada apenas a seus desenhos.