Tiago Coutinho
Da Redação
Há 10 dias, O POVO trouxe com exclusividade a notícia da instalação de 250 câmeras que seriam implantadas nas ruas de Fortaleza pelo governo do estado do Ceará. O objetivo é torná-la mais segura. O Vida & Arte Cultura de hoje discute a sociedade vigiada e observa a cidade por trás das câmeras
28/06/2008 14:58

Cena 1: Cruzamento da rua Bezerra de Menezes com Padre Anchieta. Cerca de cinco ou seis jovens munidos de rodo e balde, se aproximam dos carros parados no sinal. Tentam limpar o vidro. São quatro horas da tarde. Da Borges de Melo, um policial militar monitora a cena. Por meio de um controle remoto, ele aproxima dos garotos a câmera instalada entre as duas vias. Observa-os por vários ângulos. Por telefone aciona uma viatura da Coordenação Integrada de Operações Policiais (Ciops) para o local. Motivo: "comportamento suspeito no local".
Cena 2: Arredores do Mercado São Sebastião. O comerciante Francisco Queiroz, 60, divide a atenção entre passar o troco e a televisão de 14 polegadas. Em vez de algum programa de entretenimento, ele assiste ao seu próprio negócio. No botão abaixo do caixa, ele controla as quatro câmeras espalhadas por sua mercearia. Implantadas há três anos, ele garante que desde a aquisição do produto de vigilância, houve a redução de 50% dos furtos. A câmera não grava nada. "Só grava no fim de semana, porque o movimento é maior aí precisa. Mas inibe mesmo. Quando eu vejo alguém mexendo nas coisas, só olhando os produtos sem colocar na sacola, eu já suspeito. Aí presto mais atenção. Geralmente acerto. Eu pego a mercadoria de volta e peço pra pessoa sair".
As duas situações foram observadas na última semana pelo O POVO. Na terça-feira O POVO esteve no Controle de Tráfego em Área de Fortaleza (Ctafor) para observar a cidade por meio de suas 34 câmeras em atividade. Elas servem principalmente para o controle de trânsito das vias mais congestionadas, mas há aproximadamente um ano e meio, de acordo com Marcus Vinícius Oliveira, chefe de divisão do Ctafor, as câmeras passaram também a ser utilizadas como mecanismo de segurança, e o departamento de controle do Ctafor passou a contar com a presença diária de um policial militar.
As câmeras são controladas por 21 monitores e revezadas em uma média de 30 a 40 segundos. Os funcionários terceirizados não estão autorizados a conversar com a imprensa. A nitidez da imagem reproduzida por elas é excelente. O zoom óptico permite uma aproximação de até 22 vezes, sete vezes mais do que uma câmera digital caseira. O equipamento ainda permite angulações de 360 graus. Marcus Vinícius garante que existe todo um preparo e cuidado para respeitar a intimidade dos cidadãos que estão no espaço público. No entanto, a Polícia Militar possui a liberdade de observar e informar "movimentações suspeitas".
Os olhos da cidade estão onde você menos espera. O comerciante Francisco Queiroz reveza o olhar algumas vezes com a sua esposa, para observar o funcionamento do mercantil. Como apenas nos fins de semana as cenas são gravadas, se ele cochilar, já era. Pode deixar ileso algum furto no local. O mesmo não pode acontecer no Ctafor.
Caso algo de grave ocorra enquanto ninguém esteja atento às câmeras, há um prazo de seis a oito dias para procurar as imagens que ficam guardadas em arquivos digitais. Após esse prazo, elas são apagadas. Como medida de segurança pública o Governo do Estado, de acordo com a assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), pretende instalar 250 câmeras semelhantes às do Ctafor por toda a cidade. As 70 primeiras câmeras deverão estar funcionando a partir de outubro.
O Vida & Arte Cultura deste domingo está discutindo o tema vigilância e segurança. Quais são os rumos de uma sociedade que busca a máxima proteção? Como fica a convivência nos espaços públicos quando se sabe estar sendo sendo monitorado e vigiado por câmeras? Até que ponto as câmeras impõem uma idéia de segurança?
Para debater o tema, o Vida & Arte Cultura dá voz a estudiosos ao mesmo tempo em que transitou por lugares onde há sistemas de seguranças com câmeras. A estudiosa Sônia Taddei comenta sobre a arquitetura da violência contemporânea. O fotógrafo André Gardenberg apresenta flashes de sua exposição intitulada Arquitetura do Medo. A psicóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Fernanda Bruno, em entrevista, reflete sobre as tensões entre o público e o privado na sociedade da imagem. O sociólogo Luíz Fábio Paiva faz uma análise sobre as políticas de segurança do atual Governo do Estado.
E-MAIS
Além das 34 câmeras de Ctafor, existem em Fortaleza quatro equipamentos eletrônicos, situados na avenida Beira Mar que monitoram a avenida 24 horas por dia, desde 1999. Elas são controladas pela Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops).
A princípio nao seria contra a implantação de câmeras de monitoramento. O que entendo e devo ressaltar é que tudo isto é resultado de uma sociedade totalmente desestibilizada em razão de uma política pública adotada há aproximadamente trinta anos, que sucateou o ensino público, a saúde pública e criou mecanismos que dão ao homem uma condição de súdito, ficando a mercê de favores e diminuindo sua capacidade de pensar e produzir. O exemplo mais claro da nossa atualidade é a tal da "bolaa família" que dá e nada recebe em contra partida aos gastos públicos desembolsados. Agora, só resta ao governante, combater de baixo para cima a criminalidade que ele próprio deixou acontecer.
FRANCISCO DE ASSIS FRANCO OLIVEIRA PINHEIRO