Vida & Arte
BLUES
Ele é o cara
A idade é pouca, mas o talento sobra. Aos 22 anos, o guitarrista Artur Menezes se firma como grande nome do blues do Ceará e é atração hoje no CCBNB e no Café Teatro das Marias
Alinne Rodrigues
Especial para O POVO
14 Jun 2008 - 00h19min
Este mês, o Centro Cultural Banco do Nordeste está promovendo a I Mostra BNB do Blues. Das 22 bandas escaladas, cinco delas trazem Artur Menezes na formação: Blues Label, ExperiHendrix Trio, De Blues em Quando, Zeppelin Blues e Artur Menezes e os Caras, esta última sua formação mais autoral que se apresenta hoje às 14h30 no CCBN (Centro) em apresentação gratuita. À noite, o trio bisa a apresentação no projeto Casa do Blues, do Café Teatro das Marias (Praia de Iracema), às 22 horas.
O rock que saía da vitrola do irmão mais velho chegou aos ouvidos de Artur ainda aos 3 anos. A MPB que a mãe Lúcia Menezes cantava dividia as atenções do menino, que cresceu nesse ambiente musical. Na primeira vez que se arriscou na guitarra tinha 11 anos, e o instrumento, uma corda só. Com um livrinho emprestado de um amigo, ele tocou Asa Branca - e gostou. Dali começaram os pedidos em casa: um violão, os princípios básicos no curso do colégio (que largou pouco tempo depois) e a primeira guitarra.
"Eu tinha um amplificador muito 'peba', que pegava uma interferência de rádio. Eu morava perto da rádio Universitária, e, um dia, tava passando o Encontro com o Blues. Eu fiquei achando aquelas músicas legais e até liguei pro programa", conta o jovem músico, rememorando o momento de primeiro contato com o blues. Estudando em casa e aprendendo sozinho, Artur Menezes passou a integrar a Blues Label, quando tinha apenas 14 anos. "Tocava porque gostava de tocar, era bom", conta.
Mas foi em 2006 que ele deu um grande passo em direção à carreira musical profissional: foi para Chicago "estudar inglês". O estudo, Artur confessa que foi um pretexto para conhecer a cidade que respira blues. "Era um investimento grande, e o pessoal da família não me dava muita corda, não", lembra. Logo na primeira noite foi para o Kingston Mines, um grande bar de blues, e pediu para tocar ("coisa que não gosto de fazer, mas ninguém me conhecia, eu tinha que dizer que tocava", diz). Ao descer do palco, ganhou o VIP pass, entrada gratuita para todas as noites do local.
Voltou à cidade em 2007, e lá tocou no Chicago Blues e em tantos outros bares, sempre ao lado de bluesmen nativos. Charlie Love, John Primer e Shirley King, filha do mestre B.B. King. "Os coroas me chamavam mesmo e me tratavam de igual pra igual. Se eu tivesse continuado lá, daria pra viver de blues. Mas eu não quero, gosto da cultura daqui", recorda. A fama do menino brasileiro se alastrou na cidade americana, e até Big Time Sarah, quando veio se apresentar em Guaramiranga, fez questão de convidá-lo para subir ao palco e tocar uma música. Das temporadas nos Estados Unidos, ele guarda a participação no grupo local The Shakes, com a qual fez vários shows e gravou um total de três CDs ao vivo.
Hoje, o principal projeto de Artur é a banda Artur Menezes & Os Caras, de blues, como não poderia deixar de ser. O trio, formado também pelo baixo de Lucas Ribeiro e a bateria de Wladimir Catunda, tem ganhado a fama de experimentar no estilo, isso porque o único blueseiro é Artur. Wladimir é jazzista, e Lucas tem uma influência maior da música brasileira. "O show tem nuances, ora fica meio jazz, ora meio baião, música brasileira. São vários gostos musicais combinados em prol de um estilo só que é o blues", explica o guitar hero.
O EP, homônimo, tem quatro faixas e teve a primeira tiragem esgotada, com quase 200 cópias vendidas. No palco, além das músicas próprias, rolam covers de Stevie Ray Vaughan, um dos grandes ídolos de Artur, Jimi Hendrix, George Benson, Albert King... Tudo sempre tocado com muita animação - esse tipo de show de blues, mais dinâmico, ele viu em Chicago, onde, segundo ele, as pessoas não ficam só sentadas assistindo às performances dos virtuoses, mas também dançam, cantam, enlouquecem. "Quem gosta de blues sai satisfeito, e quem gosta de farra também", desafia.
Diante das comparações com SRV, ele é categórico: "escuto desde os 11 anos, sou muito fã e não tem como eu tocar e não sair algo parecido, é intrínseco, involuntário, não tem como. Não dizem que 'nada se cria, tudo se copia'? Pois a gente copia, mas dá uma nova roupagem. Stevie Ray Vaughan pegou Hendrix e Albert King para criar o dele, é natural. Comigo é a mesma coisa: misturo tudo pra ficar do meu jeito".
Apesar de ser "o cara", Artur Menezes não se considera um bluesman ainda. "Um bluesboy", brinca. E completa: "é complicado tocar blues aqui, não é nossa cultura. No blues não é só pegar a guitarra e tocar, tem que transmitir um sentimento, ter presença de palco, ser moleque. Mesmo assim, é como botar um gringo pra tocar samba. O carioca tem ginga, assim como o americano. A gente nunca vai soar como eles, e isso é muito bom. A gente aqui do Ceará tem o 'baiãozão' de Luis Gonzaga na cabeça, e, pra mim, ele foi o maior bluesman que existiu na face da terra. Mas ainda tenho muita coisa pra aprender".
SERVIÇO
Artur Menezes & Os Caras - Hoje, em duas sessões. No Centro Cultural Banco do Nordeste (rua Floriano Peixoto, 941 - Centro), na I Mostra BNB do Blues, às 14h30min. Grátis. Outras informações: 3464 3108. No Café Teatro das Marias (rua Senador Almino, 233 - Praia de Iracema), projeto Casa do Blues, a partir das 22 horas. Couvert artístico: R$6. Outras informações: 8818 0805.
(!) E-Mais
Ouça Artur Menezes & Os Caras no MySpace: http://www.myspace.com/arturmenezes
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