Vida & Arte
EXPOSIÇÃO
Sonho & vida
Performances, interferências urbanas e instalações fazem parte do trabalho de Waléria Américo. O ateliê é mais para planejar, porque para realizar suas obras de arte, ela precisa mesmo é do lá fora
Lúcia Helena Galvão
especial para O POVO
11 Jun 2008 - 00h22min
As palavras "vida e sonho" saltam na entrada do ateliê, no bairro de Fátima. Ela adaptou uma das dependências do apartamento que divide com duas amigas. Um apartamentão para os padrões atuais de moradia. Tem três quartos, sala ampla, varanda, cozinha de verdade, área de serviço e dependências de empregada. É nesse quartinho, iluminado e arejado, com vista para quintais e telhados, que ela inicia e conclui o seu trabalho.
Waléria Américo faz arte contemporânea. São performances, interferências urbanas, instalações em que ela se insere como elemento da paisagem. Em geral cada etapa é fotografada e filmada, sintetizada em desenhos ou reelaborada em serigrafias. Ela seleciona as imagens paradas e em movimento, edita, imprime, reconstrói e mostra o resultado em museus, galerias, centros culturais. Na exposição, às vezes reproduz parte do ambiente ou cena registrada pelas câmeras.
Dia 3 de junho abriu a primeira individual, Contínuo Trnsitório no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza, reunindo trabalhos já vistas em outras cidades e obras inéditas, mesclando gravuras, desenhos, fotografias, vídeos e objetos de instalação. Vida. "Queria muito fazer essa exposição individual até para poder me ver no meu processo. Queria depois editar uma publicação legal desse resultado, com depoimentos de críticos e levar essa exposição para fora". Sonho. "Um sonho era o espírito, o desenho de uma coisa possível, querendo vir a ser verdade", segundo Guimarães Rosa, em Buriti, no Corpo de Baile. "E a arte é uma aventura para o espírito".
Waléria nasceu em março de 1979, em Fortaleza. Cresceu com a idéia de ser cartunista sem saber bem o que essa palavra significava. "Devo ter ouvido de alguém quando era pequena", lembra entre risos. Boa aluna, estudou sempre nos melhores colégios do bairro onde morava e a família mudou de endereço algumas vezes. Prestou vestibular como qualquer outra pessoa e quando estava pensando em ir a Recife estudar Arte ou Arquitetura, foi aberto o curso de Artes Visuais na FGF.
Já havia participado do Salão dos Novos em 1998, feito cursos na área. "A Faculdade dá uma engrossada de caldo, permite laboratoriar todos os dias, possibilita conhecer mais pessoas com os mesmos interesses. Na FGF tive o privilégio dos artistas da cidade serem os professores do curso, não era só o pessoal da área acadêmica formal que ensinava". Enquanto estudava, trabalhava. Em casa, todos são "descolados, começam a se virar cedo. Adolescente, dava aula particular."
Trabalho e pesquisa
No Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura sua experiência de trabalho foi de quase sete anos. Entrou como pesquisadora, verificando a aceitação dos eventos pelo público. "Comecei a ter mais noção dessas coisas, saber dos diferentes públicos e espetáculos. Passei a consumir o que rolava de arte e cultura na cidade. Em seguida fui monitora no Museu de Arte Contemporânea". Quando veio a exposição do Rodin, era estagiária e teve um treinamento intenso. Foi uma surpresa ver filas para uma exposição de arte. Era dezembro de 2000.
Depois do Rodin passou à arte-educação, no Nuace - Núcleo de Ação Cultural Educativa, do Dragão do Mar. Como monitora, participava do treinamento a outros monitores e agendava a visita de escolas públicas e particulares às exposições do MAC. Ajudou também nos cursos ministrados para sensibilizar e orientar professores no ensino das artes nas escolas. Foram dois anos de arte-educação no Nuace. Quando graduou-se em Artes Visuais, foi chamada a trabalhar diretamente no MAC. Saiu três anos depois, ao ganhar a Bolsa Pampulha 2005/2006.
Foi dado impulso maior à sua carreira nas artes, "um ano de muita produção". A Prefeitura de Belo Horizonte, juntamente com a Fundação Municipal de Cultura e o Museu de Arte da Pampulha (MAP), tem promovido o Salão Nacional de Arte oferecendo bolsas a jovens artistas brasileiros. São selecionados com base em seus portfólios de trabalho, segundo os critérios anunciados em edital. A Bolsa Pampulha é de estudo e residência na capital mineira durante 13 meses, período em que os artistas desenvolvem suas obras e projetos em artes visuais, acompanhados pela equipe técnica do MAP e por curadores, críticos e artistas nacionais.
"Além dos curadores da comissão oficial, há outros intelectuais e críticos de arte que também visitam, opinam, orientam os artistas". No final do período, os bolsistas mostram o resultado no Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte. "Foi importante esse contato com muitos artistas e com os críticos de várias localidades". As pessoas trocam idéias, vivências, experiências. "Em vez de apenas uma exibição, os artistas fazem uma construção acompanhada. Isso é muito bom", comenta Waléria Américo.
Do Ceará, quatro jovens artistas já foram contemplados com a Bolsa Pampulha: Jared Domício, em 2004; Waléria Américo e Ticiano Monteiro, em 2005; e Yuri Firmeza, em 2008. Waléria Américo aproveitou o tempo que não estava expondo para ir ao Rio de Janeiro e São Paulo, conhecer mais pessoas, visitar grandes mostras. Teve a oportunidade de encontrar artistas e obras que só via em catálogos, como Cildo Meireles, Nuno Ramos, Rosângela Rennó. Também em Belo Horizonte visitou ateliês de artistas que estão despontando agora em grandes mostras como Marilá Dardot, Sara Ramo, Marta Neves. São pessoas que acolheram bem os novos que estavam chegando.
No Salão Nacional de Belo Horizonte de 2006, realizado no Museu de Arte da Pampulha, Waléria Américo apresentou o vídeo "Mergulho na Paisagem", em que ela propõe uma investigação dos limites de sua experiência com a paisagem, com a cidade e com o outro. Foi um ano bem produtivo, porque acabei participando de duas exposições em Fortaleza: "Centrocidades", no Centro Cultural Banco do Nordeste, e "De um lugar a outro", no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura". Expôs também em São Paulo, na coletiva "Paradoxos Brasil", do Instituto Itaú Cultural, como integrante do Projeto Rumos Visuais.
SERVIÇO
Visite o site de Waléria Américo (www.waleriaarte.multiply.com) e a sua primeira exposição individual, contínuo transitório, no Centro Cultural Banco do Nordeste até o dia 20 de julho: terça a sábado das 10h às 20h e aos domingos das 10h às 18h. Endereço: Rua Floriano Peixoto, 941, Centro.
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