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ARTES PLÁSTICAS

Sérvulo da arte

Perto dois oitenta anos, o artista plástico Sérvulo Esmeraldo parece ter saltado no tempo e enganado os dias e noites. Sua obra mantém-se rígida, plena. Embora o vigor das esculturas queiram soprar contemporaneidade, Esmeraldo há muito vem fazendo das suas

Henrique Araújo
especial para O POVO

24 Mai 2008 - 15h50min

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Sérvulo no Monumento  ao Esgotamento Sanitário, na avenida Beira Mar (Foto: Alex Costa)
Parido no Crato, criado no mundo. À semelhança dos talhos de Lucio Fontana, escultor e pintor italiano de origem argentina morto em 1968, o cearense Sérvulo Esmeraldo rasgou as artes plásticas aqui e lá fora: impôs equilíbrio desarmônico, retas e curvas, caixas de acrílico em cujo interior pétalas de papel salpicavam poemas de Vinícius de Moraes e cordões que vibravam versos do chileno Pablo Neruda; amontoados de cubos aos quais talvez bastasse um sopro para que viessem abaixo - não fosse o rigor das construções e a base matemática em que se assentam. Esmeraldo, como se tornaria conhecido no mundo inteiro, “inusitou”: eletrizou a arte. É cinético, construtivista e moderno. Grava, pinta e talha. Perto de arredondar oito décadas de vida, a serem inteiradas no primeiro semestre do ano que vem, o cearense mantém-se eletrizado. O Vida & Arte Cultura de hoje segue no encalço de sua arte e do homem por trás e à frente dela.

De aparência frágil, mas persistente; fala lenta, mas generosa, Sérvulo firma-se nas pernas e nos pensamentos e revê as coisas do passado: o Crato, os Salões de Abril, as Efêmeras, o primeiro “excitável”, as coberturas que fez como jornalista do Correio Paulistano, os cafés de Paris e as exposições do grupo América Latina Não-Oficial. Em seu ateliê, nas bordas do espasmo verde que o Cocó representa para Fortaleza, vasculha lembranças, individuais e coletivas. Fala sobretudo do ofício.

“Não houve mudança no meu trabalho, houve aperfeiçoamento da coisa. Em detrimento dos materiais utilizados. Não mudou muito, não. O que houve mesmo foi uma evolução. O livro de um autor não é igual ao outro. Só as frases ficam mais curtas, mais diretas”, elabora. Dos pequenos inventos - “experimentos que subiam árvores por meio de roldanas nos tempos de menino” -, passando pelas pinturas figurativas bastante afeitas ao gosto dos participantes do Salão de Abril, em Fortaleza, ainda na década de 1950, até chegar aos últimos “excitáveis”, produzidos no ano passado e expostos nos Estados Unidos, na Sicardi Gallery, no Texas, Esmeraldo parece não ter sucedido no tempo - envelhecido. Tampouco estacionado. Ele figura - ou abstrai-se - num plano qualquer repleto de campainhas que estouram ao som da voz da filha mais velha, Sabrina. Afinal, foi premido pelo aniversário da cria que o cearense sacou das idéias um exemplar de arte cinética, ainda na França. O período, os anos de 1960, era por si exageradamente cinético. Uma tarde, da cartola do mágico emergiu um mecanismo semelhante a uma campainha doméstica que funcionava ligado na tomada. “Quando fiz, nem sabia que aquilo era arte”, brinca Sérvulo. Ninguém sabia ao certo. Mas isso também não importava.

À revelia, veio pousar em Fortaleza, na década de 1940. A expulsão do ginásio do Crato é recontada aos poucos. Leu Jorge Amado e, por conseguinte, foi diagnosticado comunista pelos padres que dirigiam a escola. “O papel do livro do Jorge Amado era muito bom pra secar selo. Eu usava pra isso, mas é claro que já tinha lido em casa. O que é certo é que eu trocava selos com esse meu amigo. Aí um dia ele foi lá em casa, me entregou os selos dele num envelope e os meus, nós não tínhamos onde botar, ele colocou no livro e levou pro ginásio. Aí viram o livro na cabeceira dele e perguntaram: ‘De quem é esse livro?’ ‘É do Sérvulo’, ele respondeu (risos).”

O menino desmentiu a coordenação, blasfemou e chamou um dos “santos homens” de filho da puta. Expulso mal fechara a boca. Foi transferido para a Capital. Nela, estudou no Liceu do Ceará até o segundo do científico. “Quem acabou ganhando com a expulsão fui eu”, minimiza. Andou de bonde, foi aos cinemas. Crescido, conheceu os camaradas da Sociedade Cearense de Artes Plásticas, a SCAP. “A maioria desses artistas era de retocadores de retrato. Em Fortaleza tinha várias empresas que faziam retratos coloridos partindo de retratinhos pequenos das pessoas. Então eles ampliavam, coloriam e viajavam pelo Interior, sempre com muito mostruário. Era um marido e mulher, que se abria.”

Em seguida, Sérvulo inquietou-se. Queria estudar arquitetura, o curso mais próximo da arte que ele conhecia. Mudou-se para São Paulo em 1951. Na cidade, concluiu os estudos e se preparou para a faculdade. Uma vez lá, enfastiou-se. Largou tudo seis meses depois. Realizou exposições no Clube dos Artistas e no Museu de Arte Moderna. Ganhou um prêmio do Salão Paulista de Arte Moderna. Apresentou gravuras e pinturas dos tempos em que ainda vivia no Ceará, mas também novas, produzidas sob o concreto da metrópole que, àquela época, tinha apenas 1,5 milhão de habitantes. Em São Paulo, também foi repórter do Correio Paulistano, trabalhou com montagem na Bienal de Artes Plásticas, conheceu Aldemir Martins e ganhou uma bolsa de estudos oferecida pelo governo francês. Era 1956. Esmeraldo viajaria um ano depois, de mala e cuia, para uma temporada de 25 anos na Europa, ao longo da qual aperfeiçoaria as técnicas de escultura e gravura com alguns dos principais nomes das artes plásticas, em ateliês particulares e na Escola Superior de Belas Artes de Paris.

De volta a Fortaleza, em fins dos anos de 1970, Sérvulo espalhou cubos, cones e setas, muitos deles classificados pelo artista como cinéticos. Caso dos cones que fazem vigília, empoçados, em frente à Catedral Metropolitana. Cones que só funcionaram plenamente nos dois primeiros meses de vida pública. Depois, foram esquecidos por gestores da cidade. O descaso repete-se com outras obras do artista. Na Praia de Iracema, por exemplo, o grande ícone do trabalho de Esmeraldo, o Monumento ao Esgotamento Sanitário, de 1977, encontra-se invariavelmente pichado. Um pouco adiante, o Monumento ao Jangadeiro, de 1992, sofre do mesmo mal.

Ainda na segunda-feira, 19, Sérvulo Esmeraldo confessara ter optado por Fortaleza por acreditar que, ao contrário de São Paulo, “a cidade podia dar certo”. Dois dias depois, em frente ao arco em preto e branco recortado contra um fundo de edifícios, à beira da praia, ele diria: “Eu fiz isso numa época em que o maior prédio tinha três andares. Era pra ser contemplado contra o céu e não contra o concreto”.

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