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RESENHA

O ponto da partida

Fernando Molica escreve um romance que mostra a estudantes de jornalismo uma visão crua da profissão. Os jornalistas no batente se reconhecerão em muitas passagens

Plínio Bortolotti
da Redação

24 Mai 2008 - 00h30min

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Fernando Molica, jornalista e escritor lança novo romance pela Record: O Ponto da Partida (Divulgação)
Depois de tê-lo comprado em Belo Horizonte, li O Ponto da Partida no vôo entre a capital mineira e Fortaleza. Fernando Molica usa e brinca com as técnicas jornalísticas para escrever o romance. Frases curtas, limpidez no texto, um lide para abrir cada capítulo. Não se pense que é um texto burocrático. Neste caso, a técnica está a serviço da criatividade, para contar a história de Ricardo Menezes - jornalista como o autor - que continua palmilhando as ruas em busca de notícias, ao 50 anos, idade em que a maioria de seus colegas de geração virou chefe ou partiu para alguma lucrativa assessoria de imprensa.

Acossado pelo ódio que devota à ex-mulher e pelo desprezo que dedica aos filhos - uma moça fútil e promíscua e um rapaz que lhe confronta as tendências "progressistas" - o atormentado Ricardo conduz sua vida de modo caótico. Com a mulher, a quem atribui todas as suas desgraças, ele não fala nunca. Terá com ela um único e redentor encontro.

Molica pontua o livro com histórias de redação. Algumas delas ele deve ouvido falar, outras, certamente, deve ter presenciado ou vivido, nas várias redações pelas quais passou. Toda redação tem uma coleção de histórias, contadas e recontadas nas rodas de jornalistas. Ao contrário das matérias, que têm de ter compromisso com a realidade, nesses casos, quem conta aumenta um ponto - e mesmo as muito conhecidas sempre provocam gargalhadas. É a vingança da ficção. O autor consegue transpô-las com graça e frescor para o papel.

Ricardo Menezes é um personagem de transição. É jornalista "formado", mas iniciou-se no batente pegando a fase final do "jornalismo romântico". Ele vê as velhas e barulhentas Remingtons e Olivettis serem substituídas pelo teclado silencioso dos computadores com suas telas brilhantes. A redação bárbara que ele conhece sofre uma invasão inversa de "uma molecada de faculdade (...) principalmente umas mocinhas de calça jeans, de camiseta, sem sutiã".

Uma das passagens mais hilárias do livro é quando Ricardo tenta emplacar com o editor do caderno de cultura matéria sobre a morte de Guilherme de Brito, parceiro de Nelson Cavaquinho (a quem ele cultua, e que serve de "fundo musical" para o texto). O "jovem editor", de "camiseta vermelha de mangas curtas sobre outra azul, de mangas compridas" e "óculos de armação pesada", não dá bola a seus argumentos. Ricardo insiste e reivindica "uma cota para matérias sobre heterossexuais", que "deve ter aí" (no caderno de cultura). A propósito, Ricardo Menezes é um personagem pra lá de politicamente incorreto.

A ação de O Ponto da Partida se passa no bairro carioca do Leblon, fora da "ilha" Ricardo sente-se um "exilado", ainda que esteja em Ipanema, a quem ele chama de "república amiga".

Mas o livro não tem apenas passagens engraçadas. Há tragédias ligeiras, outras mais profundas e um pouco de suspense. O pano de fundo é o Rio conflagrado. E boa parte desenrola-se com o personagem esperando - plantado na calçada de uma madrugada fria - que o rabecão venha recolher o corpo de uma mulher esquartejada. (Para quem pensa vida de repórter é sinônimo de aventura, Ricardo Mnezes resmunga: "Devo ter mais horas de calçada que muita puta".)

Como se dizia antigamente, O Ponto da Partida é um livro para todos os públicos: os estudantes de jornalismo terão uma visão bastante realista da profissão (a vida como ela é, outro jornalista), de quebra, boas lições de como se constrói um texto, longe das prescrições burocráticas dos "manuais". Os jornalistas, com certeza, se identificarão com muitas passagens. E o público em geral terá o prazer de ler uma história bem contada.


SERVIÇO

O Ponto da Partida. Romance, de Fernando Molica. Editora Record. 189 páginas. Preço: R$ 32,00

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