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Vida & Arte

TOM ZÉ

O homem que (des)come coisas

Em entrevista, o músico baiano Tom Zé falou sobre Nordeste, os sertões, Segunda Revolução Industrial, Tropicália, manifesto antropófago, a loja de seu pai e sua educação finíssima em Irará. Tudo isso não necessariamente em ordem


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10/05/2008 16:57

Tom Zé, cantor e compositor:
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Tom Zé, cantor e compositor: "não sou um intelectual, não sou um homem culto" (Divulgação)

Contar Tom Zé é difícil, ele não cabe. Em certo momento da entrevista, quando já andava imaginando ao telefone pelos anos da invasão árabe na Península Ibérica pra explicar o Nordeste, parou num tempo rápido: "eu vou tomar uma linha mais modesta de observações", e continuou descomendo coisas medonhas e miúdas que apanhou pelo caminho desde 1936, desde Irará, cidade natal do Recôncavo Baiano.

Depois do fracasso do ginásio, como conta abaixo, chegou no fim da década de 1950 a Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, onde estudou as teorias da musica atonal de Arnold Schöenberg, fazendo uma música dilacerada e bela entre a tradição nordestina e as vanguarda européia - pra dizer alguma coisa.

Em 1965, chegou a São Paulo mais Caetano Veloso e Gilberto Gil, linha de frente da Tropicália, participou do disco antológico Tropicália, ou Panis et Circencis e gravou seu primeiro álbum Grande Liquidação, uma mistura de iê-iê-iê, rock e musica experimental. Nos primeiro anos da década de 1970, chegou a ser encarcerado pelo governo militar, ditadura, depois de lançar o LP Todos os Olhos. E ficou praticamente sem compor em fins dos anos 1980, até ter seu CD Estudando o Samba descoberto por David Byrne, líder da banda Talking Heads, que o convidou para ser artista do selo que acaba de fundar. De lá pra cá, foram CDs e prêmios um atrás do outro. Um dos últimos, o Prêmio-Shell de Música de 2007 pelo conjunto da obra.

Passada a ficha, segue abaixo pedaço da entrevista feita por telefone, de repente. Um dia antes, tinha largado o fone, se recusado a falar: só dá entrevista gravada. Pudera, fala rápido, espantado com o mundo.

A antropofagia fica pelo conjunto da obra. (Pedro Rocha)


O POVO - Como é que foi o seu convívio nesse caldo cultural nordestino?
Tom Zé - Se alguém me perguntar: "por que que você foi péssimo aluno do ginásio?" Aí agora eu responderia: "porque eu tive uma escola muito superior na infância" (risos). "Por que quando você foi fazer o ginásio em Salvador você foi um fracasso?" Ora, quem vinha de uma escola sofisticada como o cantador do Nordeste, as cantigas de roda, a Chegança, que é uma dança folclórica que expulsa os árabes, a Saga de Rolim na boca dos cantadores. Pô, quem sai de uma escola dessas e vem pra um ginásio ocidental pífio, só pode fracassar no ginásio. Quanto mais eu estava influenciado por aquilo sem saber, mais meu desinteresse pelo ginásio. Eu era um péssimo aluno, eu era perseguido, a família me dava porrada, dizia que eu não era brilhante como meus tios, todo mundo ótimos estudantes, brilhantes, o caralho e a porra toda. Quando eu cheguei na Universidade da Bahia, foi que eu pude me interessar novamente, porque aquilo sim podia se ombrear ao que eu tinha aprendido na infância. Então, como é que eu vivi essa influência? Eu não sabia que tava sendo educado tão sofisticadamente e não sabia que por acaso, tendo a minha sensibilidade realmente capaz de se comover justamente com esse tipo de alimento. Isso era meu leite materno da infância.

OP - Você faz a todo momento questão de frisar os aspectos sofisticados da cultura nordestina.
Tom Zé - O nordestino tem uma coisa engraçada. Agora eu vou dizer uma coisa importante que os caras do Sul não podem compreender, uma coisa que quem vai endossar meu cheque agora é Euclides da Cunha, eu não tenho autoridade. Nós somos cientistas por vocação, a gente vive, procede, trabalha, compara, em qualquer trabalho comum, porque o nordestino é um cientista diário, constante e eterno, tudo ele compara, ele anota mentalmente, e é analfabeto ou então analfatóteles, quer dizer, analfabeto de Aristóteles. Então, ele como analfatóteles, ele bota ali num lugar da mente, e então chega o Euclides da Cunha e diz que isso é um procedimento científico. Então, nós todos somos no Nordeste ensinados a proceder dessa maneira. Não é à toa que quem fala o que eu tô falando é tanto Euclides como Câmara Cascudo ou então um cara assombrado como Oswald de Andrade que vai enxergar essas loucuras aqui no Sul e diz: "Porra, como isso pode ser feito num mundo bárbaro daquele. São os toros do Norte". Touro, uma banana. Então os cordeiros, digamos assim, os sensibilíssimos cordeiros dessa cultura imensamente ampla que está aí do dia-a-dia das cidadezinhas do interior está sendo invadida por essa civilização boboca.

OP - O Nordeste então foi sua grande escola?
Tom Zé - "Ah, como é que você aprendeu mais do que a gente?". Peraí, eu tive um detalhe. Na loja de meu pai... porque eu era invasor... mas na loja de meu pai eu aprendi a língua do invadido, eu aprendi a língua do homem da roça, que é outra língua completamente diferente, ainda mais naquele tempo em que a roça era a roça. Por sinal, o mesmo tipo de língua de O Grande Sertão Veredas, tanto que quem quiser saber a língua que Tom Zé aprendeu na loja de meu pai abra esse livro. Criança tem facilidade de aprender língua, eu tinha dez anos de idade, o tabaréu, o homem do mato, aí você chama matuto, né? E por que que eu gostava tanto da porra daquele trabalho? Eu lhe pergunto. Eu amava e eu não sabia, como foi que eu fui descobrir que eu amava aquilo. Um dia, já no terceiro ano de ginásio, eu fiquei em segunda chamada, perdi todas as matérias, aí minha mãe me botou num quarto de uma hora às cinco horas da tarde e disse: "tem que estudar malandro". Ora, como se ficar trancado no quarto fosse estudar. Eu tinha levado três gibis, eu lia gibi. Quando a fita acabar que você tiver que rolar me diz. Os gibis acabaram logo na primeira semana, eu fiquei dentro do quarto sem ter o que fazer, porque os livros da escola eu não agüentava. Aí em cima de um nicho - eu tô olhando um semelhante nesse quarto que eu tô agora em casa - tinha um volume enorme: Os Sertões, Euclides da Cunha. O que que é aquilo? Eu sem ter distração nenhuma, a tarde todinha naquele quarto, porque estudar eu não estudava, e minha mãe quando vinha, a casa era toda de assoalho, eu ouvia a um quilômetro de distância. Eu pegava tudo e sumia com o gibi e tal. Eu peguei o diabo do livro e eu tinha visto falar muito desse livro nos jantares, na casa de meu avô, meus tios viajantes, as pessoas que visitavam. Os Sertões, de Euclides da Cunha, e tal.

OP - E conseguiu ler?
Tom Zé - Eu tentei ler, como eu tinha um vocabulário da roça e da cidade, eu era um pouco mais, digamos assim, eu tinha um vocabulário um pouco maior do que o de qualquer criança. Aquilo ali foi passando e cheguei n'O Homem. Aí eu comecei a ler e de repente eu vi que o que o livro tava falando eu conhecia. Aqui parece que eu conheço o que ele tá falando, ele trata do homem nordestino, é o homem que eu lidava todo dia na loja, e quanto mais eu ia lendo o livro, mais eu ia tendo a percepção, muito distante ainda, de que ele tava falando de algo que eu conhecia. Diabo! (alteia a voz) agora tá aqui em minha pele, daqui a pouco, depois de uns cinco, seis dias de leitura, eu tava tremendo e chorando no quarto. Ora, tremer e chorar naquele tempo não era bonito, não aparecia na televisão, não dava audiência e era negócio de doido, doente, então eu pensava que eu tava doente, mas era minha emoção estética... sociológica... de estar diante de uma coisa que eu admirava muito sem saber que era o homem da roça e que ele tava me mostrando como esse homem era admirável.

OP - Você concorda com a leitura que afirma que o tal primitivismo das vanguardas européias está presente no nosso cotidiano?
Tom Zé - Tô plenamente de acordo, tanto o primitivo, como o sofisticado. Isso vai desembocar numa espécie de capacidade de perceber mudanças e de ser cúmplices de mudanças como aquela coisa impressionante que aconteceu em 1967 em São Paulo. Chegamos aqui, os analfatóteles, Tom Zé, Caetano, Gil, acompanhados teoricamente de Torquato Neto que estava aqui também, mais de Capinam e todo o pessoal do tal do Tropicalismo. Por que foi que apareceu o Tropicalismo? Foi porque o seguinte: no horizonte de São Paulo, que iria ser a porta de entrada da segunda revolução industrial, essa coisa que ia transformar a vida de nós todos e de todo o mundo quase, quando se prenunciou no horizonte a linguagem do cartaz, o processamento de dados, a linguagem da televisão, a publicidade, nós, os analfatóteles, não tivemos horror a isso. Mas os poetas e os compositores populares todos, Chico, Vinícius, Edu, Vandré, todo mundo, porque eram educados na linguagem escrita, pressentiram que essa chegada da Segunda Revolução Industrial ia destruir a linguagem escrita enquanto eixo axial da transmissão de cultura. Não é destruir, mas, enquanto eixo axial da transmissão de cultura, iria destruir, como destruiu. Foi isso que Caetano, Gil e Tom Zé tiveram... não é percepção não... mas não ficaram contra, não tinham nada contra essa Segunda Revolução Industrial.

OP - Discute-se muito a Tropicália como a geração que pegou a bola dos modernistas, particularmente do Oswald de Andrade. Você concorda com essa leitura histórica?
Tom Zé - Eu acho que foi o seguinte, que isso foi o que tava à mão e o que era moda. Era dizer que o Tropicalismo pegou Oswald de Andrade e pegou o rock internacional, mas eu acho que sem a sedimentação anterior lá do Recôncavo, em que eu, Gil, Caetano, Capinam, digamos até Torquato, que é aí mais do seu lado, nascemos a cinqüenta quilômetros um do outro. Do ponto de vista da sincronia, foi aquilo que fez o Tropicalismo. Oswald de Andrade foi a gota d'água. É como se a gente dissesse: se vamos proceder como Oswald de Andrade, então nós temos um cabedal inimaginável que é a cultura da nossa infância.

OP - Ele foi como o estopim pra se voltar com mais sede ao pote?
Tom Zé - O que tava dentro de nós mesmos e o que era a riqueza imensurável de séculos e séculos de sabedoria, tudo transportado por esse trem fantástico que é o hipotálamo (risos). O trem que transporta as coisas mais importantes através dos séculos é o hipotálamo do ser humano. Essa parte do cérebro que traz conhecimentos sedimentados do ser humano desde o homem mais primitivo na caverna, ou então do homem que gostava de cultura. Nordestino gosta de cultura, isso é um barato.

OP - E você se lembra quando conheceu o Manifesto Antropófago?
Tom Zé - Na verdade, eu conheci quando eu vim praqui, tava na moda e eu nunca tinha lido. O ano retrasado eu li, porque tinha que ler pra passar num teatro na Bahia, numa peça, e li pela primeira vez em voz alta que é o modo nordestino de existir. Porque eu só sabia teoricamente o que que continha, o que que falava e tal, mas nunca tinha lido. Aí eu provo a você, não sou um intelectual, não sou um homem culto.

OP - Mas é antropófago.
Tom Zé - Ah bom, isso talvez seja, era de nascença.


PS: E leve em consideração o seguinte: essa coisa que eu tô dizendo sobre a Segunda Revolução Industrial, acrescente que - ao contrário da Primeira Revolução Indutrial que veio multiplicar a força muscular do homem, a revolução de 1880, 1860, e tal - a revolução de 1968, que tava chegando aqui, veio multiplicar o sistema nervoso. É isso que os comunicólogos falam aí, né? Essa coisa que modifica o sentido do que é produzido, o que é indústria, o que é comunicação Os produtos da indústria passam a ser objetos de comunicação, signos de comunicação e não objetos pra se conviver com eles, objetos duráveis, e a gente tanto se queixa que tudo que a gente compra, joga fora e tal. Mas tudo isso é problema dessa tal linguagem da Segunda Revolução. Pelo fato de ter meia dúzia de artistas que eram populares naquele tempo e que puderam divulgar, mesmo de uma maneira subliminar, os dados da grade de pensamento que vinha no bojo dessa coisa através de canções: "você precisa saber da Carolina, da margarina, da gasolina". Todas essas coisas foram identificadas naquele momento e a censura não achava nada pra censurar (risos - há, há, há). A censura quando via alguma coisa: "olha, o jeito é prender, porque não dá mais pra censurar. Censurar o quê?" É a mesma censura que não sabia que a forma é mais virulenta dentro da sociedade do que qualquer palavróide.

CONTEÚDO EXTRA
Leia a íntegra da entrevista no www.opovo.com.br/conteudoextra

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