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Vida & Arte

UM NOVO MODERNISMO

Ideário revisitado

Sob a influência de idéias das vanguardas européias, os modernistas brasileiros plasmaram um pensamento cultural e estético original que, nos anos 1960 e 1970, ganharia releituras nas diversas linguagens artísticas


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10/05/2008 16:57

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"A antropofagia oswaldiana é uma metáfora cultural, é uma metáfora social. A gente tinha um grande dilema de como ser moderno e ao mesmo tempo ser brasileiro. Como produzir uma arte com personalidade, com originalidade, uma arte nova que pudesse interessar a Europa e, ao mesmo tempo, sem perder de vista as nossas raízes, daí a coisa de investir mesmo na busca das raízes, na busca da contribuição pessoal", fala a professora de Teoria Literária da Universidade de Campinas, Maria Eugenia Boaventura.

Macunaíma também trazia em sua constituição as tensões do próprio Modernismo. Seu nome foi retirado do lendário indígena reunido por Koch-Grünberg, significa "o grande mau", o que de início institui o elemento ambíguo na própria composição do herói, correntemente bom. Sobre ele, a Leyla Perrone-Moisés escreveu em seu Vira e Mexe, Nacionalismo: "O herói é uma mistura das três principais etnias que compõem a população brasileira: o índio, o branco e o negro. Mas não é uma mistura estável, pois o que caracteriza, na trama do romance, é a permanente metamorfose. A mentalidade do herói é composta de resíduos culturais dessas três etnias, ora justapostas, ora sincreticamente assimiladas. M.A. não essencializa nem supervaloriza nenhum etnia, assim como não idealiza a mestiçagem".

O debate se dava aqui e lá fora, transatlântico. Oswald, filho de uma família de recursos, conviveu com alguns dos protagonistas das vanguardas artísticas européias do começo do século XX - Cubismo, Dadaismo, Futurismo, Surrealismo, por exemplo - em suas viagens constantes à Europa. Doutro lado, já se evocava a metáfora do "comer o outro" na revista dadaísta Cannibale, de 1920, coordenada por Francis Picabia, que também lançou o seu Manifeste Cannibale. Os vanguardistas serviam-se da arte primitiva, particularmente a africana, que chegava com a volta de expedições etnológicas e arqueológicas da África. O objetivo era destronar a "civilização" da qual tanto se vangloriava a Europa. Da qual tantos se ressentiam da ausência cá.

"Mas, dentro de DADA, o 'canibal' não passou de uma fantasia a mais do guarda-roupa espaventoso com que o movimento procurava assustar as mentes burguesas. Com Oswald foi diferente. Embora citasse expressamente Montaigne e Freud (Totem e Tabu é de 1912), é possível que ele tenha recebido alguma sugestão do canibalismo dadaísta, entrevisto nas viagens que fez a Europa, entre 1922 e 1925. Mas a ideologia do Movimento Antropófago só muito artificialmente pode ser assimilada ao Canibalismo picabiano, que, por sinal, não tem ideologia definida, nem constitui, em si mesmo, movimento algum", escreveu o poeta e crítico Augusto de Campos, em 1975, na introdução da reedição das Revistas de Antropofagia - ele mesmo um dos integrantes, ao lado de Menotti Del Pichia e Haroldo de Campos, do Movimento Concretista, que empreenderia releitura das idéias oswaldianas anos depois.

Nas décadas 1960 e 1970, as obras seriam retomadas. Macunaíma ganhou adaptações para o cinema por Joaquim Pedro de Andrade e para o teatro com Antunes Filho. O ideário antropófago ganharia novo fôlego na produção dos tropicalistas, que faziam o caminho de volta: a maioria vinda da Bahia, chegaram em São Paulo e se jogaram no olho do furacão cultural brasileiro, trazendo as vivências da tradição na região, antes identificada como bojo da cultura popular do país. (Pedro Rocha)

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