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Vida & Arte

MOVIMENTO ANTROPOFÁGICO

Macunaíma ou not tupy

Pedro Rocha
da Redação

Cada um a seu modo, Oswald de Andrade e Mário de Andrade instalam novas formas de pensar o país culturalmente. O manifesto antropofágico de um e o livro Macunaíma, do outro trilham por caminhos que buscam mostrar um Brasil diverso e múltiplo unido por um corpo único e capaz de alimentar-se de si próprio


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10/05/2008 16:57

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O ano era 374 da deglutição do Bispo Sardinha, como assinou ao final de seu Manifesto Antropófago o escritor Oswald de Andrade. Escrito em linguagem quase telegráfica, o Manifesto saiu no primeiro número da debutante Revista de Antropofagia. A data fazia menção à devoração do primeiro bispo do Brasil, dom Pedro Fernandes de Sardinha, pelos índios Caetés no hoje município de Coruripe, Alagoas. O evento, encarado como um marco de fundação do País pelo modernista, também desencadeou o início de um massacre aos "nativos". Oswald tentava então inverter os ponteiros dos processos culturais.

Alguns muitos também contavam aquele ano como o de 1928 depois do nascimento de Jesus Cristo. São Paulo se agigantava metrópole num processo esfomeado de urbanização desde os fins da década passada e os modernistas tentavam ir debulhando as propostas da Semana de Arte Moderna, rebentada no Teatro Municipal paulistano seis anos antes, justamente quando da comemoração do centenário de independência nacional. As divergências começavam a se insinuar, tornando cada vez mais obsoleta a idéia de um movimento que aglutinasse todos.

Oswald abria épico: "Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. / Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismo, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz." Movimento Antropofágico. Ganhava nome o que vinha sendo gestado por Oswald há alguns anos nos debates entre os artistas modernistas brasileiros e ensaiado pela primeira vez no Manifesto da poesia Pau-Brasil, de 1924, que foi seguido pelo livro homônimo de poemas.

Ali perto, na mesma cidade, outro escritor, Mário de Andrade, seguiu parelho seu próprio rumo, menos polêmico e intuitivo do que o trilhado por Oswald. Depois de conduzir os modernistas em companhia do poeta franco-suíço Blaise Cendrars às cidade histórias mineiras, em 1924, Mário continuou cavoucando elementos da cultura popular do país, atento às regiões Norte e Nordeste, repositórios pra ele das expressões autênticas do brasileiro, fundamentais na busca de um "identidade nacional". Ao mesmo tempo, empreendeu leituras teóricas, aproximando-se dos estudos antropológicos e das pesquisas etnográficas. O escritor havia retornado um ano antes de uma viagem de barco pelas águas doces da região amazônica, donde voltou com o material para a finalização de seu Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, que escrevia desde 1926, quando redigiu a primeira versão da obra.

"Este livro de pura brincadeira escrito na primeira redação em seis dias ininterruptos de rede, cigarros e cigarras na chacra de Pio Lourenço perto do ninho da luz que é Araraquara, afinal resolvi dar sem mais preocupação. Já estava me enquizilando... Jamais não tive tanto como diante dele a impossibilidade de ajuizar dos valores possíveis duma obra minha", escreveu no segundo dos dois prefácios que redigiu e não chegou a publicar, agora incluídos no Dossiê Macunaíma que acompanha a reedição da obra pela Editora Agir, coordenada pelo Instituto de Estudos Brasileiros. Junto à obra mais conhecida do período modernista, foram relançados também o romance Amar, verbo intransitivo (1927), as crônicas de Os filhos de Candinha (1943) e o livro Eu sou trezentos, eu sou trezentos e cincoenta, que reúne depoimentos de pessoas que conviveram com o escritor como Antonio Candido, Gilda de Mello e Souza e a escritora cearense Rachel de Queiroz.

Oswald não tardou em ver na obra a concretização de suas proposições antropófagas. Apesar da convergência dos ideários, eles estavam prestes a romper num cisma entre os dois maiores expoentes da vanguarda brasileira. Querela não sarada até a morte de Mário, em 1945, ano em que o próprio Oswald retomaria suas reflexões da década de 1920, depois de um período de militância marxista no Partido Comunista que o tinha levado a renegar o "sarampão antropofágico" justamente no prefácio de Serafim Ponte Grande (1933), obra escrita quase completamente em 1928 sob a influência do ideal canibal.

O Vida & Arte Cultura segue as tripas históricas das idéias dos dois artistas, intelectuais. Nas próximas páginas, um tanto mais da história das duas obras, entrevistas com o professor Amálio Pinheiro e o músico Tom Zé, e um artigo da professora de Antropologia Dorothea Voegeli Passetti sobre o ritual antropófago entre os primeiros habitantes destas terras chamadas Brasil.

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