Viviane Gonçalves
da Redação
O cantor e compositor Raimundo Fagner foi o entrevistado de ontem do programa O POVO Quer Saber. O cearense comentou algumas de suas canções e não poupou críticas a seus desafetos
07/05/2008 01:26

A fama de polêmico que Raimundo Fagner ostenta se consolidou ontem durante o programa O POVO Quer Saber. O cantor e compositor cearense foi o convidado especial do mês e fez questão de falar sobre os mais variados assuntos. Durante as duas horas de programa, que teve transmissão ao vivo pelo portal OPOVO.com.br e rádio O POVO/CBN, Fagner não poupou comentários aos seus conterrâneos Ednardo e Belchior, revelou detalhes de suas composições, opinou sobre as chances do Ceará sediar a Copa do Mundo, além de comentar sobre o escândalo envolvendo Ronaldo, a vinda do amigo Roberto Carlos ao aniversário de Fortaleza e o "deslize" do governador Cid Gomes.
Com 40 anos de carreira e mais de 30 discos lançados, Raimundo Fagner não esconde a sua importância na música brasileira. "Muita gente começou a ouvir música brasileira graças a mim. Eu modernizei, fiz algo diferente, misturei o baião com as guitarras. Tem um povão que quer ouvir música de qualidade e sei da minha importância", afirmou durante a entrevista.
Erick Guimarães - Gostaria primeiro de fazer uma metáfora com a música Mucuripe e o início da sua carreira. Em 1968 você participou do Festival de Música do Ceará. Nesses 40 anos de carreira, o que mudou na vida do Fagner?
Raimundo Fagner - Eu gostaria primeiro de agradecer, é um prazer participar desse programa e aproveito para render homenagens ao grande amigo Demócrito Dummar, que sempre me tratou muito bem. Lamentei o ocorrido, mas são coisas que acontecem na vida. Gostaria de ter me encontrado com ele hoje. A vida muda muito. A gente é artista e existe uma inquietação enorme com as coisas que vão mudando, com as oportunidades que vão surgindo. Eu sempre procurei me cercar de grandes profissionais, cada um com sua qualidade. A gente vai mudando e isso é muito natural. No início da carreira, a crítica falava muito da minha voz, mas eu estava em fase de formação e eu mudei muito. Quando sai do Ceará ainda era um menino muito raquítico, passei por Brasília, tinha 19 anos, com 1 metro e 72 de altura. Hoje tenho 1 metro e 84. Eu acho que uma coisa que permanece fantástica na minha vida e me estimula é o amor pela música e pela poesia e a minha relação com os parceiros. Tive a oportunidade de trabalhar com grandes profissionais e manter a minha veia poética. Com relação a Mucuripe é a minha música mais importante. Essa música foi proibida no Festival Nordestino. E foi com ela que eu ganhei o Festival de Brasília, ganhando cinco prêmios. Isso foi decisivo na escolha para largar a faculdade e me tornar músico profissional. Foi um com ela que Elis se apaixonou. Foi um sonho quando compus a partir de uma música que o Belchior me deu. Apesar de não ser a música mais executada, mas é a mais elogiada ao longo da minha carreira. Naturalmente a TV Globo quando fez a escolha das 100 músicas que representam o Brasil pisou na bola mais uma vez ao não incluir a música Mucuripe. Com toda a humildade e alguma que eu não tenho deveria estar incluída nesta lista das melhores do Brasil.
Demitri Túlio - Você trilhou uma história, mas existe também um fator sorte na sua carreira, de estar na hora certa no lugar certo. Você atribui sua carreira à sorte?
Fagner - Perfeitamente. A sorte faz parte da vida do ser humano. A sorte sempre circundou a minha vida. São poucos artistas que foram tão agraciados pela sorte como eu. Eu li a biografia do Roberto Carlos, saiu de circulação, mas muita gente leu. Como o Roberto Carlos teve obstáculos na vida... Eu não tive nenhum. Se eu tive foi com Ednardo, Belchior, cada um querendo atrapalhar. Somos artistas e fizemos história no Ceará. Nós devemos um disco, um trabalho em conjunto, não para nós, mas para os cearenses, para o grande público. A sorte me acompanhou de uma forma fantástica e acho que aliado a isso tem a capacidade de fazer tudo com amor, até para suportar os momentos ruins.
Demitri - Você prefere o Gilberto Gil cantando ou como ministro da Cultura?
Fagner - Acho que ele está sem voz há uns 10 anos. Você vê o Ano do Brasil na França, quando ele disse que tinha 190 projetos culturais, sendo que uns 150 era só da Bahia. Eles puxam muita sardinha para a lata deles. A gente não tem força para isso. A gente tinha uma secretária da Cultura que estava com a cabeça defasada. Ele (o Gil) vem fazendo um péssimo trabalho. Ele sempre foi um cara muito ligado a Internet e vem deixando essa sacanagem da pirataria sem mover uma palha. Estamos querendo tirar o imposto do disco para poder competir com a pirataria e ele está sendo contra. Para mim ele está queimando a sua biografia. O Caetano não concorda com o Gil, ele é fantástico, o único problema é que gosta de ser estrela. Se todo mundo é contra alguma coisa ele é a favor. É o exibicionismo do baiano. Só não gosto do Caetano quando ele quer ser uma eterna criança. Existe sim essa conversa de tensão sobre nós. Isso vem de quando o Ronaldo Bôscoli disse que eu mudei o mapa do Brasil, o Brasil não acabava mais na Bahia. Mas tenho um respeito por ele, o Caetano foi uma referência para o meu trabalho, mas o exibicionismo que é evidente nele.
Felipe Araújo - Os críticos falam hoje de “long seller”, que são trabalhos que podem não vender muito em um primeiro momento, mas têm grande valor artístico e vida útil longa. Quais você apontaria como discos permanentes na sua carreira?
Fagner - Com a crise do mercado é muito bom você tratar com isso. O trabalho de qualidade vai ficar para sempre. Resolvi fazer um disco chamado Raimundo Fagner para as pessoas ouvirem só depois de meia-noite, com os clássicos e melhores arranjadores, e foi um disco que não aconteceu. E eu acho que é o meu melhor disco até hoje. É bom não pensar na idéia imediata, nem sempre você tem esse retorno rápido. Um trabalho de qualidade dá ao publico tempo para pensar.
Demitri - A cidade não merecia um aniversário com o Roberto Carlos? E se você tivesse sogra, a levaria no avião para uma viagem à Europa?
Fagner - Ainda bem que eu não posso te responder essa segunda pergunta. Eu não posso ser indelicado com o Roberto que me deu tanto apoio, o público merece o Roberto. Sei que foi um dos maiores shows da carreira dele e isso premia a platéia cearense, que sempre foi a mais afinada e participativa do Brasil. Eu estou falando do desleixo. Sempre vesti a camisa do Ceará. Nos momentos políticos, na figura do Tasso e Ciro, sempre subi no palanque e nunca cobrei nada. Tem artista que sobe em palanque sem saber quem é o político, só por dinheiro e isso é uma alienação. Já sacrifiquei muito trabalho artístico por conta da política e aprendi bastante. Quando fui convidado para cantar na passagem de ano, em nenhum momento eu pensei em dinheiro. Até porque não quero me comparar com o Roberto que é um artista maior. Teve um problema danado para me pagar. A Prefeitura de Fortaleza sempre teve essa dificuldade. Estou falando de respeito e não dinheiro. Como quando eles dizem que pagam o dinheiro do cachê e não dão. Falta respeito ou um bom produtor musical. Não faço nada no Ceará por dinheiro, me recuso a cantar por cachê alto. Não quero, como filho da terra, ir para cidades pobres ganhar dinheiro em cima disso. Não faço nada por dinheiro e mereço respeito. Não estou criticando o Roberto, não sei se ele está escutando, mas também estou me lixando... Agora gastar numa época em que está todo mundo em crise... Estamos vivendo um momento deprimente. Estamos tendo uma administração aquém. O valor que eu cobro é muito menor, acho que o momento é inoportuno. O fato do Cid acho lamentável porque ele tem uma biografia maravilhosa. A gente vem com questão de avião desde o Paes de Andrade. Achei desnecessário, ele deu uma mancada. Foi de uma infelicidade. Eu o conheço e sei que ele não precisava passar por esse vexame.
Émerson Maranhão - Você deu uma entrevista polêmica à revista Quem, dimensionando a sua carreira e falando da sua vida pessoal, coisa rara. Você se arrepende de algo que falou nessa entrevista?
Fagner - Eu não me arrependo porque o repórter estava me insinuando tanta cada coisa boba... O cara começa a dizer sem dizer, e eu na curtição falei o que ele queria. Ele colocou do jeito que quis. Eu até brinquei que ele não fazia meu tipo.
Émerson - Outra coisa que você falou foi que era tão importante para a música brasileira quanto a Bossa Nova e a Tropicália. Você mantém essa opinião?
Fagner - Eu modernizei a música brasileira. Fiz algo diferente, misturei o baião com as guitarras. A Bossa Nova é música americana, mesmo com toda a genialidade de Tom Jobim. Vende mais lá fora do que aqui. A Tropicália está aí com seus ícones. Quando falo de mim posso colocar o movimento cearense. Eu sempre fui ligado em Beatles e eles não, eu misturei tudo isso e dei uma qualidade aos poetas. Eu tenho consciência disso. Muita gente começou a ouvir música brasileira graças a mim. Claro que gosto de sacanear também. Música de Bossa Nova é musica de elevador, de dentista, sem tirar a qualidade. Tem um povão que quer ouvir música e sei da minha importância. Às vezes você exagera, porque quando uma pessoa vem com uma pergunta assim, a melhor defesa é o ataque.
Luciano Almeida Filho- Vai ser lançado uma caixa de discos do Ney Matogrosso e você está presente. Que bons momentos vocês tiveram juntos?
Fagner - Foi incrível. Nós estávamos na mesma gravadora, nos encontramos e ele decidiu que queria fazer um trabalho comigo. Gravamos um disco e foi a primeira vez que ele se apresentou de calça e blusa.
A BANCADA
Erick Guimarães - Editor-chefe executivo do O POVO e apresentador
Felipe Araújo - Jornalista
Emerson Maranhão - Editor-executivo do núcleo de Cultura e Entretenimento
Luciano Almeida - Editor-adjunto do núcleo de Cultura e Entretenimento
Demitri Túlio - Repórter especial
CONTEÚDO EXTRA
Confira a entrevista na íntegra em www.opovo.com.br/conteudoextra
Eu já tinha lido muita sandice pela vida a fora mas essa foi demais. "Muita gente começou a ouvir música brasileira graças a mim. Eu modernizei, fiz algo diferente, misturei o baião com as guitarras. Tem um povão que quer ouvir música de qualidade e sei da minha importância" A outra sandice foi o Cantor se achar "tão importante para a música brasileira quanto a Bossa Nova e a Tropicália". E o pior é um jornal tão conceituado como O POVO dar guarida a essas sandices. Antes do "maior cantor brasileiro de todos os tempos" nascer, já existiam desenas de bons e ótimos cantores, que nem vale a pena citá-los por pura falta de espaço no jornal. Outra coisa, Bossa Nova, sempre é associada ao Tom Jobim, dando a entender que ele é o pai, mas os verdadeiros pais da Bossa Nova, foram: Roberto Menescal, Carlinhos Lira, Ronaldo Boscoli e Nara Leão, pra quem não sabe. Isso em 1957 onde os quatro se reuniam para compor e cantar no aptº da Nara Leão (Lobo Bobo p/ex.) em 58 , depois veio o João Gilberto, (com chega de saudade) o Vinicius e depois o Tom, a convite do Vinicius. A Bossa Nova é Música carioca autêntica. Depois estourou mundialmente por causa da amizade do Tom com o Sinatra, o resto todo mundo ja sabe. Simplismente ridícula a entevista com o "maior cantor do Brasil", segundo ele mesmo. Arre "EGO"
Jose Bentes de Araújo