João Ferreira Coutinho
da Folhapress
05/05/2008 01:42

Portugal é um país com vocação para o fado. Inevitável, dirão alguns: como é possível que um pequeno país europeu, dono do mundo no século 15, tenha sobrevivido à perda do Império com a cabeça limpa?
Resposta evidente: não sobreviveu. O Brasil, verdade seja dita, ainda animou as hostes a partir do século 16. Mas, quando Napoleão resolveu marchar para a Península Ibérica, o agudo sentido de decadência nunca mais abandonou os nativos. Em 1807, o rei fazia as malas e fugia para o Brasil; o Brasil, poucos anos depois, declarava a independência; e as guerras civis em solo luso fizeram o resto. Ser português era sofrer: era lembrar a glória perdida e suspirar de tédio ou náusea. De Eça de Queirós a Oliveira Martins, não houve intelectual com pretensões que não tenha escrito sobre o "atraso" nacional. Portugal era aquele sítio que dava vontade de morrer. Ou, então, dava vontade de matar.
Dito e feito: em 1908, o rei d. Carlos era assassinado a tiro. Veio a República. E, com ela, veio um estado de violência revolucionária que durou até 1926, altura em que os militares acabaram com a festa e prepararam o caminho para Salazar.
O livro de Fernando Pessoa, Lisboa - O que o Turista Deve Ver, um inédito escrito em 1925 (em inglês), não pode ser entendido sem a História. Não pode ser entendido sem o forte sentido de "descategorização civilizacional" que não poderia deixar de entristecer um "patriota cosmopolita" como Pessoa. Será esse sentimento que o levará a exaltar Lisboa para consumo estrangeiro.
A Lisboa que o leitor tem nas páginas do livro é sempre excesso: os funcionários são "competentes", "poliglotas", "afáveis"; todos os edifícios são "belos", ou "obras-primas", ou exemplares "sem paralelo na Europa".
Confrontado com tais descrições, a primeira atitude é questionar se uma cidade assim tão perfeita existiu algum dia na Terra. Uma coisa é certa: para quem vive hoje em Lisboa, a cidade apresentada no livro ganha contornos fantasmagóricos. Sim, alguns elementos continuam no sítio: a belíssima Praça do Comércio continua a maravilhar os turistas e a albergar os serviços públicos; e, claro, os Jerónimos serão sempre os Jerónimos.
Mas, em contrapartida, onde está essa baixa pombalina que, em 1925, apresentava lojas "tão luxuosas como as suas congêneres européias"? Não está mais. E também não estão os hotéis do Rossio, que fugiram para a parte alta da cidade. Ou os cinemas da avenida da Liberdade, que hoje estão nos shoppings da periferia.
E se Pessoa, em 1925, se indignava com os lisboetas que não visitavam o frondoso Parque Eduardo VII, não sei o que diria ele hoje: "freqüentar o Parque Eduardo VII" é uma forma elegante para designar o negócio da prostituição na capital portuguesa.
Uma passagem, porém, despertou-me um sorriso irônico: ao passar pelo Chiado, em 1925, Pessoa prestava homenagem à estátua do poeta António do Espírito Santo. Quem diria que, em 2008, o poeta do Chiado seria outro. Neste caso, o próprio Fernando Pessoa, transformado em estátua e sentado à mesa de um café.
SERVIÇO
Lisboa - o que o turista deve ver, Fernando Pessoa. Tradução de Maria Aurélia Santos Gomes.
Companhia das Letras. R$ 39 (192 págs.)