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Vida & Arte

literatura infantil

Fantasia e realidade

Sara Rebeca Aguiar
especial para O POVO

Ontem foi comemorado o dia nacional do livro infantil e o Vida & Arte aproveitou a data para discutir como vem sendo produzida a literatura infantil no Ceará


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19/04/2008 00:30

A importância de criar o hábito da leitura desde cedo é uma preocupação de pedagogos e literatos (Foto: Talita Rocha)
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A importância de criar o hábito da leitura desde cedo é uma preocupação de pedagogos e literatos (Foto: Talita Rocha)

Livros de poemas com margens largas e muitas páginas em branco para que possam ser preenchidas por desenhos e anotações durante a leitura, como dizia Mário Quintana. A existência duvidosa do gênero literatura infantil quando não se sabe ao certo em que ponto a obra deixa de se constituir como infantil e se dirige ao adulto, posto em discussão por Carlos Drummond de Andrade. A escrita sem intenção didática, preocupando-se muito mais em criar um momento de beleza através da palavra, como afirmou certa vez Ana Maria Machado. A liberdade em aprender temáticas que extrapolem o dito universo infantil, preconizada por Ruth Rocha. Visões que volta e meia põem em cheque a qualidade da literatura infantil. No Ceará, dezenas de escritores têm se destacado na área, e cada vez mais a inserção de autores locais nas salas de aula vem sendo avaliada. Com a passagem do Dia Nacional do Livro Infantil, o V&A conversou com estudiosos, escritores, professores e pequenos leitores cearenses para saber que tipo de literatura é e deve ser produzida no Estado.

Para a professora de Literatura Infantil Brasileira e Universal da UFC, Solange Kate, os recentes textos literários, direcionados às crianças, refletem antes de tudo a afirmação da identidade cultural: "A literatura mais recente é plural como os nossos tempos. E o que de realmente novo se apresenta é a busca de uma identidade cultural, frente aos tempos globalizados". Acostumada a organizar seminários e cursos direcionados para a leitura infantil, a professora identifica no mercado um grande equívoco: "Existem produções ditas literárias, mas que poderiam ser integradas em um outro conhecimento. Muitos abusam da ilustração e de temáticas direcionadas à ecologia, à diferença, à política, questões muito atuais, mas que continuam com a preocupação didática e não com o compromisso da arte".

Outro ponto frágil no Estado é apontado pelo escritor e professor doutor em Literatura Comparada Horácio Dídimo. Há 25 anos ele foi o responsável pela criação da disciplina de Literatura Infantil no curso de Letras da UFC, registrando-se como uma das primeiras faculdades brasileiras a ter tal disciplina no currículo. Membro da Academia Cearense de Letras, autor de vários livros infantis, ele reconhece a existência de bons autores, mas mostra-se preocupado quando o assunto recai sobre a teoria: "Estamos com bons autores de literatura cearense, não só nos livros, mas também no teatro. O que tem sido pouco explorado é a teoria da literatura infantil. Não se pode esquecer do valor literário e das funções literárias que são divertir, emocionar, educar, conscientizar, instruir, integrar e libertar".

Tendo na música sua principal vertente de sensibilização para a pulicação de diversos livros infantis, a professora e autora cearense Elvira Drummond acrescenta à discussão o papel imprescindível da literatura no ritual de inserção social dos pequenos, além da natureza folclórica das narrativas. Citando teóricos como Marilena Chauí, Vladimir Propp e Bruno Bettelheim, a autora explica a importância dos contos de fadas e como eles interferem na percepção que as crianças fazem de si mesmas e dos valores sociais: "Existem os contos de fadas de retorno e os contos de fadas de partida. No primeiro, personagens como Chapeuzinho Vermelho e João e Maria distanciam-se de casa, enfrentam obstáculos, superam-nos e retornam para a casa paterna. No segundo, personagens mais mocinhas, como Bela Adormecida, também passam por distanciamentos, superação de dificuldades, mas dessa vez, casam-se, partem da casa paterna. Todos são rituais de preparação. Não podemos nos esquecer de que as narrativas infantis são exercícios de emoção para a vida real".

CONTEÚDO EXTRA
Para saber mais sobre literatura infantil e autores cearenses, acesse www.opovo.com.br/conteudoextra


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