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PONTOS DE CULTURA

Nas ondas da rede

Raquel Gonçalves
Especial para O POVO

A vinda à Fortaleza de Cláudio Prado, coordenador de políticas digitais do Ministério da Cultura, viabilizou a implantação de um plano piloto para o uso social da Banda Larga no Titanzinho


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14/04/2008 00:29

O projeto de inclusão social através do esporte, desenvolvido na praia do Titanzinho (bairro Serviluz), atraiu atenção do Ministério da Cultura (Foto: Evilázio Bezerra)
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O projeto de inclusão social através do esporte, desenvolvido na praia do Titanzinho (bairro Serviluz), atraiu atenção do Ministério da Cultura (Foto: Evilázio Bezerra)

Quem não lembra da conexão discada? Aquela que além de ocupar sua linha telefônica, tinha uma velocidade de tartaruga? Está chegando a hora de abandoná-la de vez. O Ceará, até o início de 2009, terá 82% dos principais centros urbanos do Estado integrado através da Banda Larga.

A visita de Cláudio Prado à Fortaleza, tem catalisado o processo de implantação da Banda Larga, além de mobilizar uma articulação de diversos setores para a discussão do uso social das novas tecnologias. "Não adianta você ter a Banda Larga, gastar o dinheiro que é do povo e não usar com todos os setores sociais. Temos que fornecer para todo mundo." Afirmou Fernando Carvalho, presidente da Etice - Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará, no último sábado, após decidir junto a Cláudio Prado sobre o plano piloto no Titanzinho. "Vamos criar um projeto piloto para se mostrar o que é a tecnologia digital para o desenvolvimento das potencialidades locais." Disse o coordenador do Minc.

Em Fortaleza, alguns pontos já estão em funcionamento (ver no quadro), mas até o final de julho, estima-se que a área que cobre de Sobral até Limoeiro do Norte já estará usufruindo da tecnologia. A idéia agora é capacitar alguns Pontos de Cultura, por meio dos Pontões de Cultura, para discutir o uso livre da Banda Larga. Para a implantação de todo o cinturão digital acordou-se que a RNP - Rede Nacional de Pesquisa fornecerá a fibra ótica e o Governo do Estado fará a manutenção.

A Aldeia Digital integra um dos nove Pontões de Cultura do País. Élcio Batista, presidente da ONG, ratifica: "Nosso papel não se limita a implantação dos softwares livre. Queremos discutir cultura livre. Fazer com que as pessoas aprendam não só a fazer downloads, mas também uploads." Além do Ceará, a Aldeia é também responsável por Pontos de Cultura no Maranhão e Piauí.

Cláudio Prado visita, desde quinta feira, diversos Pontos de Cultura em Fortaleza, com intuito de acompanhar os projetos e discutir com a população uma nova compreensão de cultura livre. Aos 64 anos, faz jus ao sobrenome, de raízes intelectuais. Ousado e sem filtrar palavras, Cláudio Prado conversou com O POVO sobre questões como direito autoral, importância do uso social das novas tecnologias e o reflexo na literatura.

O POVO - Você está vindo ao Ceará acompanhar o andamento dos Pontos de Cultura do Estado. Quais são as perspectivas de trabalho e articulação para o Ceará?
Cláudio Prado - O paraíso da cultura digital está se delineando em Fortaleza. Aqui no Ceará é surpreendente os avanços e as possibilidades que estamos enxergando aqui. Como a revolução das tecnologias digitais, as ações práticas estão beneficiando as culturas locais. São novos caminhos, novas possibilidades para a população das periferias brasileiras. O ciberespaço é um território transacional de democratização da informação.

OP - Como o terceiro setor vem colaborar para expansão dessa política de democratização digital?
Prado - O Ponto de Cultura encontra pequenas organizações da sociedade civil sem fins lucrativos e que estão desenvolvendo atividades culturais. Isso é um estimulo à produção. É uma nova forma do Estado se relacionar com uma pequena organização que está fazendo várias coisas. A idéia dos Pontos de Cultura Digital é fazer com que a gente perca o controle. Isso significa autonomia do cidadão desenvolver seus próprios caminhos e utilizar as ferramentas que o Estado esta disponibilizando.

OP - Para que isso ocorra, como funciona o financiamento desses projetos?
Prado - Para a gente não interessa a realidade de quando o dinheiro acabar, o projeto acabar. Esses pontos que foram habilitados, mas ainda não tem dinheiro, já estão usando o fato do reconhecimento do ministério em relação ao que eles fazem como um grande estímulo para a auto-estima e um grande estímulo para o "sevirismo" . O "sevirismo" eu chamo a condição de se virar. O "sevirismo" é o grande lance. Já se investiu 150 mil reais em dois anos e meio para cada um dos Pontos de Cultura do País e mais os kits multimídia doados pelo Minc. Alguns receberam esses kits multimídia e outros 20 mil reais. Infelizmente nós temos leis que engessam o uso do direito público. A lei impede o bom uso do dinheiro público. Eu garanto que se depositassem o dinheiro do kit multimídia na minha conta eu comprava o dobro e usava o dinheiro público muito melhor do que dentro da "lisura".

OP - Quem são os principais interessados na manutenção dos modelos analógicos de intercambio da arte? Qual o discurso desses segmentos?
Prado - Eu diria que tem várias pessoas querendo impedir. O primeiro deles é o interesse da ganância, a volúpia do dinheiro, do consumo. O consumo é exatamente o resultado da política analógica. O lucro está ligado diretamente a um sistema de distribuição estratégico. Como o digital, elimina-se, em muitas instâncias, a materialidade dessa produção. A grande questão é equilibrar o interesse público com o interesse privado e quem está querendo maximizar lucros, será contra essa nova proposta. A burocracia também é um impeditivo. Ela também dificulta. É a 'burrocracia' mesmo. Construiu-se mecanismos de blindagem que viabilizam a corrupção e o uso do dinheiro público para situações particulares, sobretudo quando existe novas ferramentas e novas possibilidades. Aí, o processo burocrático, que tem interesse na lisura do processo, acaba caindo na mão de quem age de má fé. Eu sou a favor da pena de morte de quem rouba o dinheiro público.

OP - Você afirmou, em entrevista ao site e-vento, que o digital tem ligações diretas com o movimento político e libertário da cultura hippie. Você podia falar sobre isso?
Prado - O movimento hippie foi um processo extremamente revolucionário e que aconteceu de uma forma horizontal, sem um poder central. O movimento hippie introduziu discussões como a liberdade sexual, meio ambiente, paz e as questões colaborativas. Essas pautas são também pensadas no mundo digital. O digital tem um componente anárquico, ele viabiliza estruturas horizontais que independem de poder central. Há quem diga que a Internet vazou. É o vírus que fugiu do controle, escapou, infectou o mundo e agora o mundo corre atrás de regular. Nós, do Ministério, somos a favor a regulação da Internet para garantir as liberdades e não para cerceá-las.

OP - Com a popularização da Banda Larga, quais as mudanças diretas sofridas no campo da literatura?
Prado - A minha geração foi a primeira geração que deixou de escrever carta. A geração atual está se comunicando por escrito de uma forma consistente, diária e cotidiana. Isso é uma evolução na questão da leitura. O escrever é mais complexo do que o ler. E o ler só é possível se você estabelece uma relação com o escrever. Quer dizer, ninguém vai ler se não escreve direito. Agora essa geração se comunica por escrito com o requinte de inventar palavras, coisas que Guimarães Rosas fazia e hoje toda a molecada faz. Isso significa que desde cedo eles já estão dizendo que são donos dos próprios processos. A partir desse novo uso do escrever nasceram novas formas de publicação, que foram os blogs que possibilitam não só se comunicar, mas publicar de forma livre, sem depender de um editor. Queria dizer que o alfabeto, embora seja uma criação fantástica dos árabes, foi o responsável, na mão dos europeus, por uma das coisas mais perversas da humanidade. Transformar em burro o cara que tem cultura oral. Começaram a chamar de analfabetos. Como se o alfabeto fosse a única forma de perpetuar conhecimento.

OP - O Gilberto Gil, depois do seu trabalho de 2007 denominado Banda Larga, deixou clara sua empatia pelas novas tecnologias, pela reprodução livre de seus shows, músicas etc. Chegou a queixar-se inclusive de algumas amarras com gravadoras que atualmente não lhe permitem disponibilizar livremente parte de seu trabalho on-line. Como você enxerga a discussão do direito autoral?
Prado - Todas as constituições do mundo garantem ao autor o usufruto e o benefício das suas idéias, mas garantem também o acesso público ao conhecimento. Em termos, essas duas coisas são contraditórias. É uma contradição que foi exposta pelo mundo digital. E, na realidade, quem é privilegiado não é nem o autor e nem o público. É o intermediário que não agrega valor. E é exatamente esse que defende com unhas e dentes a manutenção do copyright como única forma de garantir os direitos aos autores. Sem falar na intermediação espúria que é o Ecad. Este é síntese da corrupção dentro desse processo. O que hoje nós, no ministério, pensamos é que temos que discutir essas questões com a população para criar uma nova compreensão do direito público ao acesso a informação e do direito do autor de cada idéia.


NA TV O POVO
Cláudio Prado estará hoje no programa Grande Debate do POVO, às 13h, na TV O POVO.
Participações pelo tel.: 3366 3770 ou email: enquete@tvopovo.com.br


Emais

Banda Larga pública já em funcionamento em Fortaleza:

UFC - Universidade Federal do Ceará
Uece - Universidade Estadual do Ceará
Seagri - Secretaria de Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará
Centec - Instituto Centro de Ensino Tecnológico
Semace - Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Ceará
Funceme - Fundação Cearense de Meterologia e Recursos Hídricos
ESP-CE - Escola de Saúde Pública do Estado do Ceará
HGF - Hospital Geral de Fortaleza
Secitece - Secretaria de Ciências e Tecnologia e Educação Superior do Estado do Ceará.
Funcap - Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico
STN - Secretaria do Tesouro Nacional.


Inclusão social

- A comunidade do Titanzinho possui um projeto que consiste em desenvolver a técnica de produção de pranchas de surfe. Através da Banda Larga, o projeto se tornará viável para a divulgação do trabalho, a realização de intercâmbios e o escoamento da produção. De acordo com o andamento do projeto, a idéia é patentear essa forma de produção.

- "Eu fiz um teste. Baixei um CD de 700 megas em quatro segundos", disse Fernando Carvalho sobre as vantagens da Banda Larga. De acordo com o presidente da Etice, o Governo do Estado gasta, em média, 416 mil reais por mês para disponibilizar o acesso a Internet às escolas estaduais de 64kbps, velocidade de Internet discada. Valores que, com a Banda Larga, serão reduzidos consideravelmente.


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