Célia Tolentino
Especial para O POVO
O cangaço percorreu um caminho ambíguo no cinema. A socióloga Célia Tolentino analisa este (des)caminho e o compara com o western
05/04/2008 14:40
Em 1925 a revista de crítica cinematográfica Cinearte publicava uma reclamação contra o conteúdo de uma fita nacional - imaginem o que era fazer cinema no Brasil em 1925! - afirmando "ora vejam se até não tem graça deixarem de filmar as ruas asfaltadas, os jardins, as praças, as obras de arte, para nos apresentarem aos olhos aqui, um bando de cangaceiros, ali, um mestiço vendendo garapa em um purungo..." Dois anos depois, entretanto, a mesma revista traria a opinião do gerente de uma companhia distribuidora de filmes: "No dia em que pudermos mostrar o nosso 'far-west´ com seus cangaceiros e os sertanejos que não levantam os braços ante o cano de um revólver, neste dia a nossa produção dominará o mercado mundial". É certo que nosso cinema nunca chegou perto da conquista sonhada por este distribuidor, mas o primeiro prêmio do cinema brasileiro em um festival de cinema internacional foi para o filme O Cangaceiro, um típico faroeste à brasileira. O filme de Lima Barreto ganhou a Palma de Ouro em Cannes, no ano de 1952, e inauguraria um "ciclo do cangaço" no cinema nacional.
Se em 1925, nos tempos em que o cangaço ainda era um fato, o tema despertava mal estar no espectador do incipiente cinema nacional, nos anos 50, uma década após a morte de Lampião e Corisco, o cangaço passaria a ser o "sumo da nossa brasilidade" como diria o diretor premiado no festival francês. Nos anos em que o Brasil assumia a idéia de tornar-se um país industrializado, superando a tese da nossa vocação agrária por excelência, o rural, particularmente o nordestino, nos garantia tradição, bravura, originalidade e o chamado elemento autóctone contra as "influências vindas de fora". Isto é, a temática do cangaço e do Nordeste deveria proteger-nos das influências do cinema internacional, particularmente o norte-americano, e também contribuir para a construção de uma linguagem cinematográfica que representasse o Brasil. Dá para imaginar que o prêmio internacional viria a reforçar esta tese.
De 1927 a 1969 faz-se 25 filmes sobre o tema. É certo que entre estes trabalhos se encontram documentários, tentativas de leituras mais fiéis ao cangaço real, apropriação do cangaço como alegoria e mesmo paródias dos filmes mais famosos. Entretanto, a predominância da forma do western hollywoodiano na maioria dos filmes rendeu, por parte da crítica, a criação do neologismo "nordestern" para definir o que acabou tornando-se um gênero cinematográfico no Brasil. E, tal como Hollywood reinventava a tradição do homem americano através do faroeste, tornando pitoresco e palatável o violento processo da expansão da fronteira agrícola nos Estados Unidos, o filme de cangaço suprimia as implicações sociológicas e mantinha o caráter aventuroso, cavalheiresco e espetacular da violência gerada pelo braço armado das disputas familiares e coronelistas no sertão.
Mas assim como o mito do cowboy foi criado muito antes do advento do cinema, através da literatura popular, fazendo com que o vaqueiro, que tinha maior mobilidade que o mineiro e o agricultor, ganhasse o status de um verdadeiro cavaleiro andante moderno, a literatura de cordel e o sucesso do western nos cinemas brasileiros prepararam o público nacional para o nordestern.
Nos anos 60, entretanto, o cinema politizado, aquele que pretendia uma arte crítica e pedagógica, retomaria o tema do cangaço numa outra perspectiva, a do sertão como modelo de rebeldia. Saíam de cena os cavaleiros andantes e a forma que lembrava John Ford e o Monumet Valley e ganhavam as telas as caatingas e homens e mulheres que andavam a pé e lutavam porque tinham causas e objetivos. Se nos anos 50, tão próximos ainda da saga real de Lampião e Corisco, o cangaço cinematográfico era coisa de um passado distante, nos anos 60, quando a modernização e a urbanização do País parecem irreversíveis, era hora de colocar o cangaço na história brasileira. Era isso que experimentava o cinema de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e aqueles cineastas que queriam que a câmera provocasse o espectador. Nestes filmes, o cangaço é parte da nossa vida e deveria servir de modelo para as nossas lutas políticas. E, de certo modo, cumpria com a função de oferecer uma herança para as rebeldias daqueles anos 60.
Célia Tolentino é professora de Sociologia na Universidade Estadual Paulista e autor do livro O rural no cinema brasileiro (Editora Unesp).
PROGRAMAÇÃO DA MOSTRA
15/4 - Terça-feira
14h às 16 horas
O Cangaceiro. Ficção. 1997. São Paulo. 35 mm. COR. 120 min. Direção: Aníbal Massaíni Neto. Classificação indicativa: 14 anos.
16h20min às 18 horas
As Cangaceiras Eróticas. Ficção. 1974. São Paulo. 35 mm. COR. 100 min. Direção: Roberto Mauro. Classificação indicativa: 16 anos.
16/4 - Quarta-feira
14h às 15h50min
A Morte Comanda o Cangaço. Ficção. 1960. São Paulo. 35 mm. COR. 108 min. Direção: Carlos Coimbra. Classificação indicativa: 14 anos.
16h05min às 17h50min
Kung Fu Contra as Bonecas. Ficção. 1976. São Paulo. 35 mm. COR. 105 min. Direção: Adriano Stuart. Classificação indicativa: 16 anos.
17/4 - Quinta-feira
14h às 16h05min
Deus e o Diabo na Terra do Sol. Ficção 1964. Rio de Janeiro. 35 mm. PB. 125 min. Direção: Glauber Rocha. Classificação indicativa: 14 anos.
16h20min às 17h20min
O Último Dia de Lampião. Documentário. 1975. Rio de Janeiro. 16 mm. COR e PB. 59 min. Direção: Maurice Capovilla. Classificação indicativa: 14 anos.
17h30min às 18 horas
Memória do Cangaço. Documentário. 1965. Rio de Janeiro. 35 mm. PB. 30 min. Direção: Paulo Gil Soares. Classificação indicativa: 14 anos.
O filme O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (ficção, 35mm, colorido, Rio de Janeiro, 1969, 95 minutos), de Glauber Rocha, terá a primeira exibição nacional da cópia restaurada na Cerimônia de Encerramento do Festival.
18/4 - Sexta-feira
15h às 16h45min
Riacho de Sangue. Ficção. 1966. São Paulo. 35 mm. COR. 104 min. Direção: Fernando de Barros. Classificação indicativa: 14 anos.
17h às 18h40min
Corisco, o Diabo Loiro. Ficção. 1969. São Paulo. 35 mm. COR. 100 min. Direção: Carlos Coimbra. Classificação indicativa: 14 anos.
19h às 19h35min
A Mulher no Cangaço. Documentário. 1976. Rio de Janeiro. 16 mm. COR e PB. 36 min. Direção: Hermano Penna. Classificação indicativa: Livre.
19h50min às 21h40min
Lampião, o Rei do Cangaço. Ficção. 1962. São Paulo. 35 mm. COR. 110 min. Direção: Carlos Coimbra. Classificação indicativa: 14 anos.
19/4 - Sábado
14h às 15h45min
Cangaceiros de Lampião. Ficção. 1967. São Paulo. 35 mm. COR. 105 min. Direção: Carlos Coimbra. Classificação indicativa: 14 anos.
16h às 17h55min
Faustão. Ficção. 1971. Rio de Janeiro. 35 mm. COR. 113 min. Direção: Eduardo Coutinho. Classificação indicativa: 14 anos.
18h10min às 19h40min
O Cangaceiro Trapalhão. Ficção. 1983. Rio de Janeiro. 35 mm. COR. 90 min. Direção: Daniel Filho. Classificação indicativa: Livre.
20h às 21h45min
Baile Perfumado. Ficção. 1997. Pernambuco. 35 mm. COR e PB. 95 min. Direção: Paulo Caldas, Lírio Ferreira. Classificação indicativa: 14 anos.
20/4 - Domingo
14h às 15h30min
Meu Nome é Lampião. Ficção. 1969. Rio de Janeiro. 35 mm. COR 90 min. Direção: Mozael Silveira. Classificação indicativa: 14 anos.
16h às 17h35min
A Vingança dos Doze. Ficção. 1970. Rio de Janeiro. 35 mm. COR. 95 min. Direção: Marcos Farias. Classificação indicativa: 14 anos.
18h às 19 horas
Lampião, Sonhos de Bandido. Documentário. 2007. Bélgica. Beta Digital. COR. 58 min. Direção: Damien Chemin, NicodÕme de Renesse. Classificação indicativa: Livre.
19h15min às 21 horas
Corisco e Dadá. Ficção. 1996. Ceará. 35 mm. COR. 103 min. Direção: Rosemberg Cariry. Classificação indicativa: 14 anos.
21/4 - Segunda-feira
15h às 16h35min
Jesuíno Brilhante, o Cangaceiro. Ficção. 1972. Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte. 35 mm. COR. 95 min. Direção: William Cobbett. Classificação indicativa: 14 anos.
17h às 18h45min
Os Três Cangaceiros. Ficção. 1961. Rio de Janeiro. 35 mm. PB. 102 min. Direção: Victor Lima. Classificação indicativa: Livre.
19h às 19h20min
O Velho Guerreiro Não Morrerá - O Cangaceiro de Lima Barreto 50 Anos Depois. Documentário. 2008. São Paulo. Digital. COR. 20 min. Direção: Paulo Duarte. Classificação indicativa: Livre.
19h25min às 21 horas
O Cangaceiro. Ficção. 1953. São Paulo. 35 mm. PB. 94 min. Direção: Lima Barreto. Classificação indicativa: 14 anos.
* programação sujeita à alterações.
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Foi um ano antes, em 1953, e não em 1952, como afirma a autora do artigo, q O Cangaceiro (de Lima Barreto) ganhou o Palme dOr em Cannes como "melhor filme de aventura". No mesmo festival, o filme ganhou tb "Menção Especial" pela música. A canção "Mulher Rendeira" (um baião tradicional) tornou-se sucesso internacional a partir do filme. Outro fato interessante pra nós, cearenses, é q os diálogos do filme foram escritos por Rachel de Queiroz. O Cangaceiro foi o único filme da Veracruz a dar lucro. Só um porém: cangaceiro q era cangaceiro mesmo não andava a cavalo, e sim a pé!
Wander Nunes Frota