Publicidade

Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Vida & Arte

ARTE E MODA

Ligação cruzada

Juliana Girão
da Redação

Desde meados do século XIX, a arte serve como fonte de pesquisa e referência para o desenvolvimento da moda. Por outro lado, artistas criaram ao longo da história da arte objetos de moda. Nesse cruzamento, o que delimita onde começa e termina as duas linguagens? É possível dizer: moda é arte? O Vida & Arte Cultura desta semana antecipa o debate que deve tomar conta do 9º Dragão Fashion Brasil


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto

29/03/2008 17:15

Performance A Costura do Invisível, de Jum Nakao, em 2004 (Foto: Divulgação/ Fernando Louza)
Clique para ampliar foto
Performance A Costura do Invisível, de Jum Nakao, em 2004 (Foto: Divulgação/ Fernando Louza)

"Na moda, o traje, a aparência externa é representação das 'entranhas'. Enquanto fenômeno (aparição), a moda mostra o que está dentro. Essa consideração significa conferir uma outra importância à aparência: ela não é aparência que se opõe à essência, mas é aparição, aquilo que se mostra, num jogo entre o que aparece e o que se ausenta: 'a expressão do inconsciente de uma época".
Walter Benjamin (1892-1940), filósofo e ensaísta alemão


Fotógrafos, editores de moda, convidados. Todos a postos para o maior evento de moda da América Latina. Na platéia, 1.200 pessoas aguardam um desfile que promete o retorno ao artesanal, o clima de sonho e roupas inspiradas no século 18. Com o usual atraso, modelos entram na passarela de trajes inteiramente feitos de papel vegetal. Surgem criações elaboradíssimas com estrutura, volume e plissados, sobre uma malha preta e perucas de bonecos Playmobil. Uma a uma. Todas de papel. Ao final, agradecimentos e pasmem: as modelos rasgam todas as roupas. O público vai ao delírio e corre em busca daqueles papéis despedaçados. Todo um trabalho de mais de 700 horas simplesmente desaparecia. O que era isso? Manifesto artístico? Desfile de moda conceitual? A performance intitulada A Costura do Invisível, do estilista Jum Nakao, em 17 de junho de 2004, durante a São Paulo Fashion Week, além de questionamentos sobre o consumo e a estrutura dispendiosa do mercado, reacendia o debate em torno de um antigo binômio. Afinal, moda é arte? A questão continua em aberto. A partir de amanhã, em Fortaleza, o 9º Dragão Fashion Brasil traz o assunto para a roda. O Vida & Arte Cultura antecipa a discussão.

O desfile de Jum Nakao tornou-se emblemático entre pesquisadores e estilistas para discutir a relação entre moda e arte, mas o cruzamento dessas duas linguagens não é coisa recente. Na década de 1930, a estilista italiana Elza Schiaparelli desenvolveu com o ícone do surrealismo, Salvador Dalí, o chapéu-sapato, a bolsa em forma de telefone, o tailleur com vários bolsos em forma de gaveta e o vestido decorado com uma grande lagosta. Nos anos 1960, o estilista francês Yves Saint-Laurent apresentou coleção inspirada em Mondrian. Na mesma época, no Brasil, os artistas plásticos Lygia Clark (1920-1988) e Hélio Oiticica (1937-1980) criaram obras para vestir. Arthur Bispo do Rosário bordou obras-primas com tecido, madeira e plástico. O Grupo Rhodia convidou artistas visuais para a criação de estampas exclusivas para tecidos de fio sintéticos. Nos anos 1980, os artistas plásticos Leda Catunda (1961) e Leonilson (1957-1993) também valeram-se da indumentária para compor seus objetos.

Mais recentemente, o estilista francês Christian Lacroix trouxe referências do renascimento italiano para a coleção outono-inverno 2006/2007. O desfile ocorreu na Galeria Rafael do Victoria and Albert Museu, em Londres, onde era possível ver, ao mesmo tempo, as pinturas originais do mestre renascentista e a re-leitura de Lacroix. "Eu diria que a moda e a arte se merecem. São dois sistemas muito ricos e muito organizados. Um inspira o outro, mas têm regimes e estatutos bem diferentes. Não dá para extrair da moda toda a cadeia comercial que ela envolve", acredita o artista visual, curador e pesquisador de regimes visuais, Fernando Penteado, que começou a carreira no início dos anos 1980 como criador de estampas e acabou enveredando para a wearable art. Também conhecida como arte vestível, a wearable art surgiu na década de 1960 nos Estados Unidos, no qual artistas desenvolviam criações que utilizavam o corpo como suporte. Ou seja, as roupas eram peças de arte. "A arte é uma linha de trabalho que tem uma vocação de desestabilizar, de servir de espelho para a sociedade. Enquanto a moda é muito mais utilitária, mas oferece um sistema de imagens avassaladoramente belas", distingue.

Apesar da contaminação dos meios, a exemplo da wearable art, a estilista e professora do curso de Design de Moda da Faculdade Católica do Ceará, Maria de Jesus Medeiros, concorda. "Não podemos afirmar que a moda é arte. Nem que a arte é moda. A gente só faz uma associação de referenciais. A arte, por exemplo, envolve o complexo da moda por ter a relação da forma, da cor, da textura, dos materiais", diz. Segundo a professora, o que diferencia a moda da arte é a condição efêmera, funcional e mercadológica da primeira. "A moda sempre se inspirou na arte para criar as suas formas, o seu estilo, e ela vive até hoje disso". Especialmente a partir do século XX, quando o processo criativo tornou-se cada vez mais veloz e a moda teve de buscar novas e numerosas inspirações para se diferenciar e ficar mais competitiva no mercado.

A professora do Mestrado de Design de Moda da Universidade Anhembi Morumbi e editora de moda da revista Dobras, Kathia Castilho, pensa diferente. "Moda é arte também", defende. "Moda é arte quando você tem uma característica de um estilista pensando num projeto, para além da modinha, do Prét-à-Porter. A moda é um sistema que se reproduz com uma voracidade cada vez maior. Mas, por outro lado, quando ela é uma reflexão do seu tempo e do fazer criativo do designer, ela é arte". A artista visual e doutora em Comunicação e Semiótica em São Paulo, Mônica Moura, também defende que a moda pode ser arte. "A moda estabelece uma série de relações com a arte, até porque a moda é uma expressão da cultura", destaca. Ela cita como exemplo artistas do início do século XX que atuavam também como designers no desenvolvimento de tecidos e peças no vesuário: as russas Varvara Stepanova, Lyubov Popova, Natalia Goncharova e Alexandra Ekster sob a influência do Construtivismo Russo e as francesas Sonia Delaunay e Shopie Tauber Arp, sob a influencia no Fauvismo e Orfismo.

Para o professor de História da Moda em São Paulo, João Braga, dizer se moda é arte (ou pode ser arte) envolve conceitos difíceis de serem definidos e compreendidos para um público mais amplo. "A moda pode ser uma possibilidade da arte", diz, citando como exemplo os objetos-vestíveis (conhecidos na obra de artista como Lygia Clark e Roberto Lanari). "Há determinados momentos em que a moda e a arte andam de mãos dadas, outras vezes de braços dados e há ocasiões em que andam abraçadas. Ou há momentos em que andam cada uma para seu lado", compara.

O desfile na São Paulo Fashion Week foi uma espécie de despedida de Jum Nakao da semana de moda. Rasgar as roupas abriu portas para trabalhos em outras áreas, como uma exposição de registro da performance no Museu de Moda de Paris. Segundo o estilista, o tão comentado desfile teve a intenção de expandir as possibilidades do que é moda e repensar os formatos pré-estabelecidos. "Hoje vivemos numa grande velocidade onde as pessoas não digerem, elas ficam muito na superfície. Quis mostrar uma camada um pouco mais profunda, para revelar o que existe embaixo da pele", diz. Se moda é arte, ele devolve com questionamentos: "Será que o filme que é digital e não é feito em pelicula é cinema? Será que os suportes não foram muito mais do que expandidos, desde Duchamp (1887-1969)? Será que um urinol é arte? Será que um cachorro numa galeria é arte?". Depois de muita conversa com diversos pesquisadores e estilistas, ficou claro: na relação moda versus arte, não há respostas definitivas.


GLOSSSÁRIO

Moda: Nesse texto, nos referimos à moda como "um conjunto de fatores que ocorrem por meio de produtos desenvolvidos e elaborados por designers junto da indústria (da micro a multinacional) ou nos sistemas artesanais de manufatura". "A moda é uma importante área de produção e expressão de cultura contemporânea. Tanto apresenta reflexos e referências da sociedade quanto dos usos e costumes do cotidiano (Moura, Mônica. A Moda entre a Arte e o Design. In: Pires, Dorotéia. Design de Moda. São Paulo. Estações das Letras e Cores, 2008 (no prelo))

Arte: Segundo o dicionário Houaiss, arte é a "produção consciente de obras, formas ou objetos voltada para a concretização de um ideal de beleza e harmonia ou para a expressão da subjetividade humana".

Leia mais sobre esse assunto


Compartilhe esta Notícia o que é isso?

  • Linkar esta matéria ao Delicious
  • Linkar esta matéria ao Menéame
  • Linkar esta matéria ao Technorati
  • Linkar esta matéria ao My Yahoo
  • Linkar esta matéria ao Bookmarks
  • Linkar esta matéria ao Rec6

Comente esta Notícia



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato