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Ditas e desditas do palco

No dia mundial do teatro, o Vida & Arte reúne personagens da cena local e propõe um debate sobre formação em teatro, novas linguagens, pesquisa e platéia. Juntos, eles formam as artes cênicas que o Ceará leva hoje ao palco

Tiago Coutinho
especial para O POVO

27 Mar 2008 - 01h10min

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(Divulgação)
Em pouco mais de cinco anos, o Ceará deixa de possuir apenas um curso de extensão em artes dramáticas e almeja a consolidação de quatros graduações universitárias em teatro até 2010. A efervescência de grupos formados a partir das experiências e avanços em estudos teatrais coloca em pauta uma questão:como as formações em artes cênicas da cidade vêm interferindo no cenário local?

O Vida & Arte convidou quatro nomes para ajudar a pensar em conjunto a pergunta. Fran Texeira, Ricardo Guilherme, Haroldo Serra e Rafael Martins foram os escolhidos. De gerações e com experiências distintas, cada um opinou e refletiu sobre as condições atuais do teatro cearense.

Numa conversa enovelada de muitas idéias o diagnóstico fica um pouco do mais do mesmo: o teatro cearense anda muito bem em suas produções, com as formações ele avançou muito em linguagem e começa a germinar um sentimento de classe. Os problemas, no entanto, permanecem. A principal deficiência está no acesso aos espetáculos que, mesmo com as dificuldades, não param de brotar.

A ausência de políticas públicas aparece como responsável pela carência de divulgação e difusão da cena local. Nesse sentido, a conversa se dividiu em quatro tópicos: a importância da formação teatral; as interferências na cena local; profissionalização do ator e carência de políticas públicas de acesso.

A formação teatral
Para começo de conversa, uma idéia fundamental: estudar artes cênicas não dá nenhuma garantia de talento para quem almeja a atividade teatral. O mote, puxado por Haroldo Serra, instiga o debate. "Se você tem talento e faz pesquisa, você se torna mais capaz, mas a renovação é muito mais lenta do que as pessoas imaginam. Numa turma de 30 ou 40 estudantes, se sai alguém talentoso já é uma vitória imensa", provoca Haroldo, ao mesmo tempo em que não descarta a importância de constantes cursos.

A opinião é consenso no grupo. Qualidade artística não é fruto de formação. No entanto, a pesquisa está inerente ao fazer teatral. "O ator é um laboratório do mundo, do ser humano, mas ele precisa de metodologia e de intuição. Talento sem pesquisa se dispersa, não se foca, não se objetiva. O ator precisa ser um pesquisador dele mesmo", ressalta Ricardo Guilherme.

E quando ele fala em pesquisa, ou estudo teatral, não se limita às questões formais de academia e universidade. "O ator é o alquimista que faz dele próprio a alquimia, mas quando a escola é boa, ela te permite, ela cria condições, mas não garante nada de talento. Só conhecimento não faz um ator", pondera.

Nesse caso, até o autodidatismo vale. Não há, porém, como negar que por meio de uma universidade, com bolsas e pesquisas, seja possível produzir linguagens, mergulhar em outro universo. Fran Teixeira acredita que a atitude de pesquisa deve ser fomentada pela escola e conclui: "todo ator deve ser um pesquisador da atividade cotidiana, como um jeito de ver e estar no mundo".

A cena local
A atividade de pesquisa e o pensar teatral mexem diretamente no cenário local. Rafael Martins reforça que um ponto fundamental no teatro é um intermédio entre a selvageria necessária do ator se portar fora da regra. Embora não seja o estudo responsável por isso, ele pode oferecer caminhos. "No Ceará, tem dado certo é a sua auto-investigação. As experiências que vão mais longe são as que entendem o ofício de ator, mas dão vazão à selvageria do corpo", explica.

Os constantes debates, segundo Fran Teixeira, têm interferido na produção atual. Desde 2002, quando voltou a Fortaleza, ela percebe uma efervescência na produção local, principalmente pelo resultado colhido após a experiência do extinto Colégio de Direção, do Instituto Dragão do Mar. Acolhido por esta experiência, Rafael Martins reforça a importância do curso por não ter formado apenas atores, mas diretores e autores de teatro.

Dividido desta forma, formando autores, atores e diretores, Ricardo Guilherme acredita que o Colégio de Direção possibilitou certa autonomia para seus egressos. Os demais cursos existentes no Estado, até então, formavam só atores. Mas, para ele, o processo de renovação do teatro cearense é constante. O Curso de Arte Dramática da UFC (CAD) lança uma nova safra de atores a cada três anos. "Mas os alunos do CAD são sempre dirigidos por um determinado professor. Depois de formado, eles vão conquistar autonomia, aí o resultado é de longo prazo".

Definitivamente, formação não é um problema para o cenário local. E para apimentar o debate, Haroldo começa a apresentar alguns problemas para quem ousa fazer teatro no Ceará. "Aqui você tem N problemas: pautas de teatro, teatros vazios, temporadas inconstantes. Uma coisa, eu tenho como certa: é impossível ter um movimento contínuo se não tem espaço para permitir isso", reforça Haroldo e completa incisivamente "não existe ator profissional no Ceará. Aqui não se paga ensaio, nenhum grupo consegue se mantém com os espetáculos". Aí, o nó engodou.

Profissionalização
Já dizia o dito popular, desgraça pouca é bobagem. Se o teatro cearense vai bem nos quesitos formação, discussão e produção, isso se dá aos trancos e barrancos. Por um lado, as experiências de boas formações, segundo Rafael Martins, contribuíram para congregar, convergir os artistas. "Esses encontros diários fazem surgir as inquietações grupais, desencadeiam movimentos de luta pela profissionalização. Não é apenas um sentimento artístico, mas também um sentimento de classe", reforça.

Mesmo com o acalento desta sensação, Haroldo, com a experiência de mais de 50 anos de palco, acredita não ser possível tão cedo formar um teatro profissional no Ceará. "Um turista daqui vai ao Rio de Janeiro e assiste ao teatro, mas um turista carioca, no Ceará, não vai ao teatro. Ele acha que aqui não tem nível, mas não é verdade, aí prefere comer caranguejo e dançar forró", revolta-se.

Para engrossar ainda mais o caldo, existe, segundo Haroldo, muitos atores talentosos que não fazem parte do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões (SATED), que exige 80% do elenco sindicalizado para entrar em cartaz. Ora, se a maioria dos atores do teatro local são amadores, como resolver esse impasse? O silêncio reina e ninguém quer se meter na querela interna.

Uma compensação existe para aqueles que estudam e acreditam no fazer teatral. A opção de mercado emergente nos últimos anos de profissionalização de teatro está em se tornar professor e garantir o sustento. Atualmente, a única graduação que lança profissionais no mercado de artes cênicas no Ceará é o Cefet. E se antes a grade curricular se voltava para tecnólogos, por demandas locais, o curso passa este ano a ser de licenciatura, formando novos atores e professores de teatro.

Distante do sonho de ator profissional, com horas de ensaios pagos, os espetáculos cearenses não conseguem se sustentar por eles mesmos. Necessita-se da garantia de acesso ao público e constantes exibições pela cidade ou pelo Estado. E quem vai lotar os teatros cearenses?

Políticas de acesso
"Não existe carência de público no Ceará, existe público carente", enfatiza Ricardo Guilherme e completa que, sem políticas públicas eficientes para as artes cênicas, não se mudará o cenário local. Com as ascensão das formações na cidade e no Estado, Rafael Martins acredita ter havido uma inserção de grupos no mercado. "Hoje existe uma identificação, por exemplo, com os espetáculos da Bagaceira ou do Ricardo Guilherme. Mas isso não sustenta atores. Além da formação, precisa-se de condição para formar um público", pondera.

O público, para Fran Teixeira, até existe e lida de forma dialética com a produção local. No entanto, a garantia de público, algumas vezes, nem sequer consolida uma economia teatral. A relação, para Haroldo, é cruel. "Ora, tanto faz você produzir uma peça com 50 pessoas ou um monólogo, o preço do ingresso tem que ser o mesmo, para poder garantir o público. Aí, não tem como manter o grupo. É preciso uma política de manutenção, só esses editais não dão conta".

Uma alternativa seria, para Ricardo Guilherme, o Estado arcar com a circulação da produção local. "Mesmo com todas essas dificuldades, nós estamos produzindo muito. No dia que o governo disser 'vamos apresentar', vão ter quatro peças todo o dia para a população. Como é que uma cidade, com mais de 2,5 milhões de habitantes, fala em carência de público? Eu repito, existe público carente. Essas pessoas têm o direito de acesso à cultura".

Iniciativas semelhantes à proposta de Ricardo Guilherme até já existiram, lembra Haroldo Serra. "Mas com as mudanças de governos, muda tudo. Não existem políticas de continuidade. Outro problema também é não haver gente do teatro participando das gestões públicas, é sempre de cima para baixo".

E sem política de acesso ao teatro, as atividades ficam mais mansas e deixa até algumas casas de espetáculos inativas. Ricardo Guilherme lembra do Teatro Antonieta Noronha, da Emcetur e até o próprio Teatro Universitário. Esses não possuem rotina de espetáculos. Com palco inativo e público carente, Rafael Martins conclui: o destino daqueles que almejam se profissionalizar como ator é arribar para outros estados e arriscar a vida. "Agora, já não é mais nem atores sozinhos que se vão, são companhias inteiras indo embora", conclui Rafael.


Quem é Quem

Fran Teixeira - Coordenadora do curso de graduação de Artes Cênicas do Cefet, participa dos movimentos teatrais de Fortaleza, desde 1997. Dirige o grupo Teatro Máquina e está em processo de montagem do espetáculo O Cantil. Fran vem se dedicando, há alguns anos, ao estudo e pesquisa do teatrólogo alemão Bertolt Brecht, uma de suas principais influências de linguagem cênica.

Rafael Martins - Ator e autor de teatro, está envolvido com o palco há 17 anos. Começou ainda no colégio. Participou do extinto Colégio de Direção, do Instituto Dragão do Mar. É fundador do Grupo Bagaceira e autor de peças como O Realejo, Lesados, O Auto da Cobra e En Passant. Atualmente, coordena o projeto Pausa Dramática, no Centro Dragão do Mar, no qual apresenta peças e promove debates sobre linguagem cênica.

Ricardo Guilherme - Professor do Curso de Arte Dramática da UFC (CAD), é um dos atores de maior prestígio não só no Ceará. Possui quase 40 anos de carreira teatral, como ator, diretor e autor. Em 1988, desenvolveu o movimento do Teatro Radical, linguagem com vários adeptos no Estado. A maioria de sua atuação se consolida como monólogos, com destaque para montagens recentes como A Divina Comédia de Dante e Moacir, Bravíssimo e Flor de Obsessão.

Haroldo Serra - Responsável pela Casa da Comédia, um curso de informação sobre teatro, situado no Parque Araxá, é um dos antigos atores cearenses. Possui quase 60 anos de carreira. Destes, mais de 50 dedicados à Comédia Cearense. É contemporâneo de outros nomes como B. de Paiva, Hugo Bianchi, Marcus Miranda e Hiramisa Serra, sua mulher. É responsável por montagens consagradas com Morro do Ouro e a Rosa do Lagamar, ambas do dramaturgo cearense Eduardo Campos (1923-2006).

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