Luciano Almeida Filho
da Redação
Milton Nascimento e o Jobim Trio se reuniram para gravar disco comemorativo dos 50 anos da bossa nova. Mas o repertório também trafega por clássicos dos tempos do Clube da Esquina e os arranjos dão novas perspectivas às composições, principal no universo jobiniano
22/03/2008 00:11

O que leva você, amante da música brasileira por excelência, a comprar um CD cujo repertório é marcado em boa parte por clássicos pra lá de óbvios como Chega de Saudade, Samba do Avião, Caminhos Cruzados e Cais? E que ainda mais traz um título óbvio como Novas Bossas? Bem... talvez o nome de Milton Nascimento estampado na capa, dividindo os créditos com o Jobim Trio (a saber, Paulo e Daniel Jobim e o baterista Paulo Braga) já lhe seja o bastante. A chancela de Milton é fundamental, mas o próprio já fez discos de intérprete onde deixou a desejar - como Crooner, de 1999.
Projeto idealizado para se integrar às comemorações de 50 anos da bossa nova, começou a ser gestado, na verdade, quando Tom Jobim ainda era vivo. Estava na agenda do maestro soberano a gravação de um disco com Milton no ano 1995, mas Jobim abreviou sua estadia entre nós e foi compor nos céus em dezembro de 1994. Mas Milton e os Jobim nunca perderam o contato que é bem anterior - Paulo Jobim colaborou em Clube da Esquina 2 (1978), seguindo na turnê subseqüente, levando a tiracolo o pequeno Daniel, então com três anos. Quando Paulo e Mário Adnet realizaram o concerto Jobim Sinfônico (2002), Milton foi um dos primeiros convidados. Com Paulo Braga, a amizade remonta os primórdios, afinal ele estava lá com Wagner Tiso na formação do Berimbau Trio, grupo mineiro inspirado nos trios de bossa nova que teve Milton como baixista, no início dos anos 60.
Em 2007 aconteceu o reencontro definitivo quando juntos, Milton Nascimento e o Jobim Trio, realizaram show no Jardim Botânico dentro da programação de comemoração dos 80 anos de Tom Jobim. Assim foi sendo pensado o disco que marcaria em definitivo a parceria. O primeiro fruto gravado foi Samba do Avião, que entrou inclusive para a trilha sonora da novela Paraíso Tropical. Enquanto os personagens da ficção Bebel e Olavo aprontavam em Copacabana, os quatro protagonistas (e mais o baixista convidado Rodrigo Villa e o engenheiro de som Chico Neves) iam dando rumo ao que se tornou o CD Novas Bossas.
Dias Azuis
Sim, mas por que mesmo este disco deve entrar ou não para sua discoteca? Para além de todas estas razões, Milton e o Jobim Trio deram liga que há muito não se via/ouvia na música popular brasileira. Vamos começar pela única composição mais nova do CD, Dias Azuis, uma composição de Daniel Jobim, praticamente inédita no Brasil já que havia sido gravada antes apenas pelo guitarrista Lee Ritenour há dois anos num CD não editado por aqui. A canção mescla bem os climas entre a bossa nova e os sons mineiros a la Clube da Esquina. Uma belíssima melodia e letra tocante interpretada em dueto de Daniel e Milton, que não se inferioriza frente aos clássicos presentes.
E os clássicos, sobretudo, ganharam novos arranjos de rara beleza, cheio de delicadezas e filigranas que vão muito além do óbvio. A começar por Tudo que você podia ser, faixa que abriu o clássico Clube da Esquina (1972). Esta ganhou uma versão mais suave, sem o pique roqueiro da original, mas plena de sua essência. Outros clássicos do repertório de Milton também entraram como Cais, que ganhou mais suingue num belíssimo trabalho de Paulo Braga na bateria e Daniel ao piano, e Tarde que está mais forte e emocionada aqui. Até O Vento, de Dorival Caymmi, ganha nova perpectiva na voz poderosa de Milton.
Na seqüência, o disco mergulha no universo do principal homenageado do projeto, Tom Jobim. Duas faixas, Brigas Nunca Mais e Inútil Paisagem, nos remetem ao disco clássico do próprio Tom Jobim com Elis Regina. A melancólica Caminhos Cruzados talvez seja a única interpretação mais próxima do burocrático que Milton impõe neste disco. Mas quem imaginaria um trem mineiro levando Chega de Saudade para paisagens distantes da obviedade. Saindo só um tiquinho dos trilhos jobinianos, Medo de Amar, letra e música de Vinícius, é um dos pontos altos do CD em dueto de Paulo e Milton. E surpreende também a escolha de três temas menos óbvios do universo de Jobim: Velho Riacho, Esperança Perdida e Trem de Ferro.
Para além de todos esses argumentos, vale uma dica: ouça o CD numa aparelhagem de qualidade, tipo 5.1, e veja saltar aos ouvidos a extrema acuidade do som, em especial a captação de som da bateria genial de Paulo Braga que dá um verdadeiro show de inventividade e sutileza que engenheiro de som Chico Neves soube captar com raro brilhantismo. Novas Bossas tem tudo para ser o grande CD das comemorações de 50 anos da bossa nova. E ainda há condições plenas de ganhar o Grammy de world music por todas estas qualidades implícitas.
SERVIÇO
Novas Bossas - disco reunindo Milton Nascimento e Jobim Trio. Produção: Milton Nascimento, Jobim Trio e Chico Neves. Lançamento Nascimento/ EMI Music. 14 faixas. Com letras. Preço médio: R$ 36.
DISCOGRAFIA
MILTON NASCIMENTO
Milton Nascimento (1967)
Courage (1969) *
Milton Nascimento (1969)
Milton (1970)
Clube Da Esquina (1972) com Lô Borges
Milagre Dos Peixes (1973)
Milagre Dos Peixes Ao Vivo (1974)
Minas (1975)
Native Dancer (1975)* com Wayne Shorter
Milton (1976)*
Geraes (1976)
Clube da Esquina 2 (1978)
Journey To Dawn (1979)*
Sentinela (1980)
Cacador De Mim (1981)
Ãnima (1982)
Missa dos Quilombos (1982) com Pedro Casadalglia e Pedro Tierra
Ao Vivo (1983)
Encontros E Despedidas (1985)
Corazón Americano (1985)* com Mercedes Sosa e Leon Gieco
A Barca Dos Amantes (1986) ao vivo com Wayne Shorter
Feito Nós/ Homo Sapiens (1987) com RPM
Yauaratê (1987)
Miltons (1989)
Txai (1990)
O Planeta Blue Na Estrada Do Sol (1992) ao vivo
Angelus (1994)
Amigo (1995) ao vivo
Nascimento (1997)
Tambores De Minas (1998) ao vivo
Crooner (1999)
Gil & Milton (2000) com Gilberto Gil
Maria, Maria/ Último Trem (2002) trilhas de ballet
Pietá (2002)
Novas Bossas (2008) com Jobim Trio
DVDs
A Sede do Peixe (2002)
Tambores de Minas (2002)
Ser Minas Tão Gerais (2004)
Pietá Ao Vivo (2006)
FAMÍLIA JOBIM
Nova Banda (1993) com Família Jobim
Quarteto Jobim-Morelenbaum (1999)
Casa - Tribute to Jobim (2002) com Morelenbaum2/Sakamoto
A Day in New York (2003) com Morelenbaum2/Sakamoto
Jobim Sinfônico (2003) com Mário Adnet e Paulo Jobim
Falando de Amor (2005) com Paulo Jobim, Daniel Jobim, Nana Caymmi Dori Caymmi e Danilo Caymmi