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Ex-mutante lança Rebelde Entre Rebeldes


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20/03/2008 00:22

Arnaldo Baptista, músico (Divulgação)
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Arnaldo Baptista, músico (Divulgação)


Além de uma música revolucionária, que mudou a face dos anos 60 e ecoa ainda hoje, o ex-Mutante Arnaldo Dias Baptista faz desenhos, quadros e camisetas que dá de presente aos amigos. Agora, uma nova faceta de sua carreira multimídia vem à tona: a literatura. A Editora Rocco lança no início de abril o livro Rebelde Entre os Rebeldes, uma ficção científica de Arnaldo que foi escrita há mais de 20 anos, mas permanecia inédita.

Tem um disco antigo do gaúcho Ney Lisboa, uma espécie de Tom Waits sulista, intitulado Pra Viajar no Cosmos Não Precisa Gasolina, de 1983. Não há expressão melhor para definir a ficção de Arnaldo Baptista. A viagem interplanetária do Príncipe do País dos Baurets é totalmente delirante, uma espécie de Star Wars hippie, escrita num ritmo e numa linguagem que não existem mais, de tão delicados e fluentes.

"Eu não sei se essa experiência já ocorreu com você, leitor, mas às vezes estou andando ao lado de um amigo em plena Avenida Nossa Senhora de Copacabana ou qualquer outra grande avenida, com a fortíssima materialidade das lojas me levando a só acreditar no que se vê, e apesar disso, sinto algo especial", escreve Arnaldo.

Arnaldo Dias Baptista quase morreu, em 1981, ao cair da janela do quarto andar de um hospital psiquiátrico. Nas páginas desse livro, seu personagem relata uma rotina contemplativa na grande cidade, que se resume a discutir tecnologia e misticismo com amigos e ouvir programas das Rádios Cultura e Eldorado - de vez em quando, uma passada pela Companhia de Discos e uma ida a São Lourenço para esperar discos voadores.

"Cheguei à conclusão de que se eu fosse capaz de atingir a antiga pureza, poderia realmente me tornar um cientista ou um músico de rock", diz a certa altura o protagonista de Rebelde Entre os Rebeldes. "Tudo bem, admiro a grandeza que há por trás do inexplicável. A poesia e a música servem justamente para isso, explicar o indizível."

O resultado é essa ficção retrofuturista que acredita no caráter transgressivo e transcendente da música, que parece prima-irmã de "Barbarella" e que se assusta com a violência da era atômica pós-Hiroshima e Nagasaki. Arnaldo é um combatente anti-racionalista desde a mais tenra idade. No seu apego "a tudo que foge ao universo visível" está uma estratégia de revalorização humanística, que é muito bem-vinda.

Em maio de 2006, ao lado de seu irmão Sérgio Dias, Zélia Duncan e Dinho Leme, Arnaldo ressuscitou por um breve período, um ano, o sonho psicodélico chamado "Mutantes". Durou pouco, mas reanimou um pequeno exército de maluquetes bacanas. Com seu livrinho temporão, mais eflúvios virão à tona.


TRECHO
"Tenho a consciência de que tudo o que sonho pode um dia vir a ser realidade: a casa, os filhos, o cão collie, um grande órgão no qual poderei tocar nas noites de tempestade... uma vida toda de delícias. É claro que com isso eu estaria jogando fora meus sonhos de aventuras na África e até a idéia de me tornar um palhaço!
Confessando a mim mesmo meus sonhos mais secretos, pode ser que eu esteja adocicando minhas entranhas mentais com paliativos, bumerangues pensamentais que me levem a lugares longínquos só para depois me devolver são e salvo à casa, nas asas de entidades comportamentais peterpanescas como a fada Sininho.

Cogitei em ir até o porão e construir algo até então jamais tentado. Teria que ser algo poderoso. Algo que fosse ao mesmo tempo uma contribuição para a humanidade e um divertimento para mim. O primeiro passo seria alargar o porão da casa, poderia fazer uma espécie de salão interno de pesquisas, todo forrado de cimento armado, para o caso de uma possível explosão atômica".


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