Regina Ribeiro
da Redação
Sai no Brasil o último livro do filósofo austríaco André Gorz, pela Cosacnaif e Annablume. Carta a D. a História de um Amor é uma homenagem de Gorz à sua mulher, Dorine
15/03/2008 00:52

O livro começa com uma declaração de amor desconcertante: "Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta anos e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher". Carta a D. História de um Amor, do escritor, filósofo e jornalista austríaco André Gorz, recém-lançado no Brasil, e que teve a primeira edição esgotada em uma semana, é um desses livros que têm um efeito devastador sobre a mente e o corpo. Que se impõe mais pelos sentimentos que dele emergem que das palavras ou da forma que dá vida ao relato simples, comovente, cortante.
O amor é o personagem principal de Carta a D. No livro, Gorz faz uma espécie de acerto de contas apaixonado, ao mesmo tempo em que faz uma homenagem à esposa, Dorine, que sofria há anos depois que o produto usado como contraste num exame de um raio x da coluna a deixou doente e sofrendo com dores terríveis. "Eu ouvi o médico tranqüilizá-la: 'Você vai eliminar esse produto em dez dias'. Oito anos depois, uma parte do líquido tinha subido até as fossas cranianas, e outra formara um cisto na região cervical", escreve Gorz. Começaram a lutar contra a doença, mas foi Dorine quem comandou o próprio corpo. "Você não tinha mais nada a esperar da medicina. Recusava-se a se acostumar com os analgésicos e a depender deles. Decidiu então assumir o controle do seu corpo, da sua doença, da sua saúde, tomar o poder sobre a sua vida...". Sim, Dorine, mais uma vez os envolvia com sua força serena.
Havia sido assim desde o primeiro encontro em 1947 quando um rapaz, judeu austríaco, vê pela primeira vez, em Paris, uma moça inglesa inteligente, bela e bem humorada. "Quando nossos olhos se cruzaram, eu pensei: 'Não tenho nenhuma chance com ela'". Um mês depois a encontrou, por acaso, na rua, correu para alcançá-la e a convidou para dançar. "Você simplesmente disse sim, why not". Em pouco tempo estavam dividindo uma cama de solteiro num cubículo em Paris, enquanto Gorz, ganhando pouco, ou nada, e escrevia por seis anos o seu primeiro Essai. Enquanto isso era Dorine quem tinha emprego, salário, um grupo de teatro, amigos. Quase 60 anos depois Gorz pergunta a si mesmo: "Por que você está tão pouco presente no que eu escrevi, se a nossa união é o que existe de mais importante na minha vida? Por que, em Le Traire (livro lançado em 1958), passei uma falsa imagem de você, que a desfigura?"
André Gorz foi um filósofo contemporâneo de Jean-Paul Sartre, atuou como um dos organizadores do movimento de Maio de 68 francês, foi um dos pioneiros nos estudos de ecologia política. Um filósofo militante. Entrou no jornalismo em 1951 no Paris-Press, depois foi para a revisa L´Express, em seguida foi co-fundador do Le Nouvel Observateur. Trabalhou com Sartre, de quem foi amigo, na revista Temps Modernes. Em todo esse tempo Dorine se tornou a guardiã de dados para as pesquisas que Gorz fazia antes de escrever os textos. "Nós tínhamos, eu e você, adquirido a fama de inseparáveis. (...) Fizemos juntos quase todas as reportagens que realizei na França e no exterior. Você me fez tomar consciência dos meus limites".
Outro começo
Foram necessários 58 anos para Gorz reconhecer que o amor sempre escolhe os atalhos. "Preciso reconstruir a história do nosso amor para apreender todo o seu significado. Ela foi o que permitiu que nos tornássemos o que somos; um pelo outro, um para o outro", afirma ele no livro, para depois sugerir que, mesmo de forma incompreensível, ele negou-se a admitir os próprios sentimentos e a dependência afetiva que Dorine exercia sobre ele, mesmo que para ela isso fosse apenas felicidade. Ele preferia o emaranhado teórico que alimentava seus ideais, ela preferia sempre a simplicidade para lidar com os mesmos ideais. Ainda assim em Le Traire Gorz transfigurou substancialmente Dorine. "Por que falo de você com uma espécie de condescendência leviana? Por que no pouco espaço que lhe dou, você aparece desfigurada, humilhada?".
É essa história que Gorz tanto quer reparar em Carta a D. Nele, o autor abre mão de toda possibilidade de nublar o sentimento que norteou sua vida desde aquele encontro casual no inverno parisiense de 1947. Os últimos anos de Gorz e Dorine foram passados no campo, numa casa rodeada pelas 200 árvores plantadas por Gorz. "Estou atento à sua presença como estive desde o início, e gostaria de fazê-la sentir isso. Você me deu toda sua vida e tudo de si; e eu gostaria de poder lhe tudo de mim durante o tempo que nos resta". Carta a D. foi publicado na França em 2006. Vendeu 100 mil exemplares na primeira semana após o lançamento. Em 23 de setembro do ano passado Gorz e Dorine se suicidaram. Nas últimas linhas de Carta a D., Gorz havia escrito: "Nós desejaríamos não sobreviver a morte do outro. Dissemo-nos sempre, por impossível que seja, que, se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos".
SERVIÇO
Carta a D. História de um Amor. De André Gorz. Annablume e Cosacnaif. R$ 29,90. 78 pgs.