Ela é uma rainha. Eles, seus escravos, suas propriedades, mas cada qual com seus dengos, seus fetiches. Ela ama o amor que eles podem lhe dar
15/03/2008 14:16
Segunda-feira. Uma mulher de meia idade entra no sex shop, dirigi-se à plateleira de filmes pornôs e, em meio a monotonia de loiras peitudas arreganhadas, pega o DVD Puck - o duende perverso. Um filme, sem sinopse, baseado na obra do clássico poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare.
- "Você tem algum filme de sadomasoquismo?", pergunta à Amanda, balconista e dona da loja, depois de constatar que a perversão de Puck não é o que procura.
- "Ah, não. Nunca tem coisa boa desse tema. Eu também tenho muito interesse nele", responde Amanda.
No primeiro pedido de produtos que fez para abrir a loja, há 10 anos, caprichou nos artigos sadomasoquistas. Arreios, chicotes, cintas, plugs. Estava conhecendo e tinha muita curiosidade nos instrumentos. Havia apenas um sex shop na cidade. Ela aproveitou que estava fechando sua pousada e mudou de ramo, abriu sua loja, mesmo tendo medo de entrar em uma. "Eu era como qualquer senhora da minha idade, tinha medo, vergonha. Eu tinha vergonha do que ia encontrar lá dentro".
"O primeiro sex shop que eu entrei foi o meu. Eu abri um sex shop pra entrar", brinca. Hoje, ela, 44 anos, faz uma leitura dos hábitos sexuais dos fortalezenses por trás de seu balcão. "As pessoas que entram aqui são as pessoas mais mamão com a açúcar. Meninas de 20 e poucos anos, até 40, que vêm comprar coisas para o namorado. Esse é o primeiro cliente, o mais freqüente. Depois são casais que vêm juntos. Quem compra mais é mulher. Quando vem três mulheres, não compram. Daí voltam sozinhas. No casal, geralmente, é ela que escolhe.
Levam brinquedinho, já estão levando pênis também. Tem hora que junta aqui um monte de homem, eles estão tudo à vontade, mas se entrar uma mulher... Eu já vi várias vezes essa cena. Não foi uma vez, não. Ela entra, chega aqui: 'Sabe aquele pênis, ali'. Compra na boa e eles ficam tudo sem jeito, se não saírem", conta.
Antes, chegavam a ligar para ela perguntando se era necessário tirar a roupa pra entrar. "Isso já é um fetiche", emenda Carlos Henrique, sobre a pergunta. Conversamos na sex shop, dois dias depois da festa, nos intervalos de ausência de clientes. Ela continua: "Eu lembro que uma coisa que aparência muito aqui era menina branca dizendo: 'Ó, meu namorado quer que eu penetre ele', achando que o namorado era gay. Hoje, não. Vem o casal, compra um pênis. Ou vem ela sozinha: 'Aí, ele me pediu, eu vou comprar, porque ele quer que eu penetre ele'.
O homem não muda, talvez mude com a parceira, entre quatro paredes. Eles só compram produtos que retardem a ejaculação, que ajudem a ereção e esse que ajuda a aumentar o pênis. O homem ainda tá achando que o negócio é penetrar".
Ela fala com propriedade. Em São Paulo, no fim dos anos 1970, transou em profusão, carregando a bandeira da geração de quebra de tabus. "A gente transava de boa. Eu digo que transei com metade da lista telefônica de São Paulo. Eu digo isso, porque eu conheço a menina que transou com a outra metade. Mas eu fui ter o primeiro orgasmo com 32 anos, porque a gente não tinha educação sexual. A gente transava mas não sabia o que tava fazendo.
Hoje, as meninas sabem o que tão fazendo, eu percebo aqui. Eu só sabia abrir as pernas e eles também só sabiam fazer isso. Nunca gostei muito de penetração, que é uma coisa complicada pra dizer a um companheiro. Eu fazia uma viagem de como eu estivesse sendo submetia, daí eu tirava prazer, mas, se fosse a penetração pela penetração, não ia me dar isso. Muitas coisas que eu imponho a ele (referindo-se à Henrique, próximo), na verdade, são coisas que talvez eu gostaria que fizessem comigo, mas que eu não tenho coragem. Na hora, minha fantasia sexual era de que eu tava me submetendo ao homem. Eu imaginava que era isso. Alguns, de vez em quando, topavam algumas brincadeirinhas que eu inventava, mas não tinha nome pra isso, eu achava esquisito. O que eu não sabia é que exista o BDSM saudável".
Profania
SadoMazela é o host da noite, algo como um recepcionista performático. É responsável por receber as pessoas, descontrair e regular o dress-code: quem vir vestindo algum fetiche, recebe um vale verde, indicando ingresso mais barato; todos de preto, amarelo; e comuns, em cores, jeans e afins, um papel vermelho.
Vão pagar mais caro. Muitos chegam tensos, encurtam o quanto podem o diálogo com o host, que tenta, extravagante, erotizar a noite com piadas como a do seu querido Benjamin, um pênis preto de borracha, base de seu chicote. "Vou dizer, o cara que tiraram essa fôrma aí é um animal", diz sincero. "Quando eu vi isso aqui na loja, eu pensei: 'Não! Vou ter que usar isso aqui como apetrecho performático'. Minha mãe ficou chocada. - 'Olha, aí mãe'. - 'Sai com as tuas imundices daqui, seu tarado, ateu.' Mas ela dá mó valô, brinca com a minha cara, mas acha legal minhas manifestações artísticas desviantes", fala como um personagem fanfarão cínico.
A Kubalada é uma boate dedicada normalmente ao público de swing, casais que buscam trocar os parceiros. Curiosamente, localiza-se em frente à casa que serviu de fachada para o cinematográfico assalto ao Banco Central - à época ali funcionava uma sauna gay. Naquela sexta, muitos chegaram sem entender claramente o porquê de um homem naqueles trajes ali. Uns dois estrangeiros chegaram apressados. Levaram a ficha vermelha.
"Talvez essa festa sirva até pra popularizar, porque tem muita gente enrustida que parece que tem que dá uma de macaco de imitação pra se motivar. 'Não, eu vi fulano fazer, então posso'. Aí é bom às vezes o negócio acontecer, cara, que muita gente que tá contida vem à tona mesmo, gosta, assume a prática", fala.
Lá dentro, Amanda anda sobre salto fino, próprio para apoiar a ponta nas costas de subalex {RF}, nick de Tiago no universo SM, usados na Internet e, presencialmente, como mais uma composição do próprio personagem de si. Os colchetes representam a submissão à Rainha Frágil. Ele se ajoelha para lamber sua bota, enquanto sente, junto à tudo mais, as lembranças do acidente de moto. O joelho direito de Tiago é trincado de cicatrizes, por isso a preocupação da dona com a saúde de seu escravo. Ele não pode se demorar ajoelhado, pelas seqüelas do acidente. Mas adora lamber bota e pés dela, mesmo que eles tenham marcas de graves queimaduras de um acidente de carro que Amanda sofreu, quase morre.
"Eu sempre fui muito bem resolvido como submisso", diz Tiago com seu sotaque de potiguar. Mora em Natal, onde trabalha como odontólogo. "Eu me sinto assim desde os meus 14 anos de idade, mas como a sociedade é muito fechada e não tinha o advento da Internet, eu vim me descobrir cinco anos atrás, hoje eu tô com 36. Eu via assim muito vagamente as pessoas falarem, nada que fosse assim muito completo, mas quando eu comecei a entrar na Internet, quando eu comecei a freqüentar sala de bate-papo BDSM, eu comecei a conhecer pessoas que me ajudaram no início". Isso foi há uns cinco anos.
Tiago veio a Fortaleza somente para a festa, produzida por sua dona. A festa é uma das primeiras do gênero na cidade. Os dois possuem uma relação de alguns meses, que começou, como muitas, em um sala de bate-papo na Internet. Ele impressionou a Rainha Frágil pela sua abordagem. Normalmente os submissos chegam para teclar com ela afoitos: "Posso beijar teu pé!?". Algo parelho a um homem chegar, cara de pau: "Vamos transar!". Eles conversaram sobre política, música, novela, cotidiano. Aqui e ali, uma deixa. "É uma paquera iguazinha até o momento de fazer o sexo, de ir pra cama", compara Rainha.
Escravo
ideiafix {RF} está preso, feminizado. Tempos atrás, ele começou a mandar alguns contos sobre feminização. Carlos Henrique sempre gostou. Amanda, não muito. Mas ela leu um que lhe excitou, e fez com que a prática de forçar o escravo a se vestir como mulher fizesse ela morder leve os dentes quando me contou isso. Pra ele feminização é a fantasia favorita. "Não me pergunte o porquê. Também não consigo encontrar uma explicação", escreveu por e-mail dias depois da festa. Outra das suas fantasias mais antigas é o cárcere. "Quando criança, adorava ser pego quando brincava de pega-pega".
Ela puxa sua coleira, ideiafix {RF} segue, com as algemas, como se seu corpo de 1,8 metros engatinhasse de pé. Ela o prende numa gaiola adequada ao tamanho, à vista do público da festa. Rainha Frágil tem controle sobre tudo. Conheceu, há mais de 10 anos, a sigla BDSM pela Internet, aliada a mais três letras: SSC (são, seguro e consentido). A descoberta foi trilhada pela Internet, nas salas de bate-papo. Carlos Henrique, em um desses dias, chegou suplicando. "Eu era muito galinha naquele tempo, pegava uma dona, aí ela dizia: 'Agora, você é só meu!'. 'Sim, senhora'. Depois ela saia, eu saia também, trocava o nick e voltava. 'Ajoelhe-se enquanto você digita!'. 'Sim, senhora', sentando. 'Tire a roupa!'. Esperava um pouquinho... 'Sim, senhora'", confessa o fingimento virtual hoje, com 28 anos.
Quando ele descobriu que ela também morava em Fortaleza, ficou ainda mais interessado. Mas, ela sumiu. "Eu pensava direto nela. E não conseguia entender por quê ela não me respondia. Sei lá, comecei a achar que tinha escrito algo que não devia - nos chats há muitas Dominadores que ditam o que o escravo deve ou não deve dizer - ou então que estava me testando. Escrevi vários e vários e-mails por um tempo e então desisti.", relembra.
Amanda havia sofrido um sério acidente de carro. Acordou dois dias depois, demorou para entender. Seu filho lhe contou que tinha sofrido um acidente, o carro pegou fogo e ela queimou 23% do corpo. Passou muito tempo internada, sem imaginar as mensagens enviadas por Tiago, até seu filho lhe dizer: "Mãe, chegou lá um e-mail que tem um cara deitado, amarrado".
Ele enviava fotos que encontrava pela Internet e subescrevia: "Se eu for seu escravo você pode fazer isso comigo".
"Desde criança, seis, sete anos, eu já tinha fantasias com SM, eu imaginava uma menina me usando como cadeira. Uma cena que eu vivo lembrando que era de um desenho que se passava em Beverly Hills, futurista, e tinha um motorista que era apaixonado por uma menina, e a menina era aristocrata, altamente patricinha, arrogante, e ela tinha planos malévolos para acabar com a mocinha. O motorista ajudava, e sempre que algum plano dava errado, ela descontava a raiva dela nele. Teve uma vez, uma cena que eu achei linda, até hoje fica na cabeça. É uma cena que ela abre a porta do carro e tem uma poça d'água e ele se joga e ela passa por cima dele. Eu achava lindo. Eu dormia pensando, transformava as cenas".
Henrique percebia, mas não entendia, nem se agustiava, até assistir, entre os 13 e os 14 anos, um reportagem na TV sobre sadomasoquismo. "Comecei a ler dicionário, enciclopédia, e geralmente era uma coisa negativa, 'distúrbio desviante' não sei o que. Eu pegava os pontos positivos". Aos 18 anos, com a Internet, topou com o BDSM. "Foi um tijolada, de repente, eu chego lá e já tem as regras. Eu ficava imaginando fantasias, fantasias, fantasias, e quando eu cheguo na Internet, eu vi que tem lugares próprios pra isso, tem regras", fala dando a dimensão do impacto do tijolo.
Prazer
Um dia depois da festa, Amanda estava tensa, praticamente sem dormir, obrigada a trabalhar logo cedo no sex shop. Calhou de Luciano, jornalista paulista, 42 anos, estar livre no dia. edgeh {RF}, seu nick, é escravo da Rainha Frágil. Além disso possui uma escrava, é um switcher, ou seja, ora masoquista, ora sádico. É como se Luciano vivesse três papéis. Três, porque ele também possui um casamento que poderia se chamar de "baunilha". "Minha mulher sabe que gosto e que pratico. E optou por ignorar o assunto - basta que eu não deixe mostras de nada, e tudo bem. Ou seja, é uma liberdade consentida. E como ela não suporta nem a idéia de sexo não-convencional, ficamos assim: faço as minhas coisas e evito que ela fique sabendo, embora ela tenha conhecimento disso", explica por e-mail.
Amanda aproveitou. "Eu tava com raiva, porque eu achei um monte de defeito na festa, não dormi, tive que trabalhar. Mandei ele fazer tudo no extremo. Ele gosta de retensão, ele é obrigado a reter a urina, ele gosta de ficar com a bexiga cheia, cheia, cheia, até o limite, e só alivia quando eu permito. E eu tava com essa tensão toda, então 'eu quero que você vá ao extremo, vai beber toda água que você puder'. Ele é todo da consensualidade. E nas regras do jogo eu não posso ir pra uma sessão com raiva, porque eu posso tá misturando sentimentos que são perigosos. Eu pensei que ele ia vir com um sermão. Aí passou um tempo e chegou a mensagem de celular: 'sim, senhora'.", contou. edgeh deu notícias de suas tarefas também por mensagens, depois de Rainha Frágil perguntar como estava. "Me agüentando". "Quase morto". Ele teve que reter por muito tempo a bexiga, além de ter de dormir com um plug de metal no ânus. "Fiz o que disse que faria para deixá-la satisfeita. E ela sabe que eu fiz mesmo - até porque meus próprios níveis de masoquismo não permitiriam que deixasse de fazer...", explica a confiança na dominação virtual.
Relação de Rainha Frágil com edgeh tem contornos mais sádicos, de imposição de sofrimento físico, deferente do perfil de submissão de ideiafix {RF} (dominadora-submisso). Os três são propriedades dela, não podem ter relações com outras dominadores sem a permissão da dona. "Eu não amo o amor dele. O que eu amo não é ele, é o amor que ele pode me dar", diz, referindo-se à Henrique, ao seu lado. "Eu acho que ela tá certa! (risos) Afinal de conta eu sou 'feito' de várias coisas. O amor que sinto por ela é uma delas e é isso que a tem fisgado por todos esses anos", concorda.
Com subalex {RF} a relação é de adoração e reverência, exatamente como um escravo apaixonado por uma rainha. Perguntei a Alex se ele conseguia explicar esse prazer. "É difícil colocar em palavras o que você sente no corpo, mas é uma sensação que liberta sua alma, você fica muito mais leve, você se sente bem, eu me sinto muito feliz. Se eu pudesse definir eu diria perfeito". Perfeito? "Perfeito", diz novamente, sem dúvida. "Existe a fantasia porque a sociedade não está preparada, mas eu sei o que eu quero, sei o que eu sinto e me realizo muito". (Pedro Rocha)
NA INTERNET
Um vídeo da Rainha Frágil ferminizando seu submisso ideiafix{RF} está disponível no site YouTube sob o título "Rainha Frágil - vestindo sua 'issys"
GLOSSÁRIO
Algolagnia - o ato de transformar a dor em prazer sexual. Um sinônimo para sadomasoquismo.
Baunilha - termo usado para indicar o sexo convencional. Pessoas que não estão envolvidas em BDSM.
Bondage - Bondage, na verdade, conforma as práticas de escravização. Popularmente usado para referir-se a atividades de imobilização com cordas, lenços, algemas de couro ou metal, tornozeleiras, spread bars (barras de alargamento que servem para manter pernas e braços abertos visando à imobilização do(a) parceiro(a). Todas as "cenas" de Bondage remetem ao tema básico: o cativeiro. Dentro dos grupos e comunidades de BDSM existe uma regra básica de segurança, definindo que imobilizações ou "amarrações" só são feitas do tórax para baixo. Cabeça e pescoço são áreas proibidas devido à possibilidade de asfixia.
Bottom - (Do inglês: bottom: fundo, inferior, nádegas) Termo em inglês para se referir ao submisso(a).
Breast Bondage - Ato de amarrar os seios femininos com corda, cadarço, bandagens, etc. Como parte de um jogo erótico BDSM. Pode incluir nipple bondage, onde se amarram os mamilos dos seios. Deve-se tomar cuidado com a amarração dos mamilos para não se provocar uma isquemia tecidual.
Cane - uma vara de bambu ou rattan, que geralmente tem entre 30 e 60 centímetros de comprimento. Muito utilizada pelos ingleses durante sua permanência na Índia, como instrumento de disciplina.
Cena - cena significa a atividade erótica BDSM propriamente dita.
Chibata - peça composta de um cabo e uma haste semi-flexível, normalmente utilizada para montaria. Consegue-se bastante precisão no spanking.
Cinto de Castidade - Aparelho fechado por cadeado ou outro dispositivo que outrora as mulheres usavam, principalmente na idade média, com a finalidade de impedir as relações sexuais. Dentro do BDSM os cintos de castidade tem aplicações temporárias, por horas ou dias, e normalmente são de couro ou um metal não oxidante. Visam impedir o contato sexual. Para os submissos homens existe um aparelho que envolve o pênis e torna a ereção extremamente dolorosa.
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