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artigo

Diversidade sexual patologia psiquiátrica

Bruno Dallacort Zilli
Especial para O POVO

Doutorando em Ciências Sociais, Bruno Zilli escreve sobre o diálogo histórico da abordagem da ciência para o fenômeno do BDSM


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15/03/2008 14:16

A sigla BDSM (bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo) engloba uma diversidade de atividades eróticas que são tradicionalmente classificadas como transtornos sexuais pela psiquiatria, e que entre seus adeptos são regidas e definidas pelo consentimento. A maioria das pessoas que não conhece o BDSM está familiarizada com o termo sadomasoquismo. Durante o meu mestrado estudei a parte da psiquiatria moderna que trata dos transtornos sexuais, me deparando com a seção dos manuais de psiquiatria sobre sadismo e masoquismo. Ao mesmo tempo, descobri que as pessoas que gostam de praticar BDSM se encontram para trocar experiências e se organizam politicamente para combater o estigma e o preconceito que as perseguem. O mais curioso e o que me motivou a escrever sobre o tema foi perceber que a medicina, que considera doentes esses comportamentos sexuais, estava presente nos argumentos de legitimação do BDSM - e não apenas de forma negativa. Ou seja, na defesa do BDSM a medicina era usada como uma referência que ajuda, com seu peso científico, no argumento de que a prática do BDSM não é necessariamente doentia ou perigosa.

A principal característica do BDSM é a natureza consentida de suas atividades. Os praticantes defendem que mesmo que a forma como eles vivenciam a sexualidade pareça diferente para alguns, é sempre importante lembrar que todos os envolvidos estão de acordo com tudo que acontece. Ou seja, é da vontade da pessoa participar. No BDSM se utiliza, inclusive, regras para garantir o consentimento. Um exemplo muito importante é a safeword, uma "palavra de segurança" que ao ser pronunciada interrompe imediatamente qualquer atividade, garantindo que não se vá além do ponto que deixa a pessoa confortável. Outro argumento é que o BDSM deve ser praticado mantendo sempre em mente a segurança física e emocional dos participantes, tendo em vista que se brinca com os limites do corpo e das emoções. A idéia de que o BDSM é uma espécie de brincadeira erótica ou jogo sexual é muito comum. Ele é até mesmo entendido por muitos de seus adeptos como uma interpretação de papéis, e uma atividade BDSM também é conhecida como uma "cena". Mas seus defensores indicam que se deve respeitar o compromisso com a segurança e o direito de se escolher participar ou não. A seriedade com que é tratada a questão se reflete no conceito do "SSC", uma das siglas propostas para definir a atividade BDSM, que significa "são, seguro e consentido". São três fronteiras que ajudariam a definir o que é e o que não é BDSM. Somente as atividades que levam em conta a segurança física e mental, bem como o desejo de participar de todos os envolvidos, podem ser consideradas BDSM. E as atividades que não obedecem essas regras? E as pessoas que não respeitam o "não" dos outros ou que extrapolam os limites combinados de segurança do corpo e da mente? Para os praticantes do BDSM é nesse momento que entra a definição psiquiátrica. Mas como? O BDSM, até mesmo o praticado com as regras do SSC, não entra em contradição com a definição da psiquiatria que considera doentio o desejo de misturar sexo com violação? Bem, na psiquiatria também o consentimento se tornou uma distinção importante, pois ele é utilizado como critério diagnóstico para se determinar se uma pessoa tem ou não transtorno sexual. Por exemplo, somente se a pessoa não é capaz de controlar um impulso e age violentamente contra outra em contexto sexual, repetidas vezes, é que ela pode ser considerada como um indivíduo sofrendo do transtorno sadismo sexual.

Além disso, outro critério para diagnosticar alguns transtornos sexuais é também o sofrimento psíquico e/ou a incapacitação para o convívio sexual que ele causa na pessoa. Para os que defendem que a prática do BDSM através do SSC é saudável e segura, essas duas distinções que a psiquiatria traça são fundamentais. Eles argumentam que as atividades BDSM legítimas não transgridem esses critérios diagnósticos, e por isso o BDSM não pode ser definido como transtorno sexual. E que são transtorno sexual exatamente aquelas atividades que não seguem o SSC.

Bruno Dallacort Zilli é cientista social; mestre em Saúde Coletiva, autor da tese de dissertação A Perversão Domesticada: Estudo do discurso de legitimação do BDSM na Internet e seu diálogo com a psiquiatria, pelo Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); e doutorando em Ciências Sociais na UERJ.

GLOSSÁRIO

Contrato - Um acordo escrito e formal entre as partes (dom e sub) definindo direito e obrigações de cada um. Estes contratos não têm qualquer valor jurídico, mas algumas vezes são utilizados para definir relacionamentos.

Dominador(a) - quem assume o papel de controle no relacionamento ou na cena. Também pode ser chamado(a) de Top. Um dominador experiente também pode ser denominado Mestre.

Fisting - Inserção completa do punho na vagina ou ânus. Esta prática requer tempo, conhecimento mútuo, relaxamento e paciência.

Limites - As fronteiras das atividades no BDSM acordadas e conversadas entre dominador(a) e submissa(o), definindo o que e até onde uma prática, uma cena ou um relacionamento podem ir. Limites devem ser obrigatoriamente respeitados. O limite se aplica às regras, cenas, práticas, níveis de dominação e submissão, duração das cenas, etc.


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