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Luz sobre a revolução

Um dos maiores sucessos do cineasta Glauber Rocha é restaurado e chega aos cinemas em abril. O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de 1968, enfrentou diversos problemas no processo de recuperação

Amanda Queirós
da Redação

13 Mar 2008 - 01h46min

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(Divulgação)
Em meados dos anos 70, o cineasta Glauber Rocha decidiu exilar os negativos originais de seus principais filmes. Tinha medo de que a repressão do regime militar acabasse dando sumiço na matriz de suas obras. No entanto, não teve jeito de elas fugirem da destruição. Por ironia do destino, o laboratório que servia de residência para os rolos, na França, pegou fogo em 1973. O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1968) estava nesse meio. Rastrear o que havia sobrado das poucas cópias remanescentes foi tarefa quase detetivesca, mas vingou. Chutando as pedras no caminho, o filme mais acessível e conhecido do cineasta baiano conseguiu ser restaurado e será reapresentado pela primeira vez no Brasil amanhã, em Salvador, no dia em que Glauber completaria 69 anos. No fim de abril, ele restréia no cinema com três cópias em película e, também, com distribuição digital.

O Dragão da Maldade... reúne uma série de marcos na cinematografia desse expoente do Cinema Novo. Foi seu primeiro filme colorido e com som direto. O único a ser lançado comercialmente na Europa. Também foi por ele que o cineasta recebeu o prêmio de melhor diretor no cultuado Festival de Cannes e, por conta dele, foi convidado a atuar até mesmo em Hollywood. Mesmo assim, foi uma dificuldade trazê-lo de volta. De acordo com Paloma Rocha, filha mais velha de Glauber e responsável pelo projeto de restauração de suas obras, o resultado ainda apresenta falhas de sincronização ou de falta de quadros, mas foi o melhor possível nesse momento.

A única cópia existente em negativo estava na Alemanha e, ainda por cima, era dublada em francês, com legendas também em francês nas partes musicadas. O aúdio veio de uma cópia cubana, em preto e branco. "Esse foi um trabalho de sílaba por sílaba. Contamos, inclusive, com o apoio da Internet. No filme, Odete Lara canta Carinhoso, mas estava faltando o 'M' do verso 'Meu coração...'. Conseguimos esse 'M' em uma cópia pirata encontrada na Internet", afirma ela, por telefone, de Salvador, onde organiza a mostra multimídia Glauber, uma revolução baiana, na qual o filme vai ser exibido.

Com o apoio financeiro da Petrobras, a nova cópia foi recuperada em Londres, no Laboratório Prestech, pelas mãos João Sócrates, que já restaurou até mesmo Cabíria, clássico do cinema italiano. De acordo com Joel Pizzini, marido de Paloma e co-diretor de projeto de restauração, tudo foi feito "na tecnologia do Homem-Aranha", com resolução de quatro mil linhas de pixels, uma qualidade até então inexistente no Brasil e que possibilita maior nitidez da imagem. "Isso nos permitiu recuperar a cor original. O Affonso Beato, diretor de fotografia, chamava o filme de tropicolor, porque ele se inseria dentro de uma perspectiva tropicalista de saturar as cores primárias, o que é fundamental para o conceito original. Então, não se restaura só a matéria, mas também o conceito", explica Pizzini.

A restauração faz parte do projeto encabeçado pela organização Tempo Glauber, que cuida do acervo de documentos do artista e da preservação da memória de sua obra. Iniciado em 2001, ele já conseguiu trazer de volta Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em Transe (1967), que foram relançados em DVD com farto material de extras. Dessa vez, não é diferente. O Dragão da Maldade... sai em DVD já em maio também com documentários que contextualizam a época de lançamento do filme e esmiuçam o seu processo de realização.

"Isso é para jogar luz sobre os pontos obscuros da obra dele e, sobretudo, revelar o método de direção e produção do Glauber, que é sempre motivo de reflexão", diz Paloma. Além desse título, A Idade da Terra (1980) e Barravento (1960) também já estão restaurados, mas somente em cópia digital. Ainda falta dinheiro para transpô-los para película e continuar a recuperação das demais obras glauberianas. No entanto, o clima é mais de alegria do que de lamentação. "Os filmes do Glauber são praticamente inéditos no Brasil. A obra dele foi pouco vista por aqui e ainda não foi assimilada. É como se fossem filmes novos. Costumo dizer que a vanguarda está mesmo é na retaguarda", ri Pizzini.

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