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O 8 de março não existe


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08/03/2008 15:19


Mesmo distantes e sem se conhecerem, Lurdes, enfermeira na Guilherme Rocha, e Lourdes, funcionária pública aposentada e testemunha de Jeová na Praça dos Voluntários, concordam. A primeira acha que a mulher requer mais cuidado, mais atenção. É uma espécie de bibelô que se põe na cabeceira da cômoda. Lourdes vai no mesmo rumo. Para ela, afazeres domésticos são incompatíveis com os genes masculinos. Lurdes verifica a pressão arterial e o nível de glicemia de homens e mulheres que passam acossados pela correria do Centro. "Tem gente que pede pra sentar aqui no banquinho e descansar", conta. Por dia, infla a bolinha do estetoscópio e a aguarda secar pelo menos trinta vezes. Entre cadernos de cinco, dez e quinze matérias com estampas da Hello Kitty e pilhas de DVDs piratas, Lurdes Maria, 38 anos, revela: "Gosto de cuidar das pessoas". A explicação é uma só: mulheres são mais emotivas do que homens.

Lourdes, cujo sobrenome e idade permanecem incógnitos por decisão da entrevistada, aponta a edição de janeiro da revista Despertai!, exposta em um estande ao lado de outras publicações, e afirma: "Para Ele, não havia distinção entre homem e mulher". Ele, nesse caso, é Ele mesmo: Jesus Cristo, o filho de Deus. Na capa da revista, lê-se: "Violência contra as mulheres - qual é o conceito da Bíblia?". Dentro, Despertai! informa que Jesus não apenas mantinha um diálogo surpreendentemente horizontal com as mulheres. Ele também as curava sempre que julgasse oportuno. Caso de uma pobre alma que sofria com um fluxo menstrual imorredouro há doze longos anos. Ao tocá-lo, o sangue prontamente estancou. O milagre instaurara-se. "Por isso não comemoramos o Dia das Mulheres. A Bíblia não fala nisso. Para nós, assim como para Ele, todos os dias são das mulheres", detalha Lourdes. Entre risos, ela explica que o ano dos seguidores da doutrina das Testemunhas de Jeová tem apenas uma efeméride, que é comemorada quatorze dias depois do 8 de março. A data não tem nada a ver com operárias insatisfeitas ou marchas por direitos iguais. Nesse dia, 22 de março, Ele foi morto. Carnaval, Páscoa, Natal e todos os dias santos que muitos brasileiros tratam imediatamente de marcar com um círculo no calendário e esperar ansiosamente simplesmente inexistem para as testemunhas.

Mesmo distantes e sem se conhecerem, Heloísa Rodrigues, bibliotecária do Serviço Social do Comércio há 29 anos, e Francisca (sobrenome e idade incógnitos por decisão da entrevistada), funcionária pública, discordam aberta e frontalmente. "Acho que mulher não tem que se meter em política. Não é um mundo dela. Tem muita sujeira, muita falcatrua", diz Heloísa. Cercada pelos livros da unidade do Sesc na 24 de maio, ela define bem os papéis do homem e da mulher. Por trás dos óculos escuros, Francisca condena o machismo que pretende confinar as mulheres à copa e à cozinha do lar. Ao lado de Lourdes, com quem partilha a fé de testemunha de Jeová, ela esforça-se para elaborar respostas que dêem cabo do machismo doméstico e dos ideais feministas. "Eu concilio as duas coisas, a vida fora de casa, trabalhando, e o cuidado com a família." Francisca retorce-se na cadeira, incomodada. Em seguida, completa: "Mas admito que não é fácil. É uma batalha diária".

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