Ana Rita Fonteles
Especial para O POVO
A jornalista Ana Rita Fonteles reflete sobre a importância da imprensa na quebra de conceitos preestabelecidos sobre o papel da mulher na sociedade. Já a escritora Tércia Montenegro reflete sobre a tal 'literatura feminina'
08/03/2008 15:19

Seria impossível falar sobre o que temos, principalmente no jornalismo e entretenimento voltado para o gênero feminino, sem revisitar o período situado entre as décadas de 60 e 80 do século XX. Temáticas como a revolução sexual, trabalho feminino, divisão de tarefas domésticas, divórcio, estavam no topo das discussões e alimentavam a escrita caudalosa e, em alguns casos, furiosa de algumas jornalistas e escritoras engajadas.
Da prática conformista dos consultórios sentimentais vimos surgir nas páginas de Claudia, a revista da dona de casa, os artigos lúcidos e corajosos de Carmen da Silva, incentivando as mulheres a sair do marasmo da acomodação e dependência. Em Manchete, Heloneida Studart fornecia um olhar diferenciado sobre os assuntos da política e das artes, enquanto seu livreto Mulher, objeto de cama e mesa vendia como água e fazia a cabeça de mulheres de todas as classes sociais. Marina Colasanti pedia licença nas páginas de Nova, onde a ordem era agarrar o seu homem, para falar com sensibilidade e poesia sobre relacionamentos de verdade. Já Rose Marie Muraro, psicanalizada e viajada, incendiava estereótipos e mitos em Libertação Sexual da Mulher, lançado por uma editora de padres, abrindo caminho para que Marta Suplicy nos ensinasse a gozar em rede nacional no inovador TV Mulher.
O contexto social e histórico em que essas mulheres emergiram, com o fortalecimento e organização do movimento feminista, é fundamental para a compreensão das idéias que expuseram. Foram alvo de resistências de toda sorte, seja dos grupos empresariais a que seus veículos estavam ligados, seja de seus editores ou mesmo do público. Mas tinham consciência da necessidade de construir um diálogo possível com suas leitoras e telespectadoras, negociando espaços, temas, ora avançando, ora batendo na mesma tecla.
Olhar para a sua produção, a partir do momento presente, é inevitavelmente pensar sobre a onda conservadora que se instalou sobre esses veículos de massa, sejam eles revistas, livros, programas de TV ou mesmo séries. O espaço para opinião das mulheres que falem, a partir de problemática social, que já era pequeno, foi praticamente extinto a partir da década de 90. O que se tem hoje, no Brasil, é um resgate do trinômio beleza-decoração-coração profundamente baseado em idéias conformistas, elitistas e mesmos racistas, vide as reedições de dicas sobre como manter o marido ou o namorado, que remontam ao século XIX, ou à busca de um corpo "perfeito".
Na TV, o interesse feminino é reduzido ao mundo das "celebridades" ou alguém aí esqueceu que a Sasha fez a primeira comunhão? Nas livrarias, os títulos sobre mulheres de 30 que conquistaram sucesso profissional e independência financeira, mas que queriam mesmo era ser donas-de-casa, se espalham como catapora, num efeito a la Sex and the City, série capaz de dedicar um episódio inteiro sobre o dilema de sua protagonista, Carrie Bradshaw, em comprar ou não um par de sapatos Manolo Blahnick. Menos mundo real impossível.
Daí os céticos podem argumentar que as mulheres já "chegaram lá", não precisando refletir sobre seus reais dilemas. Poderíamos, portanto, nos contentar com as imagens fúteis que criaram para nos representar nos media, para dar um tempo, afinal temos tanto, não é? Violência, desrespeito a direitos trabalhistas, divisão desigual de trabalho doméstico, no mundo dourado das revistas e programas de TV, parecem mesmo assuntos de neuróticas.
O mutismo das mulheres nesses espaços contraria, ainda, à intensa produção teórica e política gerada por grupos de pesquisa e redes feministas. Talvez nunca tenha se publicado tanto sobre a questão da mulher e de gênero. Bom lembrar que nossas jornalistas do passado bebiam, constantemente, nesses cadinhos. Nomes teríamos de sobra para realizar boas discussões.
É plausível pensar, portanto, numa reação extremada a qualquer temática que pareça feminista nos media hoje. A zombaria do passado deu lugar ao ódio que não permite sequer o debate. Um comportamento por demais preocupante num mundo em que "ratzinguers" de toda ordem vigiam nossos úteros, mobilizando Estado e Ciência.
A situação parece ainda contar com a contribuição daquelas que poderiam emprestar suas penas e argumentos para dinamizar as discussões. Algumas acadêmicas olham os media com desconfiança ou somente como objeto de análise, não enxergando as possibilidades dos veículos de massa, como fazem as argentinas em seu suplemento Las 12 (www.pagina12.com.ar). Já entre várias jornalistas existe a vergonha de tocar em assuntos tão incômodos ou "ultrapassados", afinal queremos parecer tão descoladas, não é? Bom mesmo era ser Carrie Bradshaw.
Ana Rita Fonteles é jornalista e doutoranda em História da Cultura na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
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